Assim muito a custo, lá descobrimos que Daniel Jonas nasceu no Porto em Abril de 1973. Publicou, em 1997, O corpo está com o rei (Prémio AEFLUP/CGD) e, em Setembro de 2002, Moça formosa, lençóis de veludo nos Cadernos Do Campo Alegre. Os Fantasmas Inquilinos, agora publicado pela Cotovia, é então o seu terceiro livro de poemas. Na colecção de poesia das Edições Cotovia estávamos habituados a ver poetas de outro calibre: Pavese, Celan e, mais recentemente, Philip Larkin e Alda Merini. Em boa companhia se estreia o nosso poeta numa editora de maior projecção. Isto, por si só, não faz o acontecimento. Nem mesmo o facto de alguns já haverem olhado para esta poesia com olhos de espanto tais que a colocam no patamar, quanto a mim exagerado, da revelação do ano. Folheando Os fantasmas inquilinos deparamos, desde logo, com uma imensa diversidade formal que vai do poema epigramático ao poema longo. Quer-me parecer que é neste último “género” que a poesia de Daniel Jonas melhor se impõe. O problema é que não são muitos os poemas longos neste livro. Saliento, entre mais dois ou três, Cameo, Três mulheres e um céu de Delft e Psicodrama. Por si só, estes três poemas valem o livro. Não que o restante material seja de menor relevância, embora esteja longe de irmanar a intensidade e o fôlego da trindade supracitada. Vamos a contas: impressionante proficuidade lexical (o que, em certos casos, chega a tornar fastidiosa a leitura), extrema habilidade com os jogos de palavras (trocadilhos, cacofonias, enigmas, rimas internas, «rimas circulares», aliterações, há de tudo um pouco nestes poemas), referências e envios vários (de Aristóteles a Kant, de Hölderlin a Mandelstam, de Baudelaire a Rimbaud, entre muitos outros), um gosto permanente pelo absurdo (talvez Jonas seja o mais beckettiano dos nossos poetas recentes), eclectismo poético (patenteado no domínio de várias soluções que com impressionante à vontade circulam entre a tradição e a vanguarda), parecem-me ser os elementos mais relevantes desta poesia. A poesia aparece aqui como uma realidade de mecanismos autónomos, uma mecânica compulsiva a desbravar campos de sentido. «Um poema é: não pode ser doutra maneira» (p. 82). Imaginemos O’Neill à mesa com João Miguel Fernandes Jorge: temos Daniel Jonas. Do primeiro, a marca intemporal do absurdo, o aspecto lúdico, a atitude experimental, o quotidiano a embrulhar-se na linguagem; do segundo, um amplo «universo referencial», a agilidade no recorte da realidade e a lógica da ambivalência. Exemplos, podem ser muitos. Deixo este: «O projecto é: acender a televisão com um controlo remoto / e cada vez mais reticente à mudança, lareira hertziana / para o degelo da alma, evocar um paradigma ou dois, / a eficiência do consolo moral, pôr de pernas para o ar / o que rastejava, comer o miolo da estearina / ou ver dilatarem as sombras / conforme a perspectiva e conforme a perspectiva / ter vários pontos de vista e não só no momento / mas fundir no espaço a dança em redor de mim. Isto é cubismo / existencial, ou a dimensionalidade da memória: / o cheiro a gato, aquele odor bafiento a reality show, / tão toda bonita em cada uma das minhas câmaras era / entre escamas de cebola e lavatórios lascados / de tingir cabelo. Havia portas abertas e prateleiras / e uma poética de se trazer por casa // e ainda o bordão que meneio não é o de Moisés / nem a épica a de Tasso, / ainda o calor não é o de Toledo nem o de Córdova / nem o meu estilo de ginete, / antes habito o chamado poema ocasional, / ou a longa sestina, e se a ordem dorme acordo bulicioso / e devagar comprimo palavras e conheço-lhes / toda a descompressão / e sentido» (p. 38-39). Repetem-se imagens: a da «sólida solidão», a do poeta como «afundador de diques». São boas imagens. Pena é que, por vezes, se percam numa poesia que funciona mais como uma espécie de lenga-lenga para adultos. Eu gosto de lenga-lengas, assim como aprecio «o absurdo movimento circular» de certos poemas. Mas há humores que não têm graça e que, por vezes, embaçam o riso.quarta-feira, 28 de setembro de 2005
OS FANTASMAS INQUILINOS
Assim muito a custo, lá descobrimos que Daniel Jonas nasceu no Porto em Abril de 1973. Publicou, em 1997, O corpo está com o rei (Prémio AEFLUP/CGD) e, em Setembro de 2002, Moça formosa, lençóis de veludo nos Cadernos Do Campo Alegre. Os Fantasmas Inquilinos, agora publicado pela Cotovia, é então o seu terceiro livro de poemas. Na colecção de poesia das Edições Cotovia estávamos habituados a ver poetas de outro calibre: Pavese, Celan e, mais recentemente, Philip Larkin e Alda Merini. Em boa companhia se estreia o nosso poeta numa editora de maior projecção. Isto, por si só, não faz o acontecimento. Nem mesmo o facto de alguns já haverem olhado para esta poesia com olhos de espanto tais que a colocam no patamar, quanto a mim exagerado, da revelação do ano. Folheando Os fantasmas inquilinos deparamos, desde logo, com uma imensa diversidade formal que vai do poema epigramático ao poema longo. Quer-me parecer que é neste último “género” que a poesia de Daniel Jonas melhor se impõe. O problema é que não são muitos os poemas longos neste livro. Saliento, entre mais dois ou três, Cameo, Três mulheres e um céu de Delft e Psicodrama. Por si só, estes três poemas valem o livro. Não que o restante material seja de menor relevância, embora esteja longe de irmanar a intensidade e o fôlego da trindade supracitada. Vamos a contas: impressionante proficuidade lexical (o que, em certos casos, chega a tornar fastidiosa a leitura), extrema habilidade com os jogos de palavras (trocadilhos, cacofonias, enigmas, rimas internas, «rimas circulares», aliterações, há de tudo um pouco nestes poemas), referências e envios vários (de Aristóteles a Kant, de Hölderlin a Mandelstam, de Baudelaire a Rimbaud, entre muitos outros), um gosto permanente pelo absurdo (talvez Jonas seja o mais beckettiano dos nossos poetas recentes), eclectismo poético (patenteado no domínio de várias soluções que com impressionante à vontade circulam entre a tradição e a vanguarda), parecem-me ser os elementos mais relevantes desta poesia. A poesia aparece aqui como uma realidade de mecanismos autónomos, uma mecânica compulsiva a desbravar campos de sentido. «Um poema é: não pode ser doutra maneira» (p. 82). Imaginemos O’Neill à mesa com João Miguel Fernandes Jorge: temos Daniel Jonas. Do primeiro, a marca intemporal do absurdo, o aspecto lúdico, a atitude experimental, o quotidiano a embrulhar-se na linguagem; do segundo, um amplo «universo referencial», a agilidade no recorte da realidade e a lógica da ambivalência. Exemplos, podem ser muitos. Deixo este: «O projecto é: acender a televisão com um controlo remoto / e cada vez mais reticente à mudança, lareira hertziana / para o degelo da alma, evocar um paradigma ou dois, / a eficiência do consolo moral, pôr de pernas para o ar / o que rastejava, comer o miolo da estearina / ou ver dilatarem as sombras / conforme a perspectiva e conforme a perspectiva / ter vários pontos de vista e não só no momento / mas fundir no espaço a dança em redor de mim. Isto é cubismo / existencial, ou a dimensionalidade da memória: / o cheiro a gato, aquele odor bafiento a reality show, / tão toda bonita em cada uma das minhas câmaras era / entre escamas de cebola e lavatórios lascados / de tingir cabelo. Havia portas abertas e prateleiras / e uma poética de se trazer por casa // e ainda o bordão que meneio não é o de Moisés / nem a épica a de Tasso, / ainda o calor não é o de Toledo nem o de Córdova / nem o meu estilo de ginete, / antes habito o chamado poema ocasional, / ou a longa sestina, e se a ordem dorme acordo bulicioso / e devagar comprimo palavras e conheço-lhes / toda a descompressão / e sentido» (p. 38-39). Repetem-se imagens: a da «sólida solidão», a do poeta como «afundador de diques». São boas imagens. Pena é que, por vezes, se percam numa poesia que funciona mais como uma espécie de lenga-lenga para adultos. Eu gosto de lenga-lengas, assim como aprecio «o absurdo movimento circular» de certos poemas. Mas há humores que não têm graça e que, por vezes, embaçam o riso.terça-feira, 27 de setembro de 2005
WHAT CAN I DO?
quinta-feira, 22 de setembro de 2005
REPETIR O POEMA
Depois de A Alegria do Mal, de José Emílio-Nelson, a colecção Finita Melancolia, das Quasi Edições, brinda-nos com este excelente Repetir o Poema (1979-1999), da poeta Isabel de Sá. Sobre Isabel de Sá sabemos pouco, apenas o necessário, talvez mais do que o necessário. Já sobre a sua poesia não sabemos nada que não seja fruto do nosso olhar, dada a escassez de divulgação a que tem sido sujeita. As poucas referências que encontramos a esta obra, deixam-se levar, quase na totalidade, por aquilo que nos parece o pendor menos interessante destes e de quaisquer outros versos: a orientação sexual da autora. Ora, sem desprimor dos que insistem na patacoada de uma “escrita de orientação gay e lésbica”, como se isso fosse, por si só, elemento valorativo de uma obra, devo dizer, desde já, que não estou minimamente interessado em ler poesia à luz das tendências sexuais de quem a escreve. Até porque, no caso presente, essa orientação torna-se "explícita" em pouco mais do que num dos catorze livros que compõem este volume. Refiro-me a Em nome do corpo (1985), onde logo num dos poemas iniciais, Delicadeza, podemos ler o que se segue: «Com delicadeza ela beijava meus dedos. Nossos rostos tocaram-se numa intimidade adolescente. Os corpos abandonavam-se à perturbação, sem cansaço, em gestos repetidos. O poema aparecia tatuado na palma da mão» (159). Que nos sirva então a última imagem deste breve excerto para irmos ao cerne da questão: a relação poema-corpo. O que há de mais interessante nesta poesia é precisamente essa noção do corpo como lugar de rebentação e produção de imagens. Dividamos esta obra em três partes: 1.ª os livros compreendidos entre o inaugural Esquizo Frenia (1977-1978) e Nervura (1981); 2.ª de Em Nome do Corpo (1985) a O Avesso do Rosto (1989); 3.ª os três títulos finais, já todos da década de 1990 – Poetas Suicidas (1990), Erosão de Sentimentos (1994-1996) e O Brilho da Lama (1997-1998). Na primeira parte eu salientaria, deturpando o título do primeiro livro da autora, uma escrita de esquissos frenéticos. Nesses primeiros livros encontramos uma linguagem mormente imagética, à base de imagens sobrepostas (atentemo-nos na capa), por vezes (de)formadas, que têm no corpo, ao mesmo tempo, suporte e matriz. «O que existe ali / não é uma espécie de expressão, é a expressão» (p. 21). Esta intensidade expressiva dos poemas iniciais é talvez a característica mais atraente da poesia de Isabel de Sá, que cultiva o poema em prosa como em poucos casos na poesia portuguesa (lembro-me, assim de repente, de algum Al Berto, de Luis Miguel Nava e de uma certa Luiza Neto Jorge – a de Difícil Poema de Amor). Já na segunda parte, o discurso torna-se mais linear, a sintaxe e a semântica como que se abrem, tornam-se mais disponíveis para o leitor. Não há propriamente uma descomplexificação do discurso, mas há um tom mais reflexivo sobre essa relação entre a escrita e o corpo, o processo pelo qual o poema irrompe e evoca a infância, os abismos da memória, os outros, o passado, o presente, o real, o irreal: «Penso no poema onde a sobrevivência pela escrita é possível» (p. 187). No entanto: «Escrever é uma forma de abandono que não pertence à realidade, nem tem valor perante o caos da existência» (p. 205). É precisamente esse caos que está em foco na terceira parte, a que comporta os três últimos livros aqui representados. A prosa dá lugar ao verso, inventariam-se biografias de poetas suicidas, rastos do declínio, fotografa-se a ruína do mundo, desiste-se da morte, enterrando-a no poema, porque do outro lado da palavra as Imagens são bem mais terríveis e insuportáveis: «Imagens de seres humanos / bóiam nos rios como bonecos / de plástico. É A Vergonha / a toda a hora na televisão. / Os soldados abrem valas comuns, / as escavadoras levantam corpos / que se despedaçam. Não vão esquecer, / nunca mais dormirão como dantes. / O cheiro, os abutres / na berma da estrada a criança / só que ninguém vê. Deve ser / o fim do Mundo ou o princípio / de qualquer outra coisa» (p. 333).terça-feira, 13 de setembro de 2005
A INSTANTE NUDEZ
Todas as razões e mais algumas são legítimas na definição dos critérios editoriais de uma editora, sejam elas de ordem literária, política, sexual, ou outra qualquer. Há editoras cuja identidade é facilmente perceptível: quer pelos autores que edita, quer pelo conteúdo das obras desses autores. Haverá casos excepcionais, de salutar eclectismo e "meritosa" pluralidade. São como as bruxas: não sabemos onde estão, mas sabemos que existem. É raro um autor editar pela qualidade intrínseca da sua obra. Chega-se à edição por intermédio de prémios, amigos, conhecidos, afinidades literárias, políticas, ideológicas, idiossincráticas, etc., mas muito raramente pela qualidade intrínseca da obra. Não vem mal ao mundo quando os editados, patenteando mais ou menos essas afinidades com as suas editoras, revelam qualidades literárias que justifiquem a edição. O mesmo não sucede quando na obra em causa tudo cheira a mofo, já visto, arroto panfletário, servilismo bacoco, ainda que o labor da cantoria ande às voltas com a insubmissão, a resistência, a recusa, a militância, o humanismo de punho em riste. Por muitas e pelas mais diversificadas razões, a Editorial Escritor, de Leonardo de Freitas, merece a nossa consideração - pela persistência, pela obstinação, pelo esforço. Tudo vem por água abaixo quando nos brinda com orfeus de terracota, às contas com o Senhor Bom Deus sob a aproximação nebulosa da morte. É o que acontece em A Instante Nudez, de José-Augusto de Carvalho. Natural de Viana do Alentejo, José-Augusto de Carvalho terá publicado o seu primeiro livro de poesia, Arestas Vivas, em 1980, ao qual se seguiram Sortilégio (1986), Tempos do Verbo (1990), Vivo e Desnudo (1996) e, agora, este A Instante Nudez (2005). A obra em causa abre com uma Inscrição - «sou na perenidade da vida / a transitoriedade da forma» -, seguindo-se um Pórtico e dois conjuntos intitulados De Mim e de Deus, o último dos quais composto, na sua maioria, por sonetos. Das memórias iniciais, às tomadas de posição finais, o que está sempre presente é a relação com o divino. O Deus ensinado e propagado nas escolas do antigo regime, o Deus ineficiente perante a constatação da desgraça e o Deus recusado pela sua inutilidade. Afirmação incendiada da força humana, pelo elogio da luta e da sobrevivência, A Instante Nudez reduz deus (com minúscula), pela negação e pela recusa, a uma falácia, ao mesmo tempo que deifica a capacidade humana de sonhar. Discurso tipicamente leninista, do qual a epígrafe brechtiana de abertura não deixa lugar para hesitações. Salvam-se os momentos em que, com candura e leveza, denunciando um trabalho apurado da palavra, o autêntico dilema existencial vem à superfície do poema: «já caem sobre mim as neves da invernia / de branco me vesti na barba e no cabelo / o tempo que é o meu cansado me anuncia / que em breve o fim irá em nada convertê-lo // confesso não sentir tristeza ou alegria / só esta indiferença absurda ao antevê-lo / não sei por que nasci apelo ou pesadelo / a morte diz que vem que venha em estesia // naufrago neste mar de nada ou de mistério / nesta deriva andei e de onde para onde / não sei donde zarpei nem onde ancorarei // e neste desencontro um vago transe etéreo / sem terra nem raiz por mais que tente e sonde / deslumbra-se na luz de angústia em que ceguei». Deus está morto. O respeitinho pelos mortos é muito bonito. Persistir em remexer a sua morte, assemelha-se à profanação duma campa. Acerca do poeta e de Deus, saberá, cada qual à sua maneira, quando o tempo de nos fazermos em pó assim o ditar.
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