sábado, 12 de março de 2011

VICENTE HUIDOBRO

Vicente Huidobro chegou-me pela mão de Cesariny quando, há anos, li a compilação intitulada Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial. Que eu saiba, o poeta chileno não tem qualquer livro traduzido para português. O mesmo acontece com Parra. Em Portugal, a poesia chilena está circunscrita ao sucesso de Neruda. É pena. Quer Parra, quer Huidobro, são poetas muito mais empolgantes. Vicente Huidobro (1893-1948) publicou cerca de trinta livros, levou uma vida repleta de percalços e ousou experimentar vários registos. Podemos mesmo afirmar que a sua produção foi tão variada quanto as contingências da vida que o acompanharam ao longo dos anos. René de Costa, nesta antologia crítica publicada pela Alianza Editorial (Madrid) em 1996, guia-nos num percurso complexo com impressionante clareza e sentido didáctico. O livro está dividido em seis partes que corresponderão a seis momentos de acção criativa. Dos poemas iniciais, de inspiração modernista, a inclinar-se já para o dadaísmo, as composições gráficas e a poesia visual de que Apollinaire é hoje considerado (erradamente?) um percursor, à incursão pela poesia cubista e à fundamentação do criacionismo poético, há de tudo um pouco. Mas um dos principais atractivos desta antologia é fazer acompanhar a criação poética dos testemunhos narrativos e ensaísticos que a sustentaram, quer sob a forma de manifestos, fragmentos e conferências, ensaios ou entrevistas, assim como cartas e textos de timbre bastante diversificado. A atitude inicial do poeta é de ruptura com o passado — Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. — e de projecção de algo novo, gesto vanguardista que impressiona pela convicção com que se afirma. Hoje consideraríamos os manifestos criacionistas manifestações pomposas e presunçosas, tão arreigados que vamos indo ao estado putrefacto da retórica vigente. De resto, é uma fatídica tendência portuguesa esta dos nossos poetas serem quase sempre conformistas, acomodados e, no pior dos cenários, reaccionários, preferindo deixar-se arrastar pelas vagas da concórdia a enfrentar destemida e desassombradamente as intempéries da discórdia. Debate não existe porque a proposta é quase sempre a mesma e resume-se a calar tudo o que saia dos eixos. Mas noutros tempos os poetas podiam reivindicar uma criação pura que fizesse do poeta já não só um intérprete da Natureza, um transfigurador, mas sim um criador da própria Natureza, um Poeta-Deus. Curiosamente, levada ao extremo, esta atitude acabou por desembocar, ainda antes da antipoesia de Parra, no aparecimento da figura do antipoeta no maior dos poemas de Huidobro (Altazor, 1931). Ainda antes, houve uma passagem meteórica pelo surrealismo, pelo dadaísmo e pelas teorias de Breton, que Vicente acabou por renegar mais tarde, no famoso Manifiesto Manifiestos (1925), denunciando o facilitismo e a vacuidade da escrita automática enquanto método de criação literária: Se seguimos vuestras teorías caeremos en el arte de los improvisadores. Contra a banalidade, a defesa de uma arte muito mais séria e muito mais formidável. Se é fácil entender este discurso à luz das teorias defendidas pela axiomática criacionista, não tão fácil será se o procurarmos articular com a tendência final para uma poética da dessublimação, politicamente empenhada e preocupada com efeitos sociais contemporâneos. Cuida de no morir antes de tu muerte é a frase que nos pode soar como sentença final de uma poética sempre voltada para o futuro. Aliás, se há algo que liga todo este percurso, dos tempos experimentais à fase de militância política, esse algo é a busca do novo, a perseguição do futuro, a vontade de agir sobre o presente criando qualquer coisa que pudesse agir sobre a própria realidade. Vicente Huidobro recusava, pois, o tempo mais comum na actual poesia portuguesa, ou seja, o tempo passado e a retórica do confessionalismo ou a ditadura da memória: Los hombres vueltos hacia el pasado pueden ser historiadores, pêro no serán poetas. Deixo mais uma versão pessoal de um poema, digamos assim, absolutamente memorável:

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos

Cansaram-se de me esperar e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas

Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura

Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio



De Últimos Poemas (1948)

6 comentários:

Mariana disse...

Gostei da apresentação do poeta, e mais ainda do poema escolhido: a primeira estrofe é formidável.

Bacana a dedicação deste blog à poesia, descobrindo, apresentando e traduzindo poetas de diferentes partes do mundo. É preciso fôlego de leitura para acompanhar.

hmbf disse...

ó mariana, obrigado. não andamos cá por outra razão.

Rui Almeida disse...

Há uma tradução do Luís Pignatelli, para a Hiena, em 1986. (colecção cão vagabundo, n.º 9)

hmbf disse...

não sabia. valha-nos a tua omnisciência :-)

Rui Almeida disse...

Faltou o título: "Natureza Viva".
Capa aqui: http://3.bp.blogspot.com/_LIn2knWxj4g/SkjKn2zhetI/AAAAAAAAFGk/HxdK2vhiyZI/s1600-h/1449.jpg
Dois poemas aqui: http://ocafedosloucos.blogspot.com/2008/11/cansao-caminho-dia-e-noite-como-um.html

hmbf disse...

e agora é que vou comer, foda-se :-)