sábado, 22 de agosto de 2026

MANUEL

 


   Um dois em um: as 238 pp. de Manuel & as 39 pp. de Manuel – Manuel de lecture (TNDMII, 2014), que assumiremos como embrião do texto mais extenso. Uma nota prévia informa-nos que Manuel nasceu no ano 2000, primeiro como parte integrante de um livro apresentado na primeira bienal de Oeiras, evoluindo posteriormente para uma peça de teatro radiofónico e encontrando a sua configuração “literária” neste volume: «Manuel é uma obra que passou por uma fase plástica, acústica e cénica para integrar as três na sua forma final.» Numa Carta ao Leitor endereçada por Teresa Albuquerque, somos ainda informados de que o texto da primeira edição foi concluído por Alvaro García de Zúñiga (1958-2014) nos últimos dias de vida: «Embora completo é um livro que potencialmente não tem fim, contém muitos outros livros e combinatórias infinitas. É um livro-processo (...)». Antes de mais, refira-se estarmos perante uma obra de fôlego, uma espécie de testamento onde são identificáveis os problemas aflorados em textos anteriores mais curtos, tais como Teatro Impossível, Actueur ou s/t, aqui exaustivamente desenvolvidos através de um processo de desconstrução das formas e das convenções literárias que tudo coloca em diálogo. Esta dimensão testamentária, de resto, foi de algum modo assumida na inscrição frontispicial: «Alvaro: Manuel Post-Mortem / Manuel de Conserva / Conversa & Acciones, una vez inerte el cuerpo que, com espíritu, pensó sobre & produjo todo y de cuanto aqui se trata. Viaje dentro de tales Obras y sus Fuentes.»
   É mais um texto inclassificável quanto ao género, de uma hibridez observável, desde logo, nas sucessivas metamorfoses que foi sofrendo ao longo dos anos (plástica, acústica, cénica, literária). Há, porém, uma componente visual neste livro, não tão evidente noutras obras, que passa pela disposição tipográfica, pela inclusão de símbolos, de pictogramas, de ilustrações, até desenhos, mas também pela presença de vários sistemas de escrita aqui representados através de logogramas, grafemas, hieróglifos, toda uma alfabetografia que extrema a natureza multilingue anteriormente explorada na obra do autor. Dos hieróglifos às linguagens de programação há de tudo um pouco, num “processo” que tende, mais uma vez, para a (con)fusão de múltiplas linguagens acompanhado pela fusão de múltiplas línguas e idiomas. Outro aspecto relevante, directamente associado à polifonia decorrente do uso de várias línguas, é a dimensão sonora numa escrita em que as marcações rítmicas parecem determinantes, aproximando-se amiúde de técnicas de versificação ou de composição poética que assentam na conjugação de palavras através de aproximações fonéticas e gráficas. O próprio título Manuel – Manuel de lecture brinca com o duplo significado do nome próprio Manuel e do substantivo masculino francês que significa manual. Este é também um factor lúdico muito activo e atractivo na obra de Zúñiga, por vezes com resultados desconcertantemente cómicos: «APÊNDICE / Fue en su próprio entierro que Manuel supo que le habían sacado el apêndice» (Manuel – Manuel de Lecture, p. 33).
   Se Joyce nos desafiou com a exploração de todos os géneros literários nas 24 horas de vida de Leopold Bloom, Alvaro García de Zúñiga desafia-nos com a totalidade da linguagem na história de um Manuel que é, ao mesmo tempo, nome de personagem e manual de leitura mais dado a problematizações do que a instruções, com alusões que, aqui e acolá, permitem imaginar tratar-se este de um forte testemunho da relação entusiasmada que o autor manteve com as problemáticas da filosofia da linguagem. Sabotando a ideia de biografia, esta é também uma obra com certa dimensão autobiográfica. Longe de haver aqui um qualquer programa narrativo, a verdade é que a viagem aparentemente delirante proposta assim que levantamos voo com a leitura de Manuel - «Pour ouvrir lever» -,  percorre as etapas de uma vida amplamente biografada, a de alguém que procurou compreender a realidade através dos livros ou, pela inversa, os livros através da realidade. Talvez a única instrução a ter em conta deva ser a que surge logo a páginas 21: «Antes da Primeira Utilização / Desmonte o livro. Assim poderá familiarizar-se com as suas diferentes partes e peças e compreender melhor o seu funcionamento.» Este trabalho de desmontagem, que não é exactamente de interpretação ou de análise, até porque a obra se encarrega de resistir a isso minando constantemente qualquer tipo de compreensão definitiva, corresponde a uma familiarização com os processos inerentes à sua própria composição. Ele informa-nos ser um «audio libro» (p. 23), mas, ainda que o seja, é também um livro-jogo que propõe ao leitor um «Manuel enredado en la redacción de si mismo» (p. 29). E a partir daqui, só há que entrar no jogo aceitando as suas regras, que são as do bluff, isto é, da simulação, ou seja, de uma incansável desconstrução das metodologias interpretativas.
   Manuel nasceu em Ipanema de um pai panamenho (Manuel Papá-Mé), cônsul do Panamá em Paname (gíria para Paris), e de uma mãe senegalesa (N’d’laine Mó-páne) que passou a infância e a adolescência em Fès, e deve ao irmão mais velho (Manuel Freire Frère) a paixão por línguas. Dito isto, são várias as notas de rodapé, bem mais extensas que o corpo de texto principal, até chegarmos a um Manuel que se dedicou a explicar si mesmo a si mesmo, interessando-se por um «método fundamental de investigación que puede llevarnos a entender y resolver definitivamente el funcionamento interno del processo mental que va de las palabras pensadas a su expressión, sea esta escrita o dicha» (p. 48). Não nos cabe contar a história de Manuel, que a certa altura assume contornos de ficção científica colocando o leitor num labirinto do qual dificilmente se libertará sem inventar asas que o protejam da tentação interpretativa. «Et tout irradié qu’il est, va se mettre á émettre de la littérature pour le dit» (p. 92). Eis o programa: percorrer a espiral de notas de rodapé sobre notas de rodapé deixando-se levar pelo caos aparente de resignificações, pela desmesura das alusões, ligações, conexões, diremos hoje dos intermináveis links que vão impelindo a «Una lectura, anormal, de escucha, deficiente. Una lectura de escucha deficiente y anormal» (p. 112). Manuel antecipa a pós-verdade do mundo digital, virtual, da era do “pensamento artificial”, provocando-nos com materiais que escapam às delimitações lógicas de um pensamento que já não pode posicionar-se diante da realidade como se ela fosse totalmente percepcionável: «le problème du langage n’a rien à voir avec celui de la perception» (p. 170). A hipótese de captação do real é estimulante, sobretudo, para a imaginação, a qual não se rege, como é sabido, pelas regras do pensamento lógico, antes se encarrega de a ele escapar como prisioneiro numa cela. As percepções são altamente erróneas, ao contrário da imaginação que é altamente criativa.
   O texto vai deixando pistas que levam a uma única saída, a que sempre surge na obra de Zúñiga como término de um (infinito) exercício reflexivo: a morte, o silêncio, a inacção. Em Manuel – Manuel de lecture isso é ainda mais evidente, com um Manuel no leito de morte dividido entre os ténues fios de luz percepcionados pelos olhos ainda postos na televisão do quarto no hospital e o som do pip nas máquinas que o conservam vivo até um fim, mais uma vez, de comicidade desconcertante: «MANUEL, SMILE, YOU*RE IN INTERNET» (p. 35). Apetece dizer que o que acabou ainda agora começou, pois até chegarmos ao destino a viagem processa-se nos carris da “batalha de ideias” (p. 147) com múltiplos desvios, inflexões, derivações, saltando da linguagem comercial para a biologia molecular, da indústria da vida para a exploração aeroespacial, sem prescindir de uma moral efectiva e assaz concreta: «- Pienso – piensa Manuel – que la prueba mas acabada que somos unos animales de la peor espécie es olvidarmos de ello» (p. 157). A Carta Magna Ética de Manuel, que é uma carta magnética, prevê que os fins sejam meios que contribuam para a alteração dos ditos fins, pelo que o que importa sublinhar é, precisamente, a tal ideia de processo, de “livro-processo”, introduzida por Tereza Albuquerque na Carta ao Leitor, à qual devemos acrescentar esta síntese inescapável: «A reflexão sobre o papel e a natureza do pensamento, da linguagem e da escrita estão no centro desta desconstrução.» A morte é, portanto, um descanso para este Manuel que pensou exaustivamente descobrindo que os pensamentos, mais do que as conversas, são como as cerejas e é essa hiperactividade num corpo vivo que aqui surge registada sob a forma de palavras – unidades compostas por símbolos que emitem sons produtores de significados. «Manuel sonha com línguas fluindo sem fronteira, como paisagens à janela de um comboio. Línguas rios. Num comboio» (p. 180). Talvez seja esta a imagem mais poética de um Manuel que, deparando-se com a extinção dos idiomas como quem se depara com a extinção da própria vida, conclui que o sentido repousa mais implacavelmente na ausência de sentido. «Manuel se fue Alejandro.»

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