quinta-feira, 11 de abril de 2024

O DOENTE IMAGINÁRIO

 


A discussão sobre medicina entre Argão, “O Doente Imaginário”, e Beraldo, seu irmão, é muito interessante, até pelo modo como Molière se mete lá pelo meio ironizando as críticas de que era alvo à época, mas eu gosto mesmo é deste breve trecho em que Argão revela à sua segunda mulher a intenção de fazer um testamento. Os comentários de Belina são um tratado acerca do amor nas boas famílias:

ARGÃO: É preciso fazer o meu testamento da forma que o Senhor Boafé sugere, amorzinho, mas, por precaução, quero pôr nas vossas mãos vinte mil francos em ouro, que estão nos lambris da minha alcova, e duas letras ao portador, uma do Senhor Damão e outra do Senhor Geronte.
BELINA: Não, não, não quero nada disso. Ah! Quanto dizeis que há na vossa alcova?
ARGÃO: Vinte mil francos, amorzinho.
BELINA: Não me faleis mais de dinheiro, peço-vos. Ah! De quanto são as duas letras?
ARGÃO: Uma de quatro mil francos e outra de seis, minha doçura.
BELINA: A riqueza toda do mundo nada é para mim comparada connosco, doçura minha.

Molière, in “O Doente Imaginário”, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Húmus, Novembro de 2014, p. 56.

Sem comentários: