sábado, 14 de março de 2026

COUTADAS

 
Dentro das coutadas os bichos farejam com apetites interesseiros, em torno de reinados de papelão povoados por serviçais, bobos e outros anões, a fazerem piruetas e números de equilibrismo. Aduladores, bajuladores, especialistas da lisonja açucarada compõem parágrafos intermináveis enquanto chupam a língua ressequida dos papas. A gente ri como num número de stand up a vê-los ora mansos, ora histéricos, compondo a própria história curricular com estratégicas permutas e alianças. Na verdade, atiram-se a terceiros para se enaltecerem a si próprios, adubados pela vaidade que Camões não pôs no último verso de Os lusíadas, mas podia ter posto. Ficou a inveja, que é, por assim dizer, a consequência mais imediata da vanitas matricial. Nada disto é particularmente inóspito, obriga apenas a alguma humidade, temperaturas baixas e paciência nos dedos para continuar a passar páginas coladas umas às outras de tão velhas. Mesmo quando cheiram a novas, sobretudo quando cheiram a novas. Depois escolhe-se um cantinho na margem, à sombra de uma árvore qualquer, e fica-se a contemplar o horizonte por cima do meio onde necrófagos de várias origens se digladiam por ossos de presas velhas.

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