Escreve João Vieira
Pereira, no Expresso:
"A
gentrificação não só arrasou bairros inteiros como está a mudar cidades e até
regiões. O centro de Lisboa é hoje disputado entre o turista e o residente
milionário. O mesmo se passa na linha de Cascais. A poucos minutos para norte,
a Ericeira tornou-se um dormitório de jovens estrangeiros a viverem o sonho de
serem nómadas digitais. Troia e Comporta estão a transformar-se em guetos para
milionários que acham que ganharam o direito de escorraçar todos os outros que
não partilham o mesmo gestor de fortunas. Os condomínios privados, com preços
em que apenas um lote de terreno chega aos vários milhões de euros, são
recebidos com orgulho pelo português, pacóvio e deslumbrado, mas que nunca terá
dinheiro para lá entrar. O mesmo que não percebe que a abertura de escolas
internacionais com mensalidades de vários milhares de euros é apenas uma
resposta de uma elite predisposta a sugar a qualidade de vida que encontraram e
que nessa senda procuram transformar-nos no espelho do país que deixaram para
trás. Esta invasão milionária está a descaracterizar Portugal a uma velocidade
vertiginosa."
Um país a saque,
cada vez mais desigual, entretido com feiras, festas e festivais, fátimas,
futebóis e fados, um país que é cada vez mais aquela imagem de um homem a
afundar-se num pântano que Manoel de Oliveira nos legou: a mão, a mão,
suplicava o desgraçado, enquanto à volta dele os miseráveis bulhavam sem
conseguirem organizar-se. Na AR, horas infindáveis de questiúnculas sem
sentido, burcas, notas de pesar e palermices entretêm o pagode. E o país é
isto, esta boçalidade, esta indigência, tudo rendido ao negócio, ao lucro, à
sala cheia a qualquer preço. Mas fiquem descansados: não há qualquer proibição
de colocar os chapéus à frente das zonas concessionadas nas praias. Que alívio.
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