QUANDO MORAVA NA CIDADE
Quando morava na cidade,
sempre que acordava,
a primeira coisa que fazia
era limpar os sonhos da pele.
Tomava vitaminas,
aplicava-se na adequação
do corpo à combustão.
Ameaçado pelo ruído,
pelos rostos contraídos, circunspectos,
punha-se a salvo com um sorriso encenado.
Depois, concentrava-se nesse sorriso
até ao fim do dia.
Era deveras talentoso
na forma como fazia valer
as suas proposições.
Alguns exercícios de relaxação
facilitavam-lhe, em grande medida,
o sucesso. Um sucesso
de pasta na mão, transportes públicos,
passado em fuga, futuro à vista.
Sucesso de economista.
Quando morava na cidade,
tinha sempre de prevenção
um airbag enfiado no peito.
Certo dia, no metropolitano,
aconteceu-lhe ser insultado
por um vencido da vida.
Embateu contra o insulto
accionando a bolha da indiferença.
Regressou a casa sem mazelas no corpo,
à excepção de um buraco na língua.
Cantava, ria e corria,
estava sempre pronto para mais um dia,
Às vezes julgava-se cobarde,
mas depois sentava-se a escrever
e crescia dentro de si
um heroísmo quase histérico.
Tinha a sensação de que
quando morava na cidade,
os sentimentos estavam
devidamente dispostos
nos músculos, nos nervos, nas articulações.
Isto foi antes de olhar para
os pés
como quem olha para o céu,
antes de a coluna se ter quebrado
de um modo irreversível.
Foi antes de um muro de cansaço
ser erguido à sua volta,
antes de a dor lhe haver obstruído
a vista para o rio, antes de ter escorregado
no mais glorioso dos seus dias.
Isto foi antes do dia em que a sorte
lhe bateu à porta da fome.
Hoje, mora numa espécie de
dança
parada, numa queda sem fim.
Olha para trás do corpo e vê:
um coração acelerado num homem lento,
um pulmão com setenta vezes sete
metros de fundura. Vê um poço vazio.
Henrique Manuel Bento Fialho,
in “Saudade – revista de poesia”, n.º 9, direcção de António José Queirós, Associação
Amarante Cultural, Edições do Tâmega, Junho de 2007, pp. 27-28. Poemas de
Alfredo Ferreiro, Alice Daniel, Amadeu Baptista, Andityas Soares de Moura,
António Cândido Franco, António José Queirós, António Manuel Couto Viana,
António Salvado, António Vera, Aricy Curvello, Casimiro de Brito, Cyro de
Mattos, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Eduarda Chiote, Elsa Seabra, Fátima
Valverde, Fernando Botto Semedo, Fernando Grade, Fernando Pinto Ribeiro,
Gabriel Nascente, Henrique Mnauel Bento Fialho, Iacyr Anderson Freitas, Iannos
Ritsos, Isabel Cristina Pires, Isabel Guimarães, Jesús Cobo, João Ricardo
Lopes, João Rui de Sousa, Joaquim Cardoso Dias, Jorge Reis-Sá, José Manuel
Vasconcelos, Juliana Miranda, Julião Bernardes, Maria Natália Miranda, Maria do
Sameiro Barroso, Maria Sousa, Maria Teresa Dias Furtado, Mavilde Lobo Costa,
Nicolau Saião, Paulo Brito e Abreu, Pompeu Miguel Martins, Ramiro Torres, Rui
Almeida, Rui Caeiro, Ruy Ventura, Susete Viegas, Tati Mancebo, Ulisses Duarte,
Vaza Pinheiro, Vítor Oliveira Jorge, Xosé Lois García.
sempre que acordava,
a primeira coisa que fazia
era limpar os sonhos da pele.
Tomava vitaminas,
aplicava-se na adequação
do corpo à combustão.
Ameaçado pelo ruído,
pelos rostos contraídos, circunspectos,
punha-se a salvo com um sorriso encenado.
Depois, concentrava-se nesse sorriso
até ao fim do dia.
na forma como fazia valer
as suas proposições.
Alguns exercícios de relaxação
facilitavam-lhe, em grande medida,
o sucesso. Um sucesso
de pasta na mão, transportes públicos,
passado em fuga, futuro à vista.
Sucesso de economista.
tinha sempre de prevenção
um airbag enfiado no peito.
Certo dia, no metropolitano,
aconteceu-lhe ser insultado
por um vencido da vida.
Embateu contra o insulto
accionando a bolha da indiferença.
Regressou a casa sem mazelas no corpo,
à excepção de um buraco na língua.
estava sempre pronto para mais um dia,
Às vezes julgava-se cobarde,
mas depois sentava-se a escrever
e crescia dentro de si
um heroísmo quase histérico.
Tinha a sensação de que
quando morava na cidade,
os sentimentos estavam
devidamente dispostos
nos músculos, nos nervos, nas articulações.
como quem olha para o céu,
antes de a coluna se ter quebrado
de um modo irreversível.
Foi antes de um muro de cansaço
ser erguido à sua volta,
antes de a dor lhe haver obstruído
a vista para o rio, antes de ter escorregado
no mais glorioso dos seus dias.
Isto foi antes do dia em que a sorte
lhe bateu à porta da fome.
parada, numa queda sem fim.
Olha para trás do corpo e vê:
um coração acelerado num homem lento,
um pulmão com setenta vezes sete
metros de fundura. Vê um poço vazio.

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