Dentro das coutadas os bichos farejam com apetites
interesseiros, em torno de reinados de papelão povoados por serviçais, bobos e
outros anões, a fazerem piruetas e números de equilibrismo. Aduladores,
bajuladores, especialistas da lisonja açucarada compõem parágrafos
intermináveis enquanto chupam a língua ressequida dos papas. A gente ri como
num número de stand up a vê-los ora mansos, ora histéricos, compondo a própria
história curricular com estratégicas permutas e alianças. Na verdade, atiram-se
a terceiros para se enaltecerem a si próprios, adubados pela vaidade que Camões
não pôs no último verso de Os lusíadas, mas podia ter posto. Ficou a inveja,
que é, por assim dizer, a consequência mais imediata da vanitas matricial. Nada
disto é particularmente inóspito, obriga apenas a alguma humidade, temperaturas
baixas e paciência nos dedos para continuar a passar páginas coladas umas às
outras de tão velhas. Mesmo quando cheiram a novas, sobretudo quando cheiram a
novas. Depois escolhe-se um cantinho na margem, à sombra de uma árvore
qualquer, e fica-se a contemplar o horizonte por cima do meio onde necrófagos
de várias origens se digladiam por ossos de presas velhas.
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