POEMA DE NATAL
No Natal não te esqueças de limpar as
ramelas
e de escavar pelos olhos adentro a pulsação do mundo.
Limpa os canos das caçadeiras
para que depois não percas tempo no disparo.
Respira. Marca uma limpeza de pele, espreme
todos os pontos negros e apronta-te para a ceia.
Dá uma sopa aos pobres, atira pedras às latas,
afaga o pêlo do cão, mesmo que tenha pulgas.
No Natal até as pulgas são bem-vindas. Respira.
No Natal dá corda às bonecas, programa as
cordas
vocais para o playback hospitalar e prisional.
Distribui canapés pelos desabrigados, pelos foragidos,
pelos ditadores acossados. Predispõe-te para um (a)balanço.
Respira. No Natal alegra-te com a conta a zeros,
com o patrão de saco azul ao ombro, com os espantalhos
quotidianos, com as greves à greve,
com a mensalidade vestibular num pontapé de misericórdia.
No Natal sic. Porque no Natal todos os demónios são bons.
Pelo menos um dia por ano: esquece-te do
mundo
que se estende para lá das fronteiras.
Deixa-te ficar numa viagem parada, deixa-te ficar:
Parado – como um som que balança dentro do corpo,
como uma pedra que sangra a pele de um corpo calado.
Que esse dia seja o dia de Natal. Ainda que estejas obrigado
a pagar a portagem de mais um suicida que não acredita
na expiação universal dos pecados particulares,
no Natal dá cá um abraço e não digas que foste daqui.
e de escavar pelos olhos adentro a pulsação do mundo.
Limpa os canos das caçadeiras
para que depois não percas tempo no disparo.
Respira. Marca uma limpeza de pele, espreme
todos os pontos negros e apronta-te para a ceia.
Dá uma sopa aos pobres, atira pedras às latas,
afaga o pêlo do cão, mesmo que tenha pulgas.
No Natal até as pulgas são bem-vindas. Respira.
vocais para o playback hospitalar e prisional.
Distribui canapés pelos desabrigados, pelos foragidos,
pelos ditadores acossados. Predispõe-te para um (a)balanço.
Respira. No Natal alegra-te com a conta a zeros,
com o patrão de saco azul ao ombro, com os espantalhos
quotidianos, com as greves à greve,
com a mensalidade vestibular num pontapé de misericórdia.
No Natal sic. Porque no Natal todos os demónios são bons.
que se estende para lá das fronteiras.
Deixa-te ficar numa viagem parada, deixa-te ficar:
Parado – como um som que balança dentro do corpo,
como uma pedra que sangra a pele de um corpo calado.
Que esse dia seja o dia de Natal. Ainda que estejas obrigado
a pagar a portagem de mais um suicida que não acredita
na expiação universal dos pecados particulares,
no Natal dá cá um abraço e não digas que foste daqui.
*
VISITA DE ESTUDO
Quando por Badajoz entrámos num mundo que
nunca víramos, estudando a paisagem nova em olhos arcaicos de criança, desses
olhos que não julgam mais do que vêem, que não vêem mais do que imaginam,
chorámos por ter graça a cara que fazem as pessoas que choram por tudo e por
nada.
De lá trouxemos a lembrança de um homem
chegando-se à pele do volante, arrancando desse mundo a aventura de quem sai do
ventre onde toda a vida se fez vida, apra então regressar a saber, pelo menos,
que há um lado nas fronteiras sem rosto nem face, um lado liso, o lado de quem
regressa.
Quando por Badajoz reentrámos no mundo que
era nosso, reconhecemos finalmente esse lado sem rosto nem face das fronteiras,
o lado de quem regressa, e tornámos a chorar pelas mesmíssimas razões, embora
mais doce fosse agora o choro de quem chora por tudo e por nada.
Baluerna - cuadernos del viajero, n.º 29, Coordinación de Eduardo Hernández, traducción de Antonio Sáez Delgado, Estación de Autobuses de Cáceres, 2008.

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