domingo, 15 de março de 2026

UM POEMA DE BERTOLT BRECHT

 


DO POBRE B. B.

1
Eu, Bertolt Brecht, sou das negras florestas.
Minha mãe resolveu pelas cidades andar
Comigo no ventre. E o frio das florestas
Até à morte me há-de acompanhar.

2
A minha casa é a cidade do asfalto. Desde o início
Apetrechado com os sacramentos da morte:
Com jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado, sorna, e no fim com sorte.

3
Sou amável com as pessoas. Até ponho
Chapéu de coco, como elas gostam de usar.
Digo: Têm um cheiro especial estes bichos
E digo: Não faz mal, o meu não é melhor.

4
Nas minhas cadeiras de baloiço, de manhã,
Às vezes um bando de mulheres faço sentar
E olho para elas descuidado e digo:
Com este aqui não podem vocês contar.

5
À noitinha reúno homens à minha volta
Por gentlemen nos vamos tratando.
Eles põem os pés nas minhas mesas
E dizem: Vamos melhorar. E eu
nem pergunto: Quando?

6
Cedinho ainda, no pardo amanhecer, os abetos mijam
E a passarada, os seus parasitas, começa a gritar.
A essa hora bebo um último copo na cidade e deito
Fora a beata e, inquieto, vou-me deitar.

7
Fomos vivendo, nós, leviana geração,
Em casas tidas por indestrutíveis
(Assim construímos os altos caixotes da Ilha de Manhattan
E, para divertir o Atlântico, as antenas flexíveis).

8
Destas cidades ficará o que as atravessou: o vento!
A casa alegra quem come... e a esvazia.
Sabemos que somos meros transeuntes
O que depois virá é de pouca valia.

9
Nos terramotos que aí vêm, espero,
Não vou deixar apagar o charuto Virginia, amargurado
Eu, Bertolt Brecht, vindo das negras florestas pr'as cidades de asfalto
E em tempos no ventre de minha mãe pr' aí lançado.

Bertolt Brecht in A Luz das Trevas - Poemas e canções, selecção, tradução e introdução de João Barrento, edição bilingue, livros nanook, 11, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2026, pp. 21-25.

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