FACE
A FACE
Escrever
sobre temas profundos,
poços escavados na margem da Terra.
Escrever, por exemplo, o tempo –
como se o tempo fosse o tampo da mesa -,
ou o esquecimento – como se o esquecimento
fosse uma folha de papel imaculado.
Escrever a morte – como se a morte fosse
a terra coberta de pele, uma pela
encerrada numa palavra, a palavra amor.
Escrever
face a face, os órgãos engodados,
explorando a estatura calada do consolo.
Escrever face a face, difusos, os significados
na cama, destapados, nus, a irradiarem
um arco-íris de insatisfeita satisfação.
Escrever a mais-valia dos olhos esmagados,
escorrendo dos globos oculares como gelatina.
Escrever
amor, porque a família corta
e cria e identifica e importuna,
sempre que do outro lado do muro,
da parede, do corredor, a palavra clama
e chora como uma chama gélida,
algo inexplicavelmente face a face.
Essa
palavra sábia de emurchecidos membros,
amolecidas bocas secas, dedos e mãos caídos
sobre o dorso dos lençóis, essa palavra
sabe dos sóis apagados, dependurados face a face,
sabe a genealogia dos gestos e do real
a idealizar-se pelos sonhos adentro.
Face
a face com o silêncio, as costas voltadas
para as costas, eis uma tão arquetípica forma
de dizer: amo-te, com o coração fechado
para balanço, o corpo fechado para obras,
as mãos – volto já – de amor face a face,
tão funcionais, lúgubres, equilibradas,
tão por fora de tudo o que foi dentro,
tão apenas já só agora, como um eco
tão-só supostamente face a face.
Henrique
Manuel Bento Fialho, in “O prisma das muitas cores – Poesia de Amor Portuguesa
e Brasileira”, organização de Victor Oliveira Mateus, prefácio de António
Carlos Cortez, Labirinto, Outubro de 2010, pp. 77-78.
Poemas
de Adalberto Alves, Agripina Costa Marques, Albano Martins, Alberto da Costa e
Silva, Alberto Soares, Alexandre Bonafim, Alexei Bueno, Alice Fergo, Alice
Vieira, Álvaro cardoso Gomes, Amélia Vieira, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral,
Ana Miranda, António de Almeida Matos, Antonio Brasileiro, António Cardoso
Pinto, António Carlos Cortez, Antonio Carlos Secchin, Antonio Cicero, António
José Queiroz, António Manuel Couto Viana, António Miranda, António Ramos Rosa,
António Salvado, Artur F. Coimbra, Carlos Ferreira Afonso, Carlos Nejar, Carlos
Vaz, Casimiro de Brito, Cláudio Lima, Cláudio Neves, Cleri Aparecida Biotto
Bucciolli, daniel gonçalves, Dirceu Villa, Donizete Galvão, E. M. de Melo e
Castro, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando Esteves Pinto, Flávio
Moreira da Costa, Floriano Martins, Florisvaldo Mattos, Gilberto Mendonça
Teles, Gisela Ramos Rosa, Glória de Sant’Anna, Gonçalo Salvado, Graça Pires,
Hélia Correia, Henrique Levy, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas
Machado, Iacyr Anderson Freitas, Ildásio Tavares, Inês Lourenço, Isabel Wolmar,
Ivan Junqueira, Jaime Rocha, João de Mancelos, João Negreiros, João Ricardo
Lopes, João Rui de Sousa, Joaquim Cardoso Dias, Joel Henriques, Jorge Reis-Sá,
José Agostinho Baptista, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José
Félix Duque, José Jorge Letria, José Manuel Capêlo, José Manuel Mendes, Juliana
Miranda, Lara de Lemos, Lêdo Ivo, Luís Adriano Carlos, Luís Filipe Cristóvão,
Maiara Gouveia, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Manuel Neto dos Santos,
Marco Lucchesi, Margarida Vale de Gato, Maria Alberta Menéres, Maria Andresen,
Maria Augusta Silva, Maria Azenha, Maria do Carmo Campos, Maria Carpi, Maria
Estela Guedes, Maria João Fernandes, Maria Lucília Meleiro, Maria Quintans,
Maria do Rosário Pedreira, Maria do Sameiro Barroso, Maria Teresa Dias Furtado,
Maria Teresa Horta, Maria Toscano, Mariana Ianelli, Mário Cláudio, Matilde Rosa
Araújo, Miguel-Manso, Milton Torres, Myriam Fraga, Neide Archanjo, Nuno
Dempster, Nuno Júdice, Olga Savary, Paulo Franchetti, Paulo Moreiras, Paulo
Tavares, Pedro Lyra, Pedro Sena-Lino, Pompeu Miguel Martins, Renata Pallottini,
Ricardo Domeneck, Rodrigo Petronio, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Coias,
Rui Costa, Rui Lage, Ruy Espinheira Filho, Ruy Ventura, Seomara da Veiga
Ferreira, Sérgio Nazar, Teresa Rita Lopes, Teresa Vieira, Tiago Nené, Urbano
Tavares Rodrigues, valter hugo mãe, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto
Vieira, Victor Oliveira Mateus, Vítor Oliveira Jorge.
poços escavados na margem da Terra.
Escrever, por exemplo, o tempo –
como se o tempo fosse o tampo da mesa -,
ou o esquecimento – como se o esquecimento
fosse uma folha de papel imaculado.
Escrever a morte – como se a morte fosse
a terra coberta de pele, uma pela
encerrada numa palavra, a palavra amor.
explorando a estatura calada do consolo.
Escrever face a face, difusos, os significados
na cama, destapados, nus, a irradiarem
um arco-íris de insatisfeita satisfação.
Escrever a mais-valia dos olhos esmagados,
escorrendo dos globos oculares como gelatina.
e cria e identifica e importuna,
sempre que do outro lado do muro,
da parede, do corredor, a palavra clama
e chora como uma chama gélida,
algo inexplicavelmente face a face.
amolecidas bocas secas, dedos e mãos caídos
sobre o dorso dos lençóis, essa palavra
sabe dos sóis apagados, dependurados face a face,
sabe a genealogia dos gestos e do real
a idealizar-se pelos sonhos adentro.
para as costas, eis uma tão arquetípica forma
de dizer: amo-te, com o coração fechado
para balanço, o corpo fechado para obras,
as mãos – volto já – de amor face a face,
tão funcionais, lúgubres, equilibradas,
tão por fora de tudo o que foi dentro,
tão apenas já só agora, como um eco
tão-só supostamente face a face.

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