domingo, 5 de julho de 2026

EPÍSTOLA

 
Escrevo-te para que saibas
quanto a noite continua noite
de madrugada há quem recolha o lixo
pela manhã passeiam-se os cães
no escuro as gaivotas dão descanso ao céu
por vezes chove
o vento nada traz de novo
e o sol repete-se por entre nuvens instáveis
 
Também o que muda se torna rotineiro
e eu entretenho-me a fazer abecedários
de cidades por visitar
de pintores obscuros
de canções antigas
repito os nomes que não quero esquecer
recolho-me em silêncio a desenhar baratas
passo a mão pelo pêlo doméstico das horas vagas
 
Valham-nos os sonhos
em que escapamos a nós próprios
o cemitério d' eus perfilados de génio
as ruas com nome de gente a fazer número
a água que ainda cambaleia entre comas
tu aí deste lado
eu aqui desse lado
 
Tu sabes e por isso te escrevo
a lembrar Inventários de ossos
constelações de pó
o bendito esquecimento que nos abrirá os olhos
a paz
o que importa
cão a lamber caldo entornado
sopas de nódoas na camisa engomada dos dias
 
Escrevo-te para que saibas
ainda há vaga no espectáculo da morte

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