sábado, 18 de abril de 2009

APRESENTAÇÃO DE “VERSOS OLÍMPICOS”

Não consigo recordar-me quantos anos passaram sobre o primeiro encontro, sou péssimo a organizar o tempo. Recordo-me ter lido num jornal que ia ser ministrado uma espécie de curso sobre a história da poesia portuguesa no séc. XX. É verdade que desconfio de cursos sobre poesia, abomino cânones e sistematizações da actividade poética, também não julgo que a poesia tenha uma história, mas esse é assunto que não cabe aqui desenvolver. No entanto, gosto de ouvir poetas falarem sobre poesia, também não desgosto quando falam sobre outros poetas, estou até convencido haver nesta dedicação, mais que um salutar sinal de humildade, um olhar atento e curioso. Como já conhecia um pouco da poesia do responsável pelo curso, resolvi ir ouvi-lo. A situação hoje é mais desconfortável. Preferia ter permanecido na plateia a ter sido convidado para o palco. Deste lado é tudo mais mundo, ou seja, é tudo mais difícil de suportar. Pior ainda quando nos colocam em mãos um livro com um título tão pesado: “Versos Olímpicos”.

Ora, quem estiver minimamente familiarizado com a poesia de José Ricardo Nunes não pode deixar de se surpreender com este título. O adjectivo olímpico denota algo divino e magnificente, envia-nos para o festival de competições que na antiga Grécia lograva suspender guerras entre cidades e reunia os povos num único propósito: a arte de competir. Sublinhe-se o verbo competir, ele será determinante na compreensão deste livro. Antes de percorrermos as etapas da prova, lembremo-nos que o carácter lúdico de alguma poesia portuguesa contemporânea nunca foi uma presença inquestionável nos livros de José Ricardo Nunes. “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, 1998) resultou da actividade profissional num Instituto de Reinserção Social e dá voz a um conjunto de personagens literárias cujas vidas são tudo menos gloriosas; “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), merecedor do Grande Prémio Eugénio de Andrade, é um conjunto de poemas epigramáticos que, até pela própria estrutura, configuram um pendor anti-épico que não só dessacraliza o poético como também o interroga; “Novas Razões” (Gótica, 2002) colige quatro conjuntos de poemas de matriz quotidiana, assumindo por vezes uma auto-ironia reveladora de um olhar atento ao mundo e indagador da nossa condição existencial; por fim, “Apócrifo” (Deriva, 2007) pensa de um modo poeticamente exemplar a questão da identidade, jogando com a prática do intertexto - tão em voga na actual poesia portuguesa – de um modo similar ao jogo que o próprio sujeito poético estabelece numa teia de paradoxos difíceis de resolver.

O título da mais recente colectânea não pode senão afirmar uma veia irónica que, nunca tendo estado ausente nos livros anteriores, se afirma neste livro com a clareza aguda de um título provocador. Como sabemos, o território da ironia é arriscado. Configura uma espécie de pantanal que obriga o explorador a múltiplos cuidados, nomeadamente por facilitar interpretações precipitadas, ambíguas, contraditórias, muitas vezes fatalmente lesivas do que muita gente supõe ser a espinal-medula da poesia. Há uma triste e absurda tendência para vislumbrar no queixume e na melancolia os princípios fundamentais da poesia, tornando-se difícil a alguns leitores compreender que no riso íntimo da ironia pode também residir a adversidade do saber poético, ou seja, de um saber que se constrói para lá das velhas dicotomias que tentam separar águas e territórios tão dificilmente destrinçáveis como são os territórios da razão e da emoção, do real e do sonho, do corpo e da alma, da ideia e da impressão, do sublime e do prosaico.

A ironia que encontraremos nestes “Versos Olímpicos” não é humorística, não é sarcástica, não chega sequer a ser satírica; é a ironia subtil de quem olha o mundo com uma certa distância, reconhecendo-se porém como parte integrante desse mesmo mundo; é a ironia de quem aponta o “outro”, consciente de que também ele pode estar a ser apontado; é a ironia de quem apenas sabe responder interrogando, nomeadamente questionando a sua própria identidade, revelando preocupações de ordem política e ontológica. No fundo, é a ironia de um olhar arguto e desassombrado. É uma ironia desencantada e desiludida, no sentido de não ter já ilusões acerca da sua própria força, da sua capacidade para atingir os alvos a que se dirige. O efeito que uma ironia destas produz no leitor, pelo menos o efeito que produziu em mim enquanto leitor, foi o de me colocar no centro de um mundo que muitos contestam mas a toda a hora acabam aprovando com a sua complacente indiferença. E esta complacência, meus amigos, não é de feitio nem de fraqueza; ela torna óbvio este facto: por mais resistentes que sejam as pessoas, obriga-as o “gene egoísta” da sobrevivência a serem indiferentes, a desligarem o canal que as liga ao Mundo. Caso contrário, o mundo sufocá-las-ia, oprimindo-as, enterrando-as no pântano das suas misérias e tornando-as também a elas miseráveis. Disto cabe ao poeta dar testemunho, o poema é esse testemunho irónico, um lugar de resistência à fome.

Vejamos o poema que abre “Versos Olímpicos”, congruentemente intitulado “Cerimónia de Abertura”. Tendo em conta o extremo cuidado que o poeta coloca na organização dos seus livros, o primeiro poema parece-nos ser fundamental. Entre a descrição do desfile figurante dos atletas, alusões aos sentimentos que os movem e o discurso dos comentadores, três momentos distribuídos por três estrofes, temos, a terminar cada uma dessas estrofes, a voz do poeta. E o que diz essa voz? «Digo-lhe que não sei parar as imagens». E reforça: «Acredito no que lhe digo». Mas diz a quem? Só na última estrofe o sabemos. Di-lo à Jacinta, uma personagem dúbia, que não sabemos quem seja, mas parece configurar um momento de suspensão. Vejamos como termina a última estrofe: «Resta-nos / o poder de mudar livremente de canal / ao sabor dos nossos humores tão variáveis». Curioso que na primeira estrofe tenha aparecido a palavra imagens e agora se aluda a uma mudança de canal. O livro está introduzido: estamos no campo minado das discussões que têm tingido a actual poesia portuguesa, a qual, na palavra de alguns críticos, deverá apagar as imagens do poema como se o poema, afirma-o José Ricardo Nunes, pudesse ser obediente a uma vontade que não seja a dos “humores tão variáveis”. Eis a arte poética que atravessará toda a obra…

Este e outros poemas do mesmo livro despertam-me a todo o instante para os paradoxos, as ambiguidades, as incongruências do “saber poético”. Creio que uma das marcas mais fortes da poesia do autor das “Novas Razões” é uma interrogação obsessiva acerca das “oposições”. Tudo na sua poesia assume uma incerteza que espanta pela arguta capacidade de conferir ao “real” planos que são seus e não podem ser apagados, sob pena do real passar a ser uma mera ficção. A bem dizer, não há senão um real construído e, por isso mesmo, ficcionado. O “real-real”, se assim o podemos afirmar, é sempre indefinível, inevitavelmente paradoxal e incerto, é, sobretudo, dinâmico, elástico, flexível, o real não é estanque, é devir. Se este livro é sobre poesia, como já afirmou o seu autor, então ele torna-nos espectadores intervenientes de uma tragédia que, por nela estarmos submersos, dificilmente vislumbramos de outra forma que não seja pela evidência irónica do poema. Falo, claro está, da tragédia da poesia portuguesa, inchada de atletas em busca de uma glória que, abramos os olhos, se restringe a tiragens de 300 exemplares por livro. Que haja gente indiferente a este facto, não admira. Que vá havendo quem dele dê testemunho, só nos pode… animar.

Estes poemas chamam-nos a atenção para a nossa própria realidade. No entanto, talvez contaminado pela ironia, penso nas odes que Píndaro compôs para celebrar vitórias atléticas nos Jogos Olímpicos. Naquele tempo a celebração servia também para pensar a condição humana na sua efemeridade, assim como para cantar coisas tão nobres como Deus e a justiça, a beleza do corpo humano, o amor e a poesia tornada tema. Eram, à época, poemas do belo e do sublime, como bem notou Frederico Lourenço na introdução que lhes fez na sua antologia da “Poesia Grega de Álcman a Teócrito”. Sobre as odes “epinícias” passaram 2500 anos. Os temas serão os mesmos, porque o mundo é o mesmo - pese embora, obviamente, os condicionalismos históricos diversos -, mas o tom é forçosamente outro. Permanece a interrogação sobre a poesia, a interrogação sobre o “eu”, sobre a condição humana, temos também poemas que reflectem preocupações, como já foi referido, de ordem política e ontológica, mas com um olhar que não ousa cantar glórias onde apenas vê falhanços e fracassos. Acrescentemos então ao sublime o prosaico, porque a vida não se faz em linha recta, faz-se num caminho repleto de curvas e contracurvas, um caminho sinuoso, e a poesia que se deixa contaminar pela vida não pode ser diferente.

São curiosos anti-heróis os atletas destas novas Olimpíadas. Lembram-nos os “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, pobres roubando-se uns aos outros, lembram-nos a figura decadente do pugilista no filme “Touro Enraivecido”, lembram-nos esse atleta do cinismo que é a personagem chamada Johnny no filme “Naked”, de Mike Leigh. Lembram-nos, igualmente, os reclusos de “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” e as batalhas travadas em solidão. No poema “Salta à Vara”, por exemplo, o sujeito poético não enjeita uma comparação. “Muitas vezes não ganho a altura / necessária. Às vezes, sempre” – constata. “Mas como tu, saltador à vara, / sei que para lá da fasquia / um colchão espera por mim”. Urge “desimportantizar” as consequências do salto, a queda será amortecida pelo colchão e o salto nunca poderá ser mortal. As façanhas dos atletas estão marcadas “a priori” pela insignificância das provas. “Não há / o efémero lugar na história, mas assegurei / um lugar na minha vida”, afirma-se noutro poema. Quem fala neste poema? Fala aquele que se interroga acerca do futuro ao mesmo tempo que arruma o presente. 300 leitores em 10 milhões de habitantes não conferem lugar algum em história alguma. Como dizia Ruy Belo, nascer português é nascer em desvantagem. E a única verdade que podemos dar como certa é esta: todas as pequenas vitórias não servirão para rasurar o facto de nascermos já derrotados.

Tal como no seu primeiro livro, José Ricardo Nunes volta a servir-se de personagens literárias que lhe permitem discorrer sobre vários temas de um modo livre, não tão dependente de um lirismo centrado exclusivamente no eu. Nesse primeiro livro tínhamos reclusos, homens encarcerados que procuravam escapar à solidão. Agora temos atletas, escravos de uma competição onde se almejam pequenas glórias, se projectam estatutos e hierarquizam memórias. Lembremos como a crítica costuma arrumar as coisas: há os novíssimos, as esperanças; há as confirmações; há os grandes e os cimeiros. Esta forma de arrumação dos fazedores de poemas nada deve ao jornalismo desportivo, em tudo se assemelha, conferindo ao fazer poético um carácter competitivo que está muito para lá de ser compreensível a quem leia poesia, a quem escreva poesia simplesmente porque não pode deixar de o fazer. Que ao menos na casa poética possamos habitar sem o espírito a que nos obrigam fora dela: «Merda para os gregos, / porque inventaram os Jogos Olímpicos, / para o Barão de Coubertin, / porque os ressuscitou, / e merda ainda para o mercado global / que os vendeu ao desbarato!» É certo que as personagens dos “Versos Olímpicos” são subjectivas, a sua afirmação está dependente de quem as leia e, desse modo, as construa. No fundo, são todos aqueles que competem num mundo que apenas tem para oferecer “o peso escuro da derrota”. Sobre isso fica “O Testemunho”, tudo o que é possível almejar a quem escreva poesia: «Já fui invólucro de ordens, notícias, / mensagens que se transformavam / em acontecimentos assim que eram destruídas. / Relegado de vez para o desporto, / passo agora vazio de mão em mão / pelas pistas dos estádios».

quarta-feira, 15 de abril de 2009

CANCIONEIRO DA TRAFARIA


Com menos vinte anos d’esta
Vida, soubesse o que sei hoje
Dedicava-me à pesca!

Há praticamente trinta anos a &etc. dava à estampa o primeiro folheto da colecção Contramargem, mais propriamente “Maria! Não me Mates, que sou Tua Mãe!” – uma narrativa de cordel que Camilo Castelo Branco (1825-1890) mandou imprimir anonimamente com o intuito de escapar à falência. “Acto de contracultura admirável”, pois claro, mas explicado por uma vontade impossível de dissociar da mais básica necessidade material. As reedições sucederam-se e há não muito tempo a malograda Objecto Cardíaco apresentava-se ao mundo com a mesma prosa. A editora de valter hugo mãe finou e melhor destino não teve a colecção da &etc. Desta, restam vinte títulos ao dispor de coleccionadores dedicados, dos quais o último se intitula “Se a Lira Pulsas e o Pandeiro Tocas…” (1984), assinado por um tal de António Lobo de Carvalho (1730-1787), conhecido pelo cognome “O Lobo da Madragoa”.

Lembramo-nos dos factos a propósito do “Cancioneiro da Trafaria”, cujo título não se completa se a ele não acrescentarmos a meticulosa descrição que passamos a transcrever: “Eróticas, Mitologias de Borda D’Água, Burlescas Assim-Assim, da Matulagem & Pesca à Linha seguido de Alguns Cromos e Basbaques, pelo Graça, o Orfeu da Reboleira, que Nunes da Rocha dedica à memória do poeta António Lobo de Carvalho, o Lobo da Madragoa” (&etc., Fevereiro de 2009). Aí estamos nós, em pleno século XXI, retomando, renovando, reavivando a mais desbragada sátira, a mais picaresca crónica em verso de que foram mestres inolvidáveis, além dos acima referidos, Gregório de Matos (1636-1696), Tomás Pinto Brandão (1664-1743), Bocage (1765-1805), Guerra Junqueiro (1850-1923), entre outros.

Já no século passado, muitos poetas, alguns de uma seriedade assoberbada, devem aos primeiros cultores da menoridade a ousadia de um olhar que desbravou o caminho da tão propagada dessacralização da poesia, da dessublimação do poético e da desimportantização dos trovadores. Podíamos citar Cesariny (1923-2006), O’Neill (1924-1986) ou Assis Pacheco (1937-1995) como exemplos de grandes poetas onde encontramos com facilidade ecos do espírito crítico, da derrisão e de uma certa maledicência que caracterizavam os primeiros tempos. Testemunho despudorado a lembrar-nos que hoje tudo se mostra dissimulado pelas avessas, ou seja, aqueles que procuram erguer o archote da dessublimação – fazendo disso lei e virtude como se a poesia não fosse vício em essência e matéria - são, muitas vezes, os mesmos que se auto-sublimam e promovem em torno de uma suposta contracultura que, vai-se a espremer, produz apenas moleza de espírito e melancolia de pacotilha.

Valham-nos os Nunes da Rocha deste mundo – felizmente ainda vamos tendo alguns – com as suas rimas a tresandarem de vida. Quer no conjunto intitulado “Cancioneiro da Trafaria”, quer na parte subsequente que leva o título “Cromos & Basbaques pelo Graça, o Orfeu da Reboleira”, o que temos é uma caderneta de gargalhadas antiparoquiais, eivadas de erotismo e de ironia, que colocam a poesia ao mesmo nível do caricato, do grafito e da fadistagem. Tabernas, baiucas, tascas, oferecem o palco a canções que resultam numa arte poética fatal: «Insensível ao pôr-do-sol / E irritado como um cabrão, digo: / Que se foda a poesia!» (p. 12) Que o desabafo conclusivo não demova o leitor mais sério. Há nestes poemas muitas personagens, muitas situações, com as quais temos a aprender o tudo que a poesia tem a ensinar: «não é da vida que temos de fugir / Mas na literatura é que temos de entrar» (p. 33).

Entremos, então, sem descalçar os sapatos nesta literatura. Lá dentro, muitas musas dispensando o sacrifício de beijos contidos, vários cromos, nenhum santo, apenas o altar por sobre o qual se batem as cartas do baralho e a base dos copos de vinho. Oremos à santíssima TV, ícone moderno do Altíssimo, com os olhos esgalhados de curiosidade. Já dizia Epicuro que para se ser feliz bastam amigos, pão e vinho. Talvez também estes versos sejam do álcool, talvez também nós sejamos destes versos. Não sei. O que sei é que há fados onde a morte não sai fingida, a melancolia é a atitude de uma des-graça (sic) autêntica e «o que importa / é da alma a descompostura» (p. 40). Obrigado Nunes da Rocha. Parabéns Pedro Serpa. A capa é uma maravilha.
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O TEATRO DA CRUELDADE E OS MODELOS LÓGICOS DA FÉ

Originalmente publicado em 2007, A Loucura de Deus – Do Combate dos Três Monoteísmos (Relógio D’Água, Janeiro de 2009) resulta de uma conferência proferida a 28 de Novembro de 2006 numa instituição com o objectivo de desenvolver o diálogo entre as religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) através das artes. Feita a leitura, não pode o leitor deixar de sentir alguma perplexidade perante o título português da obra. António Guerreiro esclarece: «a palavra "loucura" do título português é a tradução da palavra alemã "Eifer", que significa também "zelo"» (Expresso). De facto, quem está em causa nos oito capítulos deste ensaio são os zeladores de Deus. Faria por isso mais sentido falar dos loucos de Deus em vez de uma improvável loucura do omnipresente.

Podemos dividir artificialmente em duas partes o itinerário proposto por Peter Sloterdijk (1947). Numa primeira parte o filósofo reflecte os fundamentos da transcendência e como esta foi sendo organizada numa tríade de religiões monoteístas com um historial expansionista a todos os títulos catastrófico. Das explicações biopsicológicas à narrativa histórica, pouco parece escapar no diagnóstico sugerido pelo filósofo alemão. Mesmo o leitor mais acólito não deixará de se inquietar com os sete aspectos do fenómeno da transcendência aqui esboçados, nomeadamente no que eles têm de razoável à luz das perspectivas científicas em voga. Não podemos, no entanto, deixar de fazer notar uma tendência algo contraproducente para a patologização da fé, a qual se afigura admissível no contexto de manifestações fundamentalistas mas está longe de encerrar a inexplicabilidade do mistério que abre as portas à transcendência.

A introdução acaba por servir apenas para abrir o caminho de uma análise do teatro da crueldade onde ao longo da história foram actuando as três grandes religiões monoteístas, explicado a partir daquilo a que Sloterdijk chama de «rituais de máximo stress», ou seja, momentos que permitem compreender biopsicologicamente a emergência, interiorização e radicalização dos dogmas. O zelo monoteísta originou vários confrontos e tensões entre as três sínteses, os quais são sintacticamente recenseados e desenvolvidos numa exposição clara das campanhas que, ao longo dos tempos, se constituíram como formas de expansão no mundo das três grandes religiões: soberania teocrática (judaísmo), actividade missionária (cristianismo), guerra santa (islamismo).

Na segunda parte do ensaio, por assim dizer, são traçados os modelos lógicos da fé num único Deus. Mergulha-se na raiz do problema. Não sendo possível desprezar os conhecimentos biopsicológicos, urge compreender a lógica do «movimento do pensamento suprematista». O problema da morte apresenta-se novamente como fulcral. Percebemos claramente em todas as religiões monoteístas uma tentativa de «positivação da morte» que procura dar asas ao ser de modo a que este possa elevar-se ao Altíssimo. Para lá da histeria, a ascensão tem uma implicação lógica: «os monoteísmos zeladores e as suas missões universalistas (…) fundam-se no princípio de que o risco do erro (…) deve ser eliminado por todos os meios – mesmo que isso implique apagar aquele que se engana ao mesmo tempo que o seu erro» (p. 85). A palavra do profeta transforma-se em axioma, exigindo assim uma submissão que trava o debate.

Será possível dialogar num cenário destes? O que pode tornar possível o diálogo? A resposta reside numa compreensão da tese lançada por Jacques Derrida (1930-2004): «Hoje, a guerra pela “apropriação de Jerusalém” é a guerra mundial». Para Sloterdijk «apropriar-se de Jerusalém» só pode significar uma coisa: querer apropriar-se de certos potenciais semânticos que autorizem os seus vectores a empreender campanhas com o carácter global já evocado» (p. 96). O objectivo final seria controlar os extremismos a partir do interior das religiões zeladoras. Controlar e não eliminar, o que não só se afigura impossível como - está mais que provado - produz danos colaterais irreversivelmente danosos. O combate aos extremismos só é possível no seio das grandes religiões, nomeadamente desdramatizando o texto absoluto, «dessuprematizando os suprematismos» na base de uma ciência da civilização com sentido de humor: «O processo de civilização dos monoteísmos será concluído quando os homens se envergonharem de certos ditos do seu Deus que, por infelicidade, foram conservados por escrito, como se tem vergonha das palavras de um avô habitualmente muito amável, mas sujeito a crises de cólera» (p. 107).

Falhado o programa de domesticação comunista, na medida em que, instaurando-se como «ateísmo político disposto a tudo», acabou resvalando para outra forma de suprematismo que substituiu o «Altíssimo imaginário» das religiões por um «Altíssimo real» político, resta-nos a esperança numa ciência crítica da civilização. Ainda mal começámos essa nova caminhada, é certo, mas já a desconfiança assola o leitor. Afinal de contas, o que temos hoje no chamado mundo civilizado não é tanto uma reconquista da reputação das religiões como parece ser uma nova forma de religião chamada economia, baseada na fé do consumo e temente ao Deus monetário. Talvez esse seja apenas outro suprematismo cujas vítimas ainda estão por contabilizar.

Escrito para o Rascunho.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

ISTO POR CÁ VAI INDO COMO DANTES

Por vezes a personalidade do criador sobrepõe-se à obra, gerando no eventual leitor sentimentos de simpatia ou de antipatia que abrirão ou obstaculizarão o caminho da leitura. “António Botto – Real e Imaginário”, ensaio biográfico de António Augusto Sales publicado pela Livros do Brasil em 1997, serviu-me de ponte para as “Canções”. Perdi-me em algumas delas com espanto e gozo, do mesmo género daquele que experimentei quando encontrei o poeta nas “Líricas Portuguesas” de Jorge de Sena ou na “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” que honrou Natália Correia com 3 anos de pena suspensa. Durante muitos anos, a poesia de Botto ficou-me restringida aos poemas contidos nessas duas monumentais e polémicas antologias e a mais alguns poemas fotocopiados de edições dificilmente adquiríveis. O silenciamento crítico de que Eduardo Pitta dá conta na introdução a “Canções e Outros Poemas” (Quasi, Maio de 2008) ajudou apenas a reforçar os equívocos resultantes de leituras precipitadas e menos sérias, nomeadamente aquele que pretende confinar a poesia de António Botto à lírica de temática homoerótica. Poderá uma vastíssima obra que inclui, além de poesia, textos dramatúrgicos, contos, novelas, narrativas quotidianas, cartas, ser apenas e tão-só a expressão de uma condição sexual? O repúdio da vulgaridade, uma corajosa autenticidade, a afirmação de corpo inteiro num país fatidicamente provinciano, desde logo nas suas elites, explicam a cegueira que ao longo de vários anos tem arrumado a poesia de António Botto na sacola do esquecimento. A estética das “Canções” encontra as suas raízes na ética hedonista, numa identificação da beleza com o desejo que enaltece o gesto criador para lá de qualquer paradigma que o pretenda fixar. É uma poesia corajosa, não apenas por nela o coração se mostrar, mas também porque nela o coração se constrói como um cisne a cantar enquanto morre. Estamos fartos de saber que se há qualidades que os portugueses não suportam, das bases à “intelligentzia”, são as do desassombro e da mais básica honestidade do ser para consigo próprio, uma honestidade que tantas vezes resulta numa dúvida que mescla verdade com fingimento. Na arte poética de Botto a coragem aparece contextualizada num lugar crepuscular tipicamente modernista. Repare-se no final de uma canção que convoca Rimbaud e Verlaine: «Mas tudo isto é verdade? // Tudo aconteceu assim? // No labirinto sombrio / Do meu destino de Artista, / Muito mais e muito mais / Se passa dentro de mim» (p. 87). Este poema integra o volume “Curiosidades Estéticas” (1924), publicado com posfácio de Mário Saa. Vinte anos depois, no livro intitulado “Toda a Vida” (Pitta adoptou a versão de 1944), Botto iniciará assim um poema: «Tudo o que eu digo é verdadeiro» (p. 298), para logo terminar deste modo um outro: «Não leias estes versos. Tudo isto, / Tudo isto, afinal, é só mentira» (p. 301). Verdade e mentira não se distinguem em poesia, são, perdoem-me o plebeísmo, as duas faces de uma mesma moeda, o tal labirinto sombrio do destino do artista. Mentir é preciso, reforçará ainda o poeta, consciente, talvez, do seu não-lugar num meio que o vexava. Pelo meio das canções, organizadas em sequências, encontramos alguns conjuntos de poemas autónomos, como o “Poema de Cinza” dedicado ao amigo Fernando Pessoa. A crónica é explícita e, atrevo-me a dizê-lo, permanece actual: «Isto por cá vai indo como dantes; / O mesmo arremelgado idiotismo / Nuns senhores que tu já conhecias / - Autênticos patifes bem falantes… / E a mesma intriga; as horas, os minutos, / As noites sempre iguais, os mesmos dias, / Tudo igual!» (p. 217) Estas “Canções”, que ao longo dos anos foram sofrendo variadíssimos ajustes, revelam-se deste modo a obra de um drama interior exposto ao conflito - «Tudo quanto for vida governada, / Medir profundidades, / Dá-me raiva, revolta, sinto nojo, e até pavor!» (p. 401) -, que jamais recusou a sua natureza paradoxal para se refugiar numa normalidade que o poeta não se limitava apenas a questionar: «Moral! Que vem a ser isso / Que se dá sem se pedir?» (p. 267) O resultado é visível: uma casa construída no deserto (ver a canção da p. 389), um fim miseravelmente só. Ora, se não bastaram outrora os elogios de Fernando Pessoa, de que podem agora valer as parcas considerações de um leitor? Apenas uma esmola contra o esquecimento, porque também ao leitor nauseiam as vidas arrumadas. Prefere o leitor reencontrar-se com o poeta nos lupanares da cidade e aí entender a “Filosofia de um Alcoólico” que soube retratar o fado de uma sociedade que só não se perdeu no tempo porque, de quando em vez, o tempo retorna como um eco dificilmente compreensível. Haja em toda esta escandalosa história, dos livros apreendidos à miséria e ao ostracismo, passando pelas campanhas de desvalorização, pelo puritanismo facínora dos censores, pelas polémicas mais de carácter do que de génio, pela expulsão da função pública, mais uma pequena lição de como a poesia não se compadece com elogios momentâneos nem com lugares à sombra de futuros sem vida. A vida que se foi pondo nos poemas está novamente disponível nas “Obras Completas de António Botto” que Eduardo Pitta vai dirigindo e as Quasi vão publicando. O primeiro volume saiu há quase um ano. Quem deu por ele?


Escrito para o Rascunho.