terça-feira, 9 de março de 2010

FISH TANK



Nasci numa localidade atravessada por um rio. Desde muito cedo, habituei-me a dar utilidade às canas. Ia com alguns amigos para um açude, roubávamos maçãs pelo caminho, fumávamos barba de milho, pescávamos peixes que depois voltávamos a lançar à água. Um dia, lembrei-me de ficar com um desses peixes. Guardei-o dentro de um saco de plástico cheio e levei-o para casa, colocando-o depois dentro de um aquário improvisado. Um frasco de Toddy, se bem me lembro. O peixe passava o tempo todo a saltar para fora do frasco. Um dia não fui a tempo de voltar a colocá-lo dentro de água e o peixe morreu. Afogado de ar, suponho. Fish Tank, o filme de Andrea Arnold que ganhou este ano o Prémio da Semana dos Realizadores/Prémio Manoel Oliveira, acumulando com o Prémio para Melhor Argumento, oferece-nos uma personagem semelhante àquele peixe da minha infância. Começa com essa personagem ofegante, uma jovem adolescente que diremos problemática só para simplificar a caracterização. Fechada numa sala de um prédio abandonado dos subúrbios, ensaia passos de dança. Porém, o destino da jovem Mia não será tão óbvio quanto o do meu peixe. É numa intencional frustração das expectativas em momentos de contenção que o filme de Andrea Arnold ganha todo o interesse. Por diversas ocasiões, a mais óbvia morbidez do espectador é levada a esperar o pior. Mas o pior fica sempre por acontecer. Numa cena, desconfiamos que a jovem protagonista do filme acabará violada. Nada acontece. Noutra, supomos que ela irá matar, ainda que acidentalmente, a filha de um impostor que lhe andava a comer a mãe. Nada acontece. Noutra cena, é-nos sugerido que ela será agredida raivosamente por esse aldrabão. Fica-se a brutal violência por uma chapada nas trombas. Uma chapada do mesmo género que a realizadora nos dá nestas e noutras variadíssimas ocasiões. A frustração das expectativas é uma constante no argumento e na relação mantida entre o espectador e a narrativa visual a que este está sujeito. Se os filmes fossem sobre alguma coisa, podíamos dizer que este é um filme sobre a vida nos subúrbios... mas não estaríamos a ser precisos. Também não se trata de pretender fugir ao óbvio resvalando numa gratuitidade reflexiva que poderia fazer deste mais um filme sobre a entrada na vida adulta. À jovem Mia já foi usurpada a adolescência. Uma mãe disfuncional obrigou-a a crescer raivosamente. Há pelo meio uma mula que talvez possa servir de metáfora para tudo o que ali se passa. A mula está presa num acampamento de ciganos. Mia tenta, por diversas ocasiões, libertá-la. Não consegue. Ela e a mula têm praticamente a mesma idade. Estão ambas aprisionadas. Porque se encontrava doente, a mula terá de ser abatida. O mesmo terá de fazer Mia. Abater-se, deixar para trás o passado, libertar-se, já que em seu redor não existe quem a queira libertar. Enfim, a ser sobre alguma coisa, este filme é sobre a capacidade de resistir às adversidades e tomar a vida nas próprias mãos. Uma última palavra para Michael Fassbender, um grande actor que já me tinha surpreendido em Hunger e Eden Lake. Teve também uma participação mais discreta em Inglourious Basterds.

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