Um dos aspectos interessantes no Kama Sutra, curioso livro de instruções que o Ocidente reduziu ao ilustrativo fetichista, é o modo como "a arte de amar" também não prescinde da táctica e da estratégia. Os termos surgem ocasionalmente, explícita ou implicitamente, sendo magistralmente tratados nos capítulos dedicados aos eunucos e às cortesãs, neste caso com especial clarividência nos processos de ganhar dinheiro com um amante. Nos antípodas da ética kantiana, o Kama Sutra é mais honesto ao propor acções por dever interesseiro, isto é, as que assumem o lucro enquanto fim. Em vez de um amor desinteressado - porventura idealista -, temos todo um conjunto de meios ao serviço do prazer sexual. Se te queres desembaraçar de um amante, toma lá 28 artimanhas. Usa uma ou todas à vez. O dever é, deste modo, acompanhado pelas conveniências, o que faz desta uma filosofia verdadeiramente "humana, demasiado humana", genuína, protegendo-nos pela clareza da hipocrisia a que estamos condenados quando sacrificamos as acções a um ideal de pureza que em lado nenhum se vislumbra.
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