VOGAIS MUDAS
Nunca falo nos meus sonhos.
Quando falo, falta-me a voz,
pelo que por mim fala a aflição
do silêncio, esse ruído estático
das paredes brancas e ausentes.
Os meus sonhos nunca me falam.
Quando me falam, não os ouço.
Limito-me a observar a sua agitação
como quem olha o desconhecido,
esse ruído imóvel que nada diz.
Quem por mim fala nos sonhos
que a insónia me consente
é o desespero das vogais mudas,
penduradas pelos pés na forca
dos acordos ressuscitados de um
longo sono cavado e indiferente.
Quem fala pelos meus sonhos
abortados, prévios a qualquer forma
de dormir, é o pesadelo acordado
dos meus dias: o desemprego
das vogais mudas, os recibos
esverdeados da língua portuguesa.
*
COURGETTE
Levanto-me do calor para uma
talhada de melancia
fresca. Foi colhida há pouco na horta do vizinho,
juntamente com feijões para a sopa, pimentos para
a salada e courgette para fritar. Como o coração da
melancia e ofereço a casca à
porca Rosita, companhia
nas traseiras dos aposentos. O mar foi à grelha. Fico
só, durante alguns minutos, em meditação vertical.
Se Buda não cruzasse as pernas, teria o Tibete melhor
sorte? Se Cristo não perdoasse,
saberiam os cristãos
dos crucificados? Se Maomé fosse à grelha, saberia
a carne de porco? Se as vacas não fossem sagradas,
haveria fome na Índia? Se os
judeus andassem sobre
as águas, necessitariam de mais terra? Deito-me. Fecho
os olhos. Prometo voltar a acordar para o pesadelo.
P.S.: Porquê dar um nome
estrangeiro à courgette,
se foi plantada, regada, colhida na horta do vizinho?
*
PESADELO NA RUA JOSÉ TANGANHO
José Tanganho, cavaleiro
tauromáquico,
venceu a volta a Portugal a cavalo em 1925.
80 anos passados sob esse feito histórico,
na rua com o seu nome andam touros à solta.
Trazem cavalos atrelados nas
veias,
dão a volta ao mundo em horas de sonho,
escarram para o chão as feridas da ressaca,
ateiam fogueiras, arrumam carros,
procuram nos contentores
abertos
a utopia entretanto rasurada pelos ecopontos.
Ainda assim, sobra-lhes força para um salto
quando o Benfica marca, Portugal segue
do passo à marcha, trote e
galope,
conforme a fortuna de nascimento.
Sobra-lhes força para um caminhar curvado,
pegas de cernelha nos parques
dos hipermercados, onde fazem
o favor
de carregar compras, acomodar carrinhos,
lavar os vidros dos veículos topo de gama.
Sobra-lhes força, quando o acaso vai ao mar,
para uma investida derradeira
nas artérias
comerciais da cidade. De regresso à rua
de onde nunca saem verdadeiramente,
José Tanganho olha-os lá do alto e pensa
na rua que um dia terá o nome
destes heróis,
uma rua que lhes faça a justiça em morte
que tão cega andou enquanto viveram
sempre na sombra de uma sorte definitiva.
Caldas da Rainha, 22 de Abril
de 2008
Henrique Manuel Bento Fialho,
in “Big Ode – Poesia & imagem”, n.º 5, edição e design de Rodrigo Miragaia,
design de conceito por Rodrigo Miragaia e Sara Rocio, coordenação editorial de
Maria João Lopes Fernandes, tema: pesadelo, apoios do Ministério da Cultura /
DGArtes, Julho de 2008/Outubro de 2008. Colaborações de Rui Effe, Sal &
Ana, Serse Luigetti, Mário Calado Pedro, Tiago A. da Veiga, Helen White,
Fernando Esteves Pinto, luci n da lourenço, Rafael Neira, Renaat Ramon,
Fernando Esteves Pinto, Margem d’Arte (Frederico Fonseca / Mário Lisboa
Duarte), Arturo Accio, Angelo Mazzuchelli, António Carvalho, Maria João Lopes
Fernandes, Margarida Parente, Sara Monteiro, Ricardo Riancho, Henrique Manuel
Bento Fialho, Rui Costa, Raquel Coelho, Sara Franco, Constança Lucas, Sílvia
Effe, Cristóvão Crespo, Rita Grácio, Fernando Dinis, Luís Ene & Margarida
Delgado, Rute Mota, Ana Marques da Silva, Hilda Paz, Virgílio Vieira Tebas,
João Meirinhos, Francisco Carrola, Ausias Millet, Sandra G. D., João Samões,
Miguel Jimenez, João Ferreira, João Pereira de Matos, António Orihuela, João
Concha, Fernando Aguiar, Tiago Nené, Vítor Vicente, Rui Carlos Souto, Tim Gaze,
Rodrigo Miragaia, Angelo Ricciardi.
Quando falo, falta-me a voz,
pelo que por mim fala a aflição
do silêncio, esse ruído estático
das paredes brancas e ausentes.
Quando me falam, não os ouço.
Limito-me a observar a sua agitação
como quem olha o desconhecido,
esse ruído imóvel que nada diz.
que a insónia me consente
é o desespero das vogais mudas,
penduradas pelos pés na forca
dos acordos ressuscitados de um
longo sono cavado e indiferente.
abortados, prévios a qualquer forma
de dormir, é o pesadelo acordado
dos meus dias: o desemprego
das vogais mudas, os recibos
esverdeados da língua portuguesa.
fresca. Foi colhida há pouco na horta do vizinho,
juntamente com feijões para a sopa, pimentos para
a salada e courgette para fritar. Como o coração da
nas traseiras dos aposentos. O mar foi à grelha. Fico
só, durante alguns minutos, em meditação vertical.
Se Buda não cruzasse as pernas, teria o Tibete melhor
dos crucificados? Se Maomé fosse à grelha, saberia
a carne de porco? Se as vacas não fossem sagradas,
as águas, necessitariam de mais terra? Deito-me. Fecho
os olhos. Prometo voltar a acordar para o pesadelo.
se foi plantada, regada, colhida na horta do vizinho?
venceu a volta a Portugal a cavalo em 1925.
80 anos passados sob esse feito histórico,
na rua com o seu nome andam touros à solta.
dão a volta ao mundo em horas de sonho,
escarram para o chão as feridas da ressaca,
ateiam fogueiras, arrumam carros,
a utopia entretanto rasurada pelos ecopontos.
Ainda assim, sobra-lhes força para um salto
quando o Benfica marca, Portugal segue
conforme a fortuna de nascimento.
Sobra-lhes força para um caminhar curvado,
pegas de cernelha nos parques
de carregar compras, acomodar carrinhos,
lavar os vidros dos veículos topo de gama.
Sobra-lhes força, quando o acaso vai ao mar,
comerciais da cidade. De regresso à rua
de onde nunca saem verdadeiramente,
José Tanganho olha-os lá do alto e pensa
uma rua que lhes faça a justiça em morte
que tão cega andou enquanto viveram
sempre na sombra de uma sorte definitiva.

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