ROGIL, 2005
O homem que trabalha a horta
trouxe maçãs, pimentos e pêras,
tomate, um veneno da casa
que empeçonha o fígado.
Ontem, a mulher do homem
deu-nos um saco cheio de ovos.
A tez africana não engana:
veio recambiada de um passado
que só não envergonha os mortos.
Têm uma pequena neta, a Rita,
que gostava de morar numa cidade grande.
Nas cidades grandes é tudo
mais pequeno do que aqui,
apenas o preço do veneno não faz justiça
à dimensão das pragas.
Nas cidades grandes,
como é de todos sabido, os preços
andam sempre do avesso:
se pudéssemos regar os campos
com o suor do trabalho,
não haveria seca que ameaçasse as colheitas.
*
FEED-BACK
Ouves os grilos no termo do
dia,
sabes que são uma sinfonia
de compositores que actuam na erva.
Vês os insectos a bailar contra a luz,
sabes que dançam
ao ritmo da melodia vinda do chão.
Sentes a maresia cair sobre a pele
como um véu de água
subtilmente aconchegado às pregas do corpo.
Sabes que o gelo pode aquecer-te
nas fintas do cansaço.
O que tu não sabes
nem poderias saber
é do tecto estrelado que sobre ti anuncia
os olhos abertos da eternidade.
*
GADGETS
marealta:
tudo se passa como se o incenso queimasse no interior dos ossos
marebaixa:
sempre que o sol aperta os olhos dos cegos
marealta:
quanto a insectos agonizando à tona das rochas
marebaixa:
os insectos que agonizam à tona da pele
marealta:
o termos ficado por não descer ao ponto mais alto do declínio
marebaixa:
a praia foi ao mar e vestiu pulseiras de plástico
marealta:
com as primeiras ondas fazemos sempre submarinos dos pés
marebaixa:
é evidente que os pés não são submarinos
marealta:
saltam da falésia nuvens desassombradas
marebaixa:
as pedras vão adormecer Às mãos dos homens
marealta:
quando o sol cair ao mar abraçado à esuma
marebaixa:
o sal esconde-se num buraco na areia
marealta:
o que há no céu leva-se às costas
marebaixa:
é impossível fechar o vento nas nuvens
marealta:
o homem propunha-se atravessar a própria sombra
marebaixa:
a sombra atravessou o homem
Henrique Manuel Bento Fialho,
in Sulscrito – Revista de Literatura, n.º 1, ARCA – Associação Recreativa e
Cultural do Algarve, direcção editorial: Fernando Esteves Pinto, João Bentes,
Pedro Afonso, verão de 2007. Colaborações de Casimiro de Brito, Antonio Orihuela,
Catarina Nunes de Almeida, Arturo Accio, manuel a. domingos, Fernando Cabrita,
Manuel Moya, Immaculada Luna, Margarida Vale de Gato, Edel Morales, Afonso
Dias, Josefa Virella Trinidad, Tiago Gomes, Carmen Camacho, Silvia Chueire,
Iván Sopeséns Álvarez, A. Miguel Mejía, A. M. Pires Cabral, Francis Vaz, Henrique Manuel Bento Fialho, Rafael Delgado,
Miguel Godinho, Uberto Stabile, Rui Costa, José Carlos Barros, Maribel Sánchez
Pagán, Maria João Lopes Fernandes, Luís Filipe Cristóvão, Gonçalo M. Tavares,
José Féliz, Mario de los Santos, Pedro Sousa, Pedro Afonso, Reinaldo Barros,
Fernando Esteves Pinto e José Paulo Pereira.
trouxe maçãs, pimentos e pêras,
tomate, um veneno da casa
que empeçonha o fígado.
Ontem, a mulher do homem
deu-nos um saco cheio de ovos.
A tez africana não engana:
veio recambiada de um passado
que só não envergonha os mortos.
Têm uma pequena neta, a Rita,
que gostava de morar numa cidade grande.
Nas cidades grandes é tudo
mais pequeno do que aqui,
apenas o preço do veneno não faz justiça
à dimensão das pragas.
Nas cidades grandes,
como é de todos sabido, os preços
andam sempre do avesso:
se pudéssemos regar os campos
com o suor do trabalho,
não haveria seca que ameaçasse as colheitas.
sabes que são uma sinfonia
de compositores que actuam na erva.
Vês os insectos a bailar contra a luz,
sabes que dançam
ao ritmo da melodia vinda do chão.
Sentes a maresia cair sobre a pele
como um véu de água
subtilmente aconchegado às pregas do corpo.
Sabes que o gelo pode aquecer-te
nas fintas do cansaço.
O que tu não sabes
nem poderias saber
é do tecto estrelado que sobre ti anuncia
os olhos abertos da eternidade.
tudo se passa como se o incenso queimasse no interior dos ossos
marebaixa:
sempre que o sol aperta os olhos dos cegos
marealta:
quanto a insectos agonizando à tona das rochas
marebaixa:
os insectos que agonizam à tona da pele
marealta:
o termos ficado por não descer ao ponto mais alto do declínio
marebaixa:
a praia foi ao mar e vestiu pulseiras de plástico
marealta:
com as primeiras ondas fazemos sempre submarinos dos pés
marebaixa:
é evidente que os pés não são submarinos
marealta:
saltam da falésia nuvens desassombradas
marebaixa:
as pedras vão adormecer Às mãos dos homens
marealta:
quando o sol cair ao mar abraçado à esuma
marebaixa:
o sal esconde-se num buraco na areia
marealta:
o que há no céu leva-se às costas
marebaixa:
é impossível fechar o vento nas nuvens
marealta:
o homem propunha-se atravessar a própria sombra
marebaixa:
a sombra atravessou o homem

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