sexta-feira, 27 de junho de 2008

INTO THE WILD


Os barómetros da vida estão todos baralhados. Nem podia ser de outra forma, ao pretenderem atribuir percentagens ao optimismo e ao pessimismo com que tentamos olhar para o futuro. Se a ideia de olhar para futuro é arrepiante, quanto mais olhá-lo com pessimismo ou com optimismo. Sejamos razoáveis, é impossível olhar para o futuro. Vemos apenas morte. É esse o futuro. Por isso importa olhar para o presente, mas sobre o olhar do presente não se fazem estatísticas. O presente é o devir e sobre o devir não reinam os números. Podemos afirmar que as pessoas vivem melhor ou pior conforme verifiquemos que as suas necessidades estão mais ou menos satisfeitas. Mas há lá coisa mais subjectiva do que as necessidades de cada um? A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, dizia o escritor sueco Stig Dagerman. Talvez se tenha suicidado por isto mesmo. Talvez não lhe faltassem os bens materiais que tornam consolável a vida de muitas pessoas, mas faltou-lhe algo sem o qual não conseguiu sobreviver. Por vezes penso que não preciso de mais nada na vida: uma máquina de escrever, um cigarro e o meu amor a olhar para mim, por mim, através de mim, o que escrevo. É claro que um homem não sobrevive sem as contas pagas. Mas precisaremos nós de mais do que água, luz e gás? E há o carro, pronto, e a Internet, ok, concedo… a comidinha, umas mudas de roupa. Há esses bens “básicos”, esses pequenos luxos do lixo sem os quais se torna hoje difícil sobreviver. Precisaremos de muito mais? Afinal, em que pensam as pessoas quando pensam na possibilidade da sua vida melhorar? Será que não têm estas necessidades já satisfeitas? Será que lhes falta o consolo que é impossível satisfazer? Ou será que não têm tempo para o consolo porque andam na vida à procura de uma casa na praia, férias no Brasil, salas repletas de presentes inúteis na noite de Natal, mergulhos em piscinas atafulhadas de gente, hotéis de luxo, roupas de marca, carros mais rápidos, telemóveis da última geração, centros comerciais?... São perguntas simples, o discurso é simplista, objectivo, são questões para as quais não encontro uma resposta. Eu sei que passo muito bem com pouco e sei de quem não passe bem sem muito. As pessoas são diferentes. E eu não vim ao mundo para espalhar a mensagem. Permitam-me, e não me levem a mal que o declare neste tom estupidamente profético, que aquilo a que os políticos chamam “ventos de mudança” é um logro para colar as pessoas a uma vida desperdiçada ao serviço dos pequenos luxos. Mas há quem prefira gozar o mundo com corações de plástico. Que podemos nós fazer? Into The Wild responde-nos a esta questão com uma comovente honestidade, convence-nos, provoca-nos algo cada vez mais raro: uma fascinação espantada. A mesma fascinação que nos é oferecida pelos textos de Henry Thoreau, que um dia terá questionado o sentido dos novos meios de comunicação quando as pessoas nada têm para dizer umas às outras. Preocupado em tornar poético o seu modo de vida, preocupado em ganhar a vida e não a morte vivendo intensamente, Thoreau experimentou vários ofícios que pouco tinham que ver com a sua condição de intelectual. Apolítico, desprezando a vida alienadora das grandes cidades e a escravatura da industrialização, fez-se filósofo da natureza. Partiu para os bosques, construiu uma pequena cabana nas margens do lago Walden e aí viveu durante dois anos, regressando posteriormente à urbe para manter dentro de si o desassossego, a inquietude, para não se “waldenizar”. O termo é de Kenneth White, que num estimulante livro intitulado O Espírito Nómada dedica algumas páginas inteligentes à obra do norte-americano Henry David Thoreau. E eis que estou de regresso ao Papalagui de sempre com um sorriso nos lábios da memória: «assim como é de mau gosto um homem atravancar o peito com muitos colares de conchas, igualmente o será com o pesado fardo do dinheiro. Dificulta-lhe a respiração e tira-lhe a liberdade de movimentos de que os seus membros necessitam». Eu não odeio o metal redondo, mas odeio a ideia de me deixar entregar à ditadura do metal. Porque o sorriso do meu amor quando olha para mim não é pagável, nem o sono sossegado das filhas se transacciona como uma mercadoria, nem o sol que hoje iluminou o Tejo cobrou imposto. Daqui a nada, não estaremos por cá. E isto é tudo o que preciso de saber para saber o que não quero.

sábado, 21 de junho de 2008

FACAS

Estas facas são boas. Não cortam.
Matilde (5 anos)

VELHOS

Velhos é o segundo volume de Jorge Gomes Miranda (n. 1965) na simpática colecção de Poesia Portuguesa Contemporânea publicada pelo Teatro de Vila Real. Do autor, li quase tudo. Falhei o livro de estreia, O Que nos Protege (1995), e o volume anterior a este, O Acidente (2007). Entre ambos, Jorge Gomes Miranda publicou, ao ritmo avassalador de muitos dos poetas da sua geração, Portadas Abertas (1999), Curtas-Metragens (2002), A Hora Perdida (2003), Postos de Escuta (2003), Este Mundo, Sem Abrigo (2003), O Caçador de Tempestades (2004), Pontos Luminosos (2004), Requiem (2005) e Falésia (2006), este último o primeiro na supracitada colecção. Faço questão de os mencionar para que se possa ter uma ideia do ritmo de publicação deste autor, um ritmo que não é de todo alheio a uma concepção poética que tende a olhar para o poema como uma espécie de registo evocativo. Importa salientar, porém, a diversidade de tons que matizam esses registos, frequentemente elegíacos, outras vezes fortemente irónicos, chegando mesmo a roçar o mato bravio do sarcasmo, por vezes aproximando-se daquilo que se convencionou chamar, de modo mais ou menos ligeiro, mais ou menos esclarecido, de poema político. Pessoalmente, agrada-me na poesia de Jorge Gomes Miranda a subtileza metafórica que povoa muitos dos seus poemas, uma subtileza que opta por não transformar o poema numa construção fechada sobre si própria, inacessível, esquizofrénica. Essa subtileza confunde-se muitas vezes com ausência, algo que me parece bastante precipitado. Sucede que os poemas acontecem – é essa a sua natureza – sem aparentes pretensões de afirmação, surgem límpidos na página, com uma linguagem nem sempre tão simples quanto possa supor-se, mesmo quando as temáticas são avessas a qualquer tipo de transparência. O pendor declaradamente narrativo - muitos poemas não passam de pequenas prosas partidas em verso – também pode iludir aquilo a que alguns gostam de chamar, em tom depreciativo, de prosaísmo ou mero confessionalismo. Mas não nos deixemos iludir. Quando começamos a aprofundar estes poemas encontramos algo para lá da superfície narrativa, das descrições, encontramos um trabalho de linguagem bastante rico que, no presente volume, passa, por exemplo, pelo uso de expressões e vocábulos quase perdidos numa província certamente pouco compreensível nos poetas da urbanidade. O livro parte de uma ideia, a ideia da velhice. Nos três conjuntos em que foi organizado encontramos os tais retratos dos velhos, um olhar terno mas também inquietante sobre os lugares dos velhos, os lugares que povoam a memória e a presença dos velhos, a ideia do velho como aquele que já só espera a morte, cuja presença é, como dizia Rilke, “uma espécie de símbolo dos vestígios terrestres te todos os (…) defuntos”. Há ainda espaço para uma melancolia muito sóbria, nada enfatuada, como no poema da avó que conta ao neto as particularidades do falecido avô e termina questionando-se: «Vamos que eu não me lembrava / a tempo; tudo isto / morria dentro de mim?» (p. 16) O cenário é o de uma província envelhecida, próxima do desaparecimento, que provavelmente desaparecerá com estes velhos, com os seus relatos e as suas memórias. Não me levem a mal que diga destes poemas serem outra forma de antologiar o esquecimento, de oferecerem à posteridade pequenos vestígios de modos de falar que são também os vestígios dos modos de viver. Há ainda lugar, no segundo conjunto, para as vozes dos velhos maledicentes. Os remates são invocativos de um sentido proverbial muito nosso, de uma nostalgia das figuras pícaras que deram cor à província portuguesa, mas também resultam como parábolas dos feitios sem tempo. Sucede, a título de exemplo, neste Um Não Digo Qual: «Era um peguilhento, um reticencioso / e estava à minha porta / para trazer de novo a uso / ressequidas histórias / de caça e gandaia. // De gingeira, de gingeira conhecia-o. / Depois da adolescência tornara-se / um troca-tintas. Menos que poetastro. / Vontade de empunhar um fueiro!» (p.36) Em suma, o tema da morte persegue a poesia de Jorge Gomes Miranda. Neste pequeno volume ela aparece nos olhos dos que, ainda vivos, mais próximos estão dela. Mas aparece de uma forma bastante comovedora, mesmo quando mostra o dente arreganhado do escárnio.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

AS CANTINAS

Fernando Pessoa nasceu há 120 anos. Malcolm Lowry nasceu há quase 100. Consigo imaginá-los juntos numa taberna de Cuernavaca. Pessoa a beber absinto, Lowry a afogar-se em tequila. Viveram ambos debaixo de um vulcão, cada um no seu tempo, afectados pelas idiossincrasias da História, as susceptibilidades da alma e as disposições do corpo. Há algo de comum entre os dois, algo de muito forte e inexplicável - não só o terem desaparecido com 47 anos de idade. Refiro-me a algo que escapa aos pormenores subjectivos da existência, algo que talvez seja apenas do domínio dos astros ou então produto das conjecturas rebuscadas do leitor. Leio As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, volume seleccionado e traduzido pelo poeta José Agostinho Baptista, e não consigo evitar aquele espanto infantil de quem vislumbra acasos, coincidências, um caos impartilhável – caso contrário deixaria de ser caos - entre duas vozes distantes no espaço e no tempo. Já sabemos que Lowry nasceu na Inglaterra em 1909. Uma cronologia disponível no final desta colectânea informa-nos que publicou os primeiros escritos no jornal do colégio onde estudou. Viajou muito, diplomou-se em literatura inglesa, sofreu alguns desgostos de amor. No ano em que Pessoa morreu, Lowry foi internado para uma primeira de muitas curas de desintoxicação. No México escreveu um dos mais assombrosos romances do século passado: Debaixo do Vulcão. A vida algo errante, excessiva, aguentou-se até 1957. Ficaram-nos os escritos. Nos dez poemas coligidos em As Cantinas encontramos um ambiente de desolação e de desesperança, homens destroçados pelo medo e pela solidão, afogando as mágoas em tequila, fazendo dos bares e das tabernas um santuário onde esperança alguma se ilude e realiza. Os bêbados dos poemas de Lowry trazem a morte tiquetaqueando no coração, não são uma resistência autodestrutiva à impossibilidade de se integrarem na textura social que despreza o espanto, que arruma a loucura em conceptualizações suturadas segundo manuais escolasticamente elaborados. Estes bêbados não confrontam sequer a morte, por saberem inglória qualquer oposição ao essencial. Eles bebem a morte, abraçam-na como uma inevitabilidade que aclara a existência. Bebem de um modo existencial, «sedentos de desastre» (p. 13), porque «a única esperança é o próximo copo» (p 21). Acompanhem os poemas na versão original, tentam capturar-lhes a música que se perdem na versão portuguesa. Poderão aí encontrar a cadência de quem se questiona mesmo na pretensão de questionar. É um jogo também pessoano que vem de trás, que aqui parece desenrodilhado pela crueza dos aforismos, por tornar tão evidente a ausência de uma luz, ainda que perecível, no caminho de quem já tem dificuldade em descobrir algo de humano no homem que assim se arrasta. Seguem-se os Outros Poemas do Álcool e do Mar. A imagem de um rio seco é a imagem de um sentido que se perdeu. Num poema que nos remete para Debaixo do Vulcão o verso não pode ser mais objectivo: «Não haverá amanhã. O amanhã acabou» (p. 37). Os poemas aparecem povoados de fantasmas, de mágoas e de agonias, amarguras, vagabundos caminhando sem sentido, um lirismo minado pelo desespero, pela impiedade, pelo caos e pela indolência. Os fantasmas que povoam estes poemas são os destroços desse lirismo, são a nossa tragédia dita com a raiva de quem já deu um passo para dentro do abismo. Aqueles fantasmas não são aparições de um tempo passado, são uma projecção presente do nosso futuro, são o futuro a perseguir quem vive debaixo de um vulcão, no inferno agonizante dos sonhos impossíveis. Há um poema que me toca especialmente. Chama-se Felicidade. Lowry enuncia um conjunto vasto de fenómenos belos, aprazíveis, aparentemente consoladores: «Montanhas azuis com neve e água azul, fria e turbulenta - / Um céu selvagem repleto de estrelas que nascem / E Vénus e a lua quase cheia quando o sol, nasce» (p. 53). Isto e muito mais é a felicidade, mas isto e muito mais é também o fundamento de uma dor. A dor de que tudo isto perdemos, a dor de andarmos perdidos entre tudo isto, a dor de sermos impossíveis. Daí que o poema termina com uma questão: «Meu Deus, por que é que nos deste tudo isto?» (p. 53). A impiedade divina é cruel, somos insectos nas mãos de um Deus indolente. Tudo isto é a razão da nossa angústia, a felicidade angustia-nos. Não há lugar para a alegria nos poemas de Malcolm Lowry. Talvez por isso, não sendo um dos meus poetas, seja um dos meus poetas. Volto a lembrar-me de Pessoa.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

SAUDADE #10


Saudade - Revista de Poesia
N.º 10, Junho de 2008
Director: António José Queirós
Associação Amarante Cultural

Poema do Novo Egipto, p. 28