quinta-feira, 8 de outubro de 2026

NOBEL DA LITERATURA: ANNE CARSON

 


Sobre Anne Carson, neste pardieiro:

1. Antigonick, uma peça de teatro: aqui.
2. Autobiografia do Vermelho: aqui.
3. Vidro, Ironia e Deus: aqui.
4. Um fragmento de Águalisa - ensaios e poesia: aqui.
5. Um poema de A Beleza do Marido - um ensaio ficcional em 29 tangos: aqui.
6. Albertine - Rutina de ejercicios: aqui. Deste último, que creio não estar publicado em Portugal, deixo uma borla:

Apêndice 4 sobre Samuel Beckett
 
Os hábitos, o sofrimento, o tédio, a memória, beber chá, biscoitos e a inescrutável banalidade da existência são tópicos que Beckett e Proust têm em comum. Cada qual anatomiza-os de maneira diferente. Aquilo que para Proust se encontra localizado na cabeça, a boca ou a mente, move-se pelo corpo abaixo em Beckett. Por exemplo, a cena em que molha a madalena no chá, que transporta Marcel ao interior de um sonho metafísico. Ao primeiro gole de chá, segue-se um segundo e um terceiro, pois pretende prosseguir o estudo desta inesperada delícia. Porém, decepciona-se ao descobrir que a sensação diminui ao repetir-se: «Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo», diz. Compare-se com o bebedor de chá Murphy, protagonista da novela homónima de Samuel Beckett: «A sensação de um assento que, finalmente, se juntava ao seu traseiro derreado era tão deliciosa que se levantou de chofre e repetiu o movimento. Para não se deixar comover com tais ternuras, teria de as conhecer melhor. Mas a segunda junção foi uma enorme decepção.» No geral, Beckett está mais interessado do que Proust na parte posterior do corpo. Veja-se, por exemplo, a personagem de Pim em Beckett, apunhalado no cu com um abre-latas, ou Krapp a queixar-se do intestino enquanto continua a comer bananas, ou o abundante discurso anal em Murphy, ou a exaustiva excrementação do mundo nas expressões de Vladimir e Estragón, para não falar do modo como Beckett rebaptiza os editores Chatto & Windus, que lhe rejeitaram uma colecção de poemas em 1934, como “Calaboca & Jáera”  (Shatupon & Windup). 

Versão de HMBF. Nas citações de Proust e Beckett usei as traduções de Mário Quintana e Maria Jorge Vilar de Figueiredo. 

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