terça-feira, 7 de julho de 2026

FUNERAL

Esta noite sonhei que estava num funeral. Ao contrário do costume, fui espreitar as trombas do morto. Digo trombas por ter sido tal como o sonhei, o defunto fora mesmo trombudo em vida, aquele tipo de gente que atravessa o paraíso apontando defeitos à perfeição. Para meu espanto, o trombudo estava sorridente dentro do caixão. E os olhos dele falavam. Finalmente a rir em morto, sozinho, encerrado no interior mais fundo de si mesmo, sem nada nem ninguém que lhe lamentasse a partida, para ali abandonado como animal na berma da estrada, só comigo por perto para lhe espreitar as trombas, o cadáver dizia: aqui é que se está bem. Repetia isto incessantemente: aqui é que se está bem, aqui é que se está bem, aqui é que se está bem. Respondi-lhe “bom proveito” e voltei-lhe as costas, isto é, acordei.

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