Esta noite sonhei que tinha organizado um congresso de
congressistas. A sala estava cheia de pessoas que passam a vida em encontros a
falar para o boneco, que, no meu sonho, era uma vasta plateia de congressistas,
todos com cara de manequim em montra de estabelecimento falido no centro
histórico da cidade. Falavam para o boneco sobre o sexo dos anjos, apresentando
power points, isto é, pontos poderosos do tipo ponto de exclamação travestido
de herói da Marvel, ponto de interrogação que mais parecia a mulher maravilha
ou super mulher ou lá o que era, ponto final com cara de reticências. Neste
congresso de congressistas, a certa altura houve um intervalo para café, ou
seja, um coffee break, em que os oradores que oravam para outros oradores
puderam trocar impressões sobre o clima, a selecção nacional e a temperatura
ambiente. Também houve uma sessão de networking com vários congressistas a
desfiar novelos de lã, exercitando ponto de cruz antes do drink de fim de
tarde, mais propriamente dito intervalo para copos e acepipes. Alguns pontos de
interrogação cortaram na casaca de um ponto de exclamação antes de regressarem
às reticências. No final, depois das conclusões inconclusivas, as
pessoas-manequim foram para casa com a sensação de dever cumprido em mais uma
reunião para reunir sem nada concretizar. Levaram de recordação um saco de
plástico com uma esferográfica bic azul e as centrais do Correio da Manhã
(patrocinador do grande congresso de congressistas profissionais). Tinham
falado, tinham orado, tinham obrado e os croquetes até não era maus. Eu
despertei com a boca seca.
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