domingo, 24 de maio de 2026

GENTRIFICAÇÃO

 

Escreve João Vieira Pereira, no Expresso:

"A gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte, a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade vertiginosa."

Um país a saque, cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas, futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão, suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.

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