Jaz morto e fino aquele que morreu grosso.
sábado, 28 de abril de 2007
quinta-feira, 26 de abril de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
OFÍCIO DIÁRIO
O meu primeiro contacto com a poesia de Torquato da Luz (n. 1943) deu-se há coisa de quinze anos, através de uma antologia organizada por Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves. Falo de Poesia 71, editada pela Editorial Inova, em Junho de 1972. O nome de Torquato da Luz era então, para mim, completamente desconhecido, pelo que não foi sem espanto que o encontrei nessa antologia ao lado de poetas como Alexandre O’Neill, Almada Negreiros, António Ramos Rosa, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Herberto Hélder, João Miguel Fernandes Jorge, Mário Cesariny de Vasconcelos, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, entre tantos outros. O mesmo espanto voltei a experimentar quando, em início de actividade blogueira, voltei a cruzar-me com esta poesia, desta feita, num weblog intitulado Ofício Diário. Foi com imenso agrado, pois então, que recebi em casa a colectânea, agora publicada pela Papiro Editora, onde Torquato coligiu alguns dos poemas que foi publicando no seu weblog. Em livro, quer queiramos quer não, a poesia respira de modo diferente, o que estará relacionado com as especificidades dos diversos suportes que dão guarida à palavra. Neste caso específico é importante sublinhar um esforço de reorganização da matéria dada, uma distribuição dos poemas que pouco deve ao ritmo com que foram sendo publicados no weblog. Não vindo os poemas datados, fui, por mera curiosidade, averiguar das datas de publicação on-line. Se não me enganei, o poema mais antigo data de 10 de Fevereiro de 2005 e aparece na página 67 do livro, enquanto o mais recente, de 4 de Novembro de 2006, surge na página 8. Isto, por si só, não quer dizer grande coisa, mas denota uma intenção de alinhar os poemas, de arrumá-los sob um outro critério que não seja o critério cronológico de quem escreve um diário por ofício. Há ainda a referir que alguns títulos foram mudados, por vezes de forma radical (o poema Sombras intitulava-se Fantasmas, o poema Sem Medo aparece agora como simplesmente Tu, O Tempo deu lugar ao Ano Novo, etc.), outras vezes com pequenas alterações (A Tua Voz aparece agora somente como Voz, o mesmo acontecendo ao poema Nome que outrora se intitulou O Teu Nome, etc.). Fico, no entanto, sem perceber se a repetição de um poema é intencional ou não. O poema Margem (p.10) reaparece na página 78 com o título Na Margem e duas ligeiras diferenças, uma no conteúdo de um verso outra meramente formal, que não alteram o sentido do poema. Distracção? Se sim, devo dizer que em nada sai beliscado o cômputo geral. Nos cerca de noventa poemas incluídos nesta colectânea vislumbramos uma voz plenamente amadurecida, segura de si, com versos bem delineados e opções indiferentes às tendências do seu tempo. Neste Ofício Diário há um processo de busca e autoconhecimento que balanceia entre o amor e o sentimento de naufrágio, um balanceamento que resulta numa poesia simples, sim, mas nada simplória, a poesia daquele que não sabendo os porquês nem os para quês da vida opta pelo caminho do coração, o caminho afectivo de quem se entrega a um amor que pode ser entendido de várias formas mas que não se explica senão por si mesmo. Esse tu amoroso ao qual se dirige o poeta, por vezes tem corpo feminino, outras tantas vezes confunde-se com as forças da natureza. A mensagem final é equilibradamente positiva, recusando, porém, qualquer tipo de positivismo. Mesmo quando se embrenham no mundo sombrio do medo, do abandono e da solidão, os poemas de Torquato da Luz como que nos convocam para o lado oposto da sombra, um lado de busca e de entrega. Os recursos são os mais limpos, o poema desenha-se com estranha facilidade, não há mágoa nem ressentimento, há antes o lirismo das anáforas a reforçar o esforço de uma procura, de uma busca incessante do eu próprio e de algo mais que se esvaiu no tempo, no esquecimento. Gostei principalmente dos poemas Cactos (p. 17), Algures (p. 50) e O Cortador de Presunto (p. 83), pelos remates irónicos e por um sentido de humor que, de certa maneira, acaba destoando do resto. Ainda assim, parece-me esta poesia uma proposta bastante válida.sexta-feira, 20 de abril de 2007
O GRANDE SILÊNCIO
O modo de vida preconizado pela Ordem dos Cartuxos foi pela primeira vez registado cinematograficamente neste O Grande Silêncio (2005). O facto, já de si fortíssimo do ponto de vista promocional, garantiu a Philip Gröning (n. 1959) a adesão pública e crítica, aguçada pela expectativa voyeurista sobre o que teria resultado de dezassete anos de espera para filmar o interior da Grande Chartreuse, mosteiro situado nos Alpes franceses. Gröning terá ali passado seis meses sob rígidas condições que proibiam entrevistas, comentários, música. Os 169 minutos de documentário retratam essa experiência de forma directa, sem artifícios técnicos de monta, com a austeridade imposta pelo próprio local. É impossível não nos deixarmos impressionar de alguma forma por aquele despojamento, um estado de reclusão voluntário que, supostamente, coloca os homens mais perto de Deus. O Grande Silêncio é apenas interrompido pela prática do canto gregoriano, excepcionalíssimos momentos de confraternização e convívio, leitura ritualista de passagens bíblicas e dogmas da Ordem. De resto, o realizador separa os afazeres diários, os rituais cumpridos à risca, com citações, por vezes repetidas, de textos que nos introduzem no género de fé subjacente a este itinerário da mente para Deus. Enclausurados como peixes num aquário, os frades do silêncio dedicam-se aos afazeres quotidianos: rapam o cabelo, distribuem refeições, alimentam animais, cortam lenha, tratam da horta, oram, costuram hábitos, tocam o sino, massajam-se, cumprem escrupulosamente os rituais aos quais juraram devoção, iniciam os noviços nos preceitos da Ordem. A rigidez e previsibilidade dos gestos contrasta com a dimensão do acaso e do inesperado que matiza a Natureza, tão bem filmada num outro documentário, há cinquenta anos, por Jacques-Yves Cousteau: O Mundo do Silêncio (1955). Enquanto o silêncio dos homens é um voto do que há de razão na fé, o silêncio das funduras marítimas é uma qualidade própria da Natureza. Entre o silêncio dos homens e o silêncio dos peixes há-de estar Deus algures, mesmo que a cada um de nós caiba mais esperar que ele nos encontre do que desesperar de encontrá-lo. A doutrina dirá o contrário, mas a doutrina, além de nunca ter sido boa conselheira, é péssimo exemplo. O historiador José Mattoso (n. 1933), monge beneditino durante vinte anos, explicava há dias numa entrevista publicada na revista Única, do jornal Expresso, que «o monaquismo, que começa com os eremitas do deserto no século IV, criou um movimento de ruptura com a sociedade. Se a pessoa que se recolhe ao isolamento concentra todas as suas energias e inteligência na procura de Deus de uma forma radical e acredita que Deus é aquele que preside à vida humana, Ele orientará e salvará a Humanidade. E portanto o que é bom para um poderá ser bom para todos, dado que o Bem alastra de uma maneira misteriosa». Continuando, dizia Mattoso: «No silêncio encontro a simplificação, a essência das coisas, a sua pureza e simplicidade». É esta fé no silêncio enquanto voz essencial que atrai no modo de vida mostrado pelo documentário de Philip Gröning, muito mais persuasivo que a eloquência dos catequistas e a tagarelice doutrinária dos pseudo-procuradores de Deus na Terra. Eu, que não acredito em Deus, sinto-me tentado à conversão, permitissem-me Internet no mosteiro e pândegas de fim-de-semana… Passe a ironia frouxa, o problema é que a existência de Deus, do meu ponto de vista, é tão provável quanto a possibilidade do silêncio. Mesmo que por este entendamos uma abdicação voluntária da própria natureza humana, o que, salvo raríssimas excepções, é só mais um modo de morrer como outro qualquer.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
ESFORÇO
O poeta: Tudo é inútil, incluindo a própria vida.
O filósofo: Então por que não nos matamos?
O poeta: Porque a vida é tão inútil que não merece esse esforço.
O filósofo: Nesse caso, não será menor o esforço de nos matarmos ao esforço de nos vivermos?
quarta-feira, 18 de abril de 2007
terça-feira, 17 de abril de 2007
JESUS
Encavalitado no pai, Jesus atravessou o mar de uma ponta à outra. Quando chegou ao deserto, foi arrastado para o seu estômago. Assim ocorreu a morte do Senhor, de uma indigestão fatal provocada pela tendência para a autofagia.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
NÚMEROS GRANDES
Os amigos dos amigos tinham as costas muita largas. Os meus pais vendem números XXL.
terça-feira, 10 de abril de 2007
CONCORRENTE
Krzysztof Kieslowski, Censura, Cobalto, Monarquia, Verão. A solução era óbvia, mas a concorrente respondeu em branco.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
A ALEGRIA DE GOSTAR
Comecemos pela ideia: uma editora de audiolivros. Num país como o nosso uma ideia destas é não apenas uma prova de audácia como também um autêntico insulto, dê lá por onde der. Porquê um insulto? Porque num país como o nosso os livros são para fingir que se lêem e os CDs são para fingir que se ouvem, como tudo o resto que é sempre, ou quase, para fingir que se. À excepção deste insulto, tão real quanto a existência de livros que se escutam e de CDs que se lêem, podemos apenas acoplar o deleite, que num tempo de neodepressivos com curso tirado no manancial genético das perturbações bipolares é quase outra forma de insultar quem faz questão de sofrer fechando os olhos a tudo o que possa ameaçar o sofrimento. Pois não somos nós um país de fadistas? País de carpideiras, mais ou menos mansas, apaixonados por coisas como a saudade e o nevoeiro, a melancolia e a sublimação do sacrifício, desde que seja light, Portugal tende a olhar de soslaio tudo o que seja mimo, paixão, deleite, deslumbramento, carinho, tudo o que seja A Alegria de Gostar. A essas coisas a gente dá o cunho de pirosas e lamechas, tão temerários que somos no lamaçal da desgraça. Digo eu que esta Boca, não sendo uma boca pintalgada pela voluptuosidade dos batons carmins, nem mesmo boca de lábios carnudos, é de uma sensualidade sem limites, porque nos dá o prazer das coisas simples, autênticas, por que não dizê-lo, belas, sem o sentimentalismo pobre nem o sensacionalismo enfatuado de tantas boas ideias que se vão por aí perdendo nos ditames da ronronice. Esta Boca é um risco com as medidas perfeitas do riso. O primeiro dente não poderia ter nascido mais a propósito, com a ajuda de uma das mais belas vozes portuguesas – a de Amélia Muge – que aqui se cala para dar base sonora à dicção não menos exímia de Changuito, quase sempre a solo mas "entremeado" com as introduções de Oriana Alves. Posso garantir que é um prazer do tamanho do mundo escutar, ouvir, escutar, ouvir, ler, estes poemas infantis de Jairo Aníbal Niño (n. 1941) na voz destes diseures. Disse poemas infantis? Não liguem, só mesmo o meu lado mais adulto, ou seja, o menos precavido, poderia proferir uma calamidade destas. Estes poemas do colombiano Jairo Aníbal Niño são, sem dúvida, breves retratos da infância, estórias em verso dessa idade que é a idade da poesia, mas não têm que ser necessariamente, apesar de não escaparem a classificações do género, poemas infantis. E se tiverem de ser, são do melhor que há! Pena que o CD não se faça acompanhar de um libreto com as traduções, o que não seria de todo contraproducente embora de todo seja perceptível que tal não suceda. Não é difícil, porém, encontrar alguns dos sopesados versos de La alegría de querer. Poemas de amor para niños pelos ínvios caminhos das auto-estradas da informação. Trago para aqui, em castelhano, o que é para ler com os ouvidos, em português, no CD:MIRO LA LUNA LLENA
Miro la luna llena
y compruebo que la ausencia
tiene forma
de una brillante y triste rueda de bicicleta
quarta-feira, 4 de abril de 2007
BICICLETAS PARA MEMÓRIAS & INVENÇÕES
Há livros que são para ler sem o compromisso que a literatura exige, livros que se lêem como quem folheia um projecto, um esboço, o princípio de qualquer coisa que é já tudo o que pode ser no seu incumprimento. Não são livros melhores nem piores por serem livros assim, são apenas livros. O que esses livros tenham de mau, se algo de mau tiverem, não nega, de todo em todo, este facto incontornável: o que há de bom nesses livros é o simples facto de existirem. Bicicletas para memórias & invenções (Dezembro de 2006), com todos os seus defeitos naturais, tem a virtude de ser um desses livros a que aqui e agora aludo. Colectânea de contos dos alunos da Companhia do Eu, coordenada pelo poeta e crítico Pedro Sena-Lino, Bicicletas para memórias & invenções pedala o seu percurso com a singeleza de um gesto pedagógico, um esforço e uma vontade de disseminar as letras na exacta proporção de um acto de sobrevivência no inóspito campo da criatividade literária em Portugal. Quem por aqui se passeia sabe que não sou adepto de cursos de escrita criativa, muito menos de escrita de poemas – não é este o caso -, mas sabe também que não descuro tudo o que possa ser feito em nome da criatividade. Por isso julgo importante relevar, tanto quanto possível, estas pequenas acções ao serviço da imaginação, da criação literária, do fazer algo no domínio da palavra. Como refere na apresentação preliminar o autor de Biofagia, «estes contos valem antes de mais como interrogação e trabalho» (p. 11). O resultado é francamente desequilibrado, com textos bons alternando com produções menos conseguidas e, num caso ou noutro, muito más. Mas que esperar de um projecto com estas características? Julgo que muito mais não se pode esperar, até porque à diversidade de vozes sempre correspondeu uma oscilação qualitativa. São doze as vozes indicadas no índice de autores, sendo que uma delas, Ana Moreira Pires, não aparece referenciada nas notas biográficas nem nos textos que compõem cada uma das duas partes da colectânea – Ficções (contos ou quase) e Páginas autobiográficas (percursos pela memória). Ao lapso acresce ainda a necessidade de revisão de um dos contos impressos, o de Josiane Guiraud (n. 1948), o que, se não castra um texto, acaba sempre por manchá-lo inadvertidamente. Da primeira parte agradou-me a prosa combativa de Maria, vão privatizar a guerra, de Madalena Braz Teixeira (n. 1938), a fazer lembrar os célebres manifestos de José de Almada-Negreiros, com reflexos da contemporaneidade social e política. O motivo condutor, já de si suficientemente delirante, é a privatização da guerra, repetida e enfaticamente anunciada entre parágrafos com retratos irónicos, mas pertinentes, da actualidade. Da segunda parte, porque é bom falar dos amigos, destaco as prosas poéticas – "classifico-as" assim à falta de educação literária mais apurada – da Maria João Fernandes (n. 1969), reunidas sob o título Uma Casa no Tempo. São nove textos breves, cadenciadamente desenvolvidos na base de um léxico que se vai repetindo no interior de imagens várias. Palavras como água, chão, pés, pedra, cidade, como que introduzem, logo no primeiro texto, a reconstrução de uma memória que vive de articulações metafóricas diversas dentro do mesmo complexo lexical. Descortinamos uma trama amorosa, um cenário – Sintra -, episódios que deambulam entre um onirismo romântico e uma realidade melancólica, um desenlace: «Fui num fim de tarde ao teu mar, o sol mergulhou e apagou-se. A tua mão continua em casa na minha, estou aqui a escrever» (p. 111). Os restantes autores representados são Isabel Reis Santos (n. 1981), Teresa Andrade Correia (n. 1963), Madalena Torgal Ferreira (n. 1965), João Nunes (n. 1938), Nuno Cunha Rolo (?), Madalena Barbosa (?), Rita Sousa Uva (n. 1972) e Ana M. Ribeiro-Rosa (n. 1963).
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