Eis chegado o tempo em que se torna necessário escavar para
encontrar as palavras. Como ossadas, cacos de faiança antiquíssima, resquícios
de civilizações antigas, estruturas soterradas, fósseis em lugares inóspitos, as
palavras são contemporaneamente uma curiosidade arqueológica que anseia por luz
natural. Umas mortas, outras perdidas, quase todas ao abandono, são sobras de
um mundo extinto, o da mão que desenhava a vibração de um corpo sobre a
superfície da folha. Prescindimos das palavras como o escravo que abdica da emancipação,
delegando o futuro no chicote do senhor.
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