domingo, 13 de novembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS




Enquanto o céu rebenta em guerra, largando sobre a terra as lágrimas dos feridos, inundando praças, ruas, avenidas, provocando com seus raios os desastres do respeito, impacientando os animais e os corações dos homens, viajo ao passado através do humor inteligente de Woody Allen. Paris, porto de artistas e vulcão criativo, cidade onde a arte andou pelas ruas e frequentou cafés como gente vulgar, serve de cenário para um jogo intelectual com origem na mais comum das inquietações: como seria a nossa vida se pudéssemos viver noutra época? A dúvida tem implícita uma insatisfação provocada pelo presente, seja ele qual for, mas essa insatisfação é também a rede que nos ampara a queda sempre que constatamos a universalidade do tédio. Gente queixando-se da decadência vivida na sua época é o que nunca faltou ao mundo. É assim, pelo menos, desde que o homem regista essa insatisfação como um legado onde os vindouros poderão consolar a melancolia. Ao protagonista de Midnight in Paris, uma comédia mais surrealista do que romântica, é oferecida a possibilidade de conviver com os seus heróis na Paris dos anos 20 e da Belle Époque. O próprio conceito de Belle Époque acaba desfigurado quando escutamos Paul Gauguin queixar-se das gerações mais novas de então, numa mesa onde se encontravam Degas e Toulouse-Lautrec. Esta viagem através dos tempos permite a Gil (Owen Wilson) libertar-se dos constrangimentos motivados por uma noiva superficial e por um casal de amigos onde a figura do intelectual pedante é desmascarada sem parcimónias. Ao mesmo tempo, permite-lhe, e permite-nos, cruzar-se com Eliot, Picasso, Dali, Man Ray, Hemingway, Luis Buñuel ou Gertrude Stein num contexto semi-onírico onde os preconceitos existenciais são contornados pelas situações vividas. Ou seja, mais do que a consciência do presente, é a consciência do passado que nos permite delinear com clareza os problemas da nossa existência. Como é óbvio, muitos dos dramas de hoje seriam frugais se, ao vivermos esses dramas, concentrássemos as nossas atenções nos tempos em que era normal decapitarem-se homens e mulheres na praça pública. O que torna a actualidade insuportável é a ilusão de um progresso moral inexistente, de uma evolução que pode ser falimente relativizada quando nos confrontamos com a essência inalterada dos comportamentos humanos. Que a arte nos permita maquilhar a bestialidade fundadora do ser é mais uma ambição do que um objectivo alcançado. Por outro lado, Woody Allen mostra-nos, numa espécie de conto de fadas para adultos, que o segredo para uma vida satisfatória, bem diferente dessa utópica felicidade apregoada de cruz ao peito, pode estar na aceitação dos anacronismos que moldam a personalidade de cada um dos homens. Ser antiquado, afinal, é apenas ser resistente à degradação imposta pela modernidade. É nisso que pensamos quando tomamos a noção de que a nossa realidade, vista à luz da primeira metade do século XX, seria pura ficção científica.

3 comentários:

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Também fiz um post sobre o filme, mas o seu é infinitamente superior... Adorei o seu espaço!

Sol disse...

Y yo que pensaba postear algo sobre esta película! Afortunadamente, lo hiciste primero y es extraordinario! A mi sólo me queda, copiarlo en mi casa. Gracias!

carol disse...

Gostei bastante deste filme!