REMORSO
Di-lo, esse remorso - para que serene; é ele
bem-intencionado, decerto, mas perigosamente enviesado.
Não deixes que o passado tanto te tiranize.
Nem tanta importância dês a ti mesmo.
O mal que fizeste, menor foi
do que acreditas: bem menor.
A virtude que agora te trouxe o remorso
já então estava latente em ti.
Eis que um episódio, que retorna
súbito à tua memória, esclarece
a razão de um teu acto que pouco
louvável te pareceu, mas que agora se justifica.
Não confies demasiado na tua memória:
esqueceste tantas coisas - ninharias diversas -
que te dariam razão suficiente.
Quanto ao lesado, não penses que o conhecias
assim tão bem. Teve decerto alegrias que desconheceste;
e não terão sido afinal arranhões
as feridas - terríveis, julgas tu, por
desconhecimento da vida dele - que lhe infligiste?
Não confies na tua enferma memória.
Serena o remorso, sempre
enviesado contra ti - até à falácia.
[Outubro, 1925]
K. P. Kaváfis, in Aquele Belo Rapaz - poesia completa, tradução de José Luís Costa, posfácio de Tatiana Faia, Assírio & Alvim, Novembro de 2025, pp. 399-400.

Sem comentários:
Enviar um comentário