Visita aos arquivos Ephemera na Vila da Marmeleira. Guardem tudo, não destruam nada, repetiu insistentemente JPP, que começou por citar Brecht para justificar uma história que se recupera não só pelos Césares, mas também pelo quotidiano comum. Evitarei juízos de valor sobre o bicho que corrói as provas, até por vivermos num tempo em que a memória está sob ataque. O esquecimento diz-me muito, é o motor da escrita, da criação, é esta paradoxal vontade de deslocar para fora o que pesa dentro. E depois as coisas ficam por aí, pilhas sobre pilhas de objectos, palavras, documentos que alguém se encarregará de conservar ou transformar em cinza. No jardim, um prato de parede com uma quadra: «Os calos das tuas mãos / São bem as tuas medalhas, / São o símbolo da nobreza / Que tu tens porque trabalhas.» Poesia popular, dizem, sem autor que se conheça. E no entanto, ali está para a eternidade.

Sem comentários:
Enviar um comentário