Em O Humor e a Lógica dos Objectos de Duchamp (Relógio d’Água, Maio de 2011) José Gil e Ana Godinho reúnem esforços no sentido de uma reflexão sobre a obra de Marcel Duchamp. Não fugindo à impossibilidade da interpretação, e limitados por essa característica intrínseca ao objecto em análise, concentram-se numa tentativa de penetrar uma eventual lógica criativa na excepcionalidade do trabalho levado a cabo pelo "inventor" do ready-made. O resultado é paradoxal, até porque qualquer livro que se escreva sobre este trabalho corre o risco de se transformar ele próprio num ready-made, ou seja, num transformador de energias desperdiçadas e inúteis. É importante termos em conta que, podendo ser pensada, a obra de Duchamp dispensa o pensamento, dispensa-se, inclusive, a si própria, não reclama absolutamente nada que não seja a afirmação de uma ruptura com o artístico e, nesse sentido, com a estética subjacente à justificação do artístico. A ênfase colocada no verbo respirar faz todo o sentido, na medida em que o material arquitectónico de Duchamp é, precisamente, a respiração, a respiração não apenas num sentido orgânico ou sensível, mas também, e talvez sobretudo, nesse sentido existencial marcado pela busca, pela viagem, pelo trânsito e pela transitoriedade, pela liberdade já não apenas como negação da tradição mas sim enquanto afirmação da vida. O trabalho de José Gil e Ana Godinho está organizado em três momentos. Um primeiro ensaio de José Gil focado naquilo a que poderíamos chamar o primeiro Duchamp, ou, adoptando a terminologia de Gil, um Duchamp antes de Duchamp. A matéria em análise são os cartoons produzidos para revistas no início da actividade. Gil apoia-se em Bergson para compreender o humor desses desenhos, um «humor do humor» (espirituoso) que nos inspira um sorriso mental não pela comicidade das situações ilustradas mas, precisamente, pelo distanciamento dessa comicidade. O que está em causa é a possibilidade do humor no imo da trivialidade: «o humor nasce do “vazio interno ao desenho”, do desfasamento entre um visível a captar e o que surge e não se lhe adequa – quer dizer, o humor nasce do que não surge. O humor é esse «acidente», um acontecimento que se revela não acontecer» (p. 26). Há neste sentido do humor uma projecção para o vazio que acabará por marcar toda a obra posterior de Marcel Duchamp: «os desenhos humorísticos de Duchamp supõem um desfasamento entre a figura e o texto, desfasamento que cria um vazio» (p. 36). Este desfasamento torna-se mais claro no ensaio de Ana Godinho, intitulado Duchamp hors-champ. Aí, a vida e a obra encontram-se e confundem-se, adquirem uma lógica que, no fundo, é a lógica da anomalia enquanto espinha dorsal do homem-criador. Ana Godinho fala do delírio enquanto processo, «o delírio entendido como deslocamento, passagem de “vida” “que atravessa o vivível e o vivido”» (p. 61). Este delírio é, à semelhança do que sucede com outros criadores, quer na literatura, quer nas mais variadas dimensões da criação humana, a porta para um espaço e um tempo indefiníveis, ocupados apenas pelo ar reclamado pela respiração enquanto acto criativo, digamos, supremo. É a magia que carece de explicação: «Duchamp faz escolhas «anómalas» de objectos, traçados, materiais, na sua vida mesmo. Afasta-se das convenções do seu tempo, «não seguindo a corrente daquela época», escolhe não ter vida pública, não ter posição moral, não ter objectivos sociais. Não escolhe uma «linha» de pintura, recusa os meios tradicionais, e escolhe muitas vezes o meio dos jogadores de xadrez («é muito mais simpático que o dos artistas») porque são cegos, confusos, loucos de certa natureza e também porque o xadrez fornece «uma faceta minúscula», mas «suficientemente diferente das outras para se tornar distinta» e alargar a sua «existência»» (p. 74). A transformação do olhar proposta por Duchamp, complexa nas suas variáveis filosóficas, é bastante simples no seu contexto mais existencial. No fundo, está em íntima relação com a respiração cínica dos antigos ou com um certo epicurismo menos submisso. Este livro fecha com os dois ensaístas em diálogo, um diálogo esclarecedor sobre as intenções de cada um dos ensaios anteriores. Não obstante, é igualmente revelador da dificuldade porventura insuperável que atravessa este tipo de ensaios: não estando certo de que o anómalo refuta a lógica, torna-se claro que uma lógica das anomalias pode ser um projecto estimulante quando aceita, à partida, o seu inevitável falhanço.
Sábado, 31 de Dezembro de 2011
O HUMOR E A LÓGICA DOS OBJECTOS DE DUCHAMP
Em O Humor e a Lógica dos Objectos de Duchamp (Relógio d’Água, Maio de 2011) José Gil e Ana Godinho reúnem esforços no sentido de uma reflexão sobre a obra de Marcel Duchamp. Não fugindo à impossibilidade da interpretação, e limitados por essa característica intrínseca ao objecto em análise, concentram-se numa tentativa de penetrar uma eventual lógica criativa na excepcionalidade do trabalho levado a cabo pelo "inventor" do ready-made. O resultado é paradoxal, até porque qualquer livro que se escreva sobre este trabalho corre o risco de se transformar ele próprio num ready-made, ou seja, num transformador de energias desperdiçadas e inúteis. É importante termos em conta que, podendo ser pensada, a obra de Duchamp dispensa o pensamento, dispensa-se, inclusive, a si própria, não reclama absolutamente nada que não seja a afirmação de uma ruptura com o artístico e, nesse sentido, com a estética subjacente à justificação do artístico. A ênfase colocada no verbo respirar faz todo o sentido, na medida em que o material arquitectónico de Duchamp é, precisamente, a respiração, a respiração não apenas num sentido orgânico ou sensível, mas também, e talvez sobretudo, nesse sentido existencial marcado pela busca, pela viagem, pelo trânsito e pela transitoriedade, pela liberdade já não apenas como negação da tradição mas sim enquanto afirmação da vida. O trabalho de José Gil e Ana Godinho está organizado em três momentos. Um primeiro ensaio de José Gil focado naquilo a que poderíamos chamar o primeiro Duchamp, ou, adoptando a terminologia de Gil, um Duchamp antes de Duchamp. A matéria em análise são os cartoons produzidos para revistas no início da actividade. Gil apoia-se em Bergson para compreender o humor desses desenhos, um «humor do humor» (espirituoso) que nos inspira um sorriso mental não pela comicidade das situações ilustradas mas, precisamente, pelo distanciamento dessa comicidade. O que está em causa é a possibilidade do humor no imo da trivialidade: «o humor nasce do “vazio interno ao desenho”, do desfasamento entre um visível a captar e o que surge e não se lhe adequa – quer dizer, o humor nasce do que não surge. O humor é esse «acidente», um acontecimento que se revela não acontecer» (p. 26). Há neste sentido do humor uma projecção para o vazio que acabará por marcar toda a obra posterior de Marcel Duchamp: «os desenhos humorísticos de Duchamp supõem um desfasamento entre a figura e o texto, desfasamento que cria um vazio» (p. 36). Este desfasamento torna-se mais claro no ensaio de Ana Godinho, intitulado Duchamp hors-champ. Aí, a vida e a obra encontram-se e confundem-se, adquirem uma lógica que, no fundo, é a lógica da anomalia enquanto espinha dorsal do homem-criador. Ana Godinho fala do delírio enquanto processo, «o delírio entendido como deslocamento, passagem de “vida” “que atravessa o vivível e o vivido”» (p. 61). Este delírio é, à semelhança do que sucede com outros criadores, quer na literatura, quer nas mais variadas dimensões da criação humana, a porta para um espaço e um tempo indefiníveis, ocupados apenas pelo ar reclamado pela respiração enquanto acto criativo, digamos, supremo. É a magia que carece de explicação: «Duchamp faz escolhas «anómalas» de objectos, traçados, materiais, na sua vida mesmo. Afasta-se das convenções do seu tempo, «não seguindo a corrente daquela época», escolhe não ter vida pública, não ter posição moral, não ter objectivos sociais. Não escolhe uma «linha» de pintura, recusa os meios tradicionais, e escolhe muitas vezes o meio dos jogadores de xadrez («é muito mais simpático que o dos artistas») porque são cegos, confusos, loucos de certa natureza e também porque o xadrez fornece «uma faceta minúscula», mas «suficientemente diferente das outras para se tornar distinta» e alargar a sua «existência»» (p. 74). A transformação do olhar proposta por Duchamp, complexa nas suas variáveis filosóficas, é bastante simples no seu contexto mais existencial. No fundo, está em íntima relação com a respiração cínica dos antigos ou com um certo epicurismo menos submisso. Este livro fecha com os dois ensaístas em diálogo, um diálogo esclarecedor sobre as intenções de cada um dos ensaios anteriores. Não obstante, é igualmente revelador da dificuldade porventura insuperável que atravessa este tipo de ensaios: não estando certo de que o anómalo refuta a lógica, torna-se claro que uma lógica das anomalias pode ser um projecto estimulante quando aceita, à partida, o seu inevitável falhanço.
INTRODUZIR BERGSON
JG - Já fiz a experiência de fumar uma erva, uma erva especial, hilariante e o que acontece de extraordinário com essa erva hilariante é que tudo o que se vê, se toca, de que se toma consciência, etc., é motivo de riso, ri-se quatro horas seguidas. Um homem...
AG - Como pode acontecer num certo estado de embriaguez?
JG - Essa experiência é de facto como uma embriaguez, porque era evidente que as pessoas não riam, riam-se os que tinham inalado essa erva. Como é que era possível que tudo tivesse humor aí? É que não era ironia, tudo era motivo de riso.
AG - Essa erva atinge o inconsciente.
AG - Como pode acontecer num certo estado de embriaguez?
JG - Essa experiência é de facto como uma embriaguez, porque era evidente que as pessoas não riam, riam-se os que tinham inalado essa erva. Como é que era possível que tudo tivesse humor aí? É que não era ironia, tudo era motivo de riso.
AG - Essa erva atinge o inconsciente.
JG - Atinge qualquer coisa no inconsciente, é extraordinário, se as coisas não fossem risíveis, se não houvesse um risível global do mundo, não era possível.
AG - Com a noção de risível estás a introduzir Bergson.José Gil e Ana Godinho, in O Humor e a Lógica dos Objectos de Duchamp, Relógio d'Água, Maio de 2011, p. 117.
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
O MEU PAI E EU
1. Sobre a Terra já se cometeram as maiores atrocidades humanas. No entanto, a erva continua a crescer e, com o passar dos anos, o sangue derramado desaparece como uma nódoa que a história não lembrará. O vale que agora observo foi palco das mais sangrentas batalhas. Nada nele faz pensar que ali uma mulher foi extorquida dos seus filhos, uma criança foi violada ou um homem torturado até à morte. Nada no vale nos faz sequer supor que tanta beleza só é possível acompanhada de uma dose proporcional de esquecimento.
2. Neste último ano desinteressei-me da poesia. Escrevi um poema e li pouquíssimos livros (se comparar com anos anteriores). Este facto deve-se a uma proximidade com os poetas que me é fatal. Para amar a poesia necessito distanciar-me dos poetas. Quanto mais próximo da insuportável vulgaridade dos poetas, menos a poesia me toca enquanto linguagem excepcional.
3. Alguns amigos não compreendem a minha aversão às cidades, chegam a dizer que é preconceito. São adeptos da vida urbana pelo que dizem trazer à mão: teatros, cinemas, bares, azáfama… Costumo comparar estas justificações com a do homem que manda instalar o MEO em casa para poder ter 600 canais, embora veja repetidamente os mesmos programas, distribuídos por um ou dois desses 600 canais. Tenho dentro de mim azáfama suficiente para prescindir da cidade. Se pudesse, viveria no deserto. E nem aí tenho fé de que poderia sentir-me em paz comigo e com o mundo.
4. Vejo-as passar em desengonçado equilíbrio sobre saltos altíssimos. Vão assim para o Centro Comercial, andam assim nas ruas da noite... Suponho que se descalcem quando chegam a casa. Pelo que vejo na televisão é bem provável que esteja enganado. Se calhar dormem de saltos altos nos pés para evitarem sonhos ínfimos, baixos, medíocres como a generalidade da vida real.
2. Neste último ano desinteressei-me da poesia. Escrevi um poema e li pouquíssimos livros (se comparar com anos anteriores). Este facto deve-se a uma proximidade com os poetas que me é fatal. Para amar a poesia necessito distanciar-me dos poetas. Quanto mais próximo da insuportável vulgaridade dos poetas, menos a poesia me toca enquanto linguagem excepcional.
3. Alguns amigos não compreendem a minha aversão às cidades, chegam a dizer que é preconceito. São adeptos da vida urbana pelo que dizem trazer à mão: teatros, cinemas, bares, azáfama… Costumo comparar estas justificações com a do homem que manda instalar o MEO em casa para poder ter 600 canais, embora veja repetidamente os mesmos programas, distribuídos por um ou dois desses 600 canais. Tenho dentro de mim azáfama suficiente para prescindir da cidade. Se pudesse, viveria no deserto. E nem aí tenho fé de que poderia sentir-me em paz comigo e com o mundo.
4. Vejo-as passar em desengonçado equilíbrio sobre saltos altíssimos. Vão assim para o Centro Comercial, andam assim nas ruas da noite... Suponho que se descalcem quando chegam a casa. Pelo que vejo na televisão é bem provável que esteja enganado. Se calhar dormem de saltos altos nos pés para evitarem sonhos ínfimos, baixos, medíocres como a generalidade da vida real.
ABRIL
A relação que um homem tem com a sua mulher, por mais perfeita que seja, torna-se, com o tempo, tão rotineira como a que mantém com a sua cidade. Rotineira no sentido de que a atenção vai afrouxando e ele acaba por não conhecer, do objecto que lhe está próximo, mais do que certos pontos de referência. Tal como ao fim de muitos anos a morar numa cidade já não reparamos nas praças, nas avenidas, nos monumentos, excepto quando o acaso ou o dever no-los apontam (Ah, mas aqui havia árvores; oh, repara que belo edifício, etc.), também às vezes descobrimos que a nossa mulher tem seios ou olhos bonitos ou quadris tentadores. Mas são momentos esporádicos e seguramente anormais, uma vez que exigem de nós uma nova abordagem ou um novo ajuste do diafragma da nossa consciência, o que implica um esforço e, por essa mesma razão, encontra em nós resistência. É por esse motivo que a vida conjugal, quando não há filhos nem interesses comuns nem afinidades intelectuais nem, sobretudo, compatibilidades temperamentais ou sexuais, acaba por se transformar numa ficção, num companheirismo às cegas, tão fantasmagórico como o itinerário mil vezes percorrido numa cidade, em que nos limitamos a ser conduzidos pelos nossos reflexos. A mulher percebe isso e, uma vez por outra, tenta fazer-se notar através de um novo penteado, de um novo detalhe no vestuário ou de um convite para que a sigam pelo bairro não visitado e censurado do seu corpo. O homem também o percebe e impõe-se, de vez em quando, uma mudança de aparência (caso patológico do travesti). Mas os disfarces também cansam e não passam de disfarces.
Julio Ramón Ribeyro, in Prosas Apátridas, trad. Tiago Szabo, Edições Ahab, Abril de 2011, pp. 48-49.
Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
XV

Eu, François Villon, aos cinquenta e um anos
gordo e corpulento, de lábios cor de cinza
e bochechas que o vinho arroxeara,
a uma corda enforcado
sei tudo acerca do pecado.
Eu, François Villon,
de uma corda pendido
balanceio-me lento, tendo sido
pior que Judas, que também morreu enforcado.
As velhas estremecem ao ouvir as minhas façanhas
pois não tive respeito pela vida humana.
Que o vento me mova, oiço já próximas as vozes
daqueles a quem mandei pentear macacos.
Esperam-me no inferno
e esfregam as mãos
porque correu ali, do Lete(1) ao Cócito(2),
que por fim Villon tinha morrido enforcado!
E a lua aparece, e ilumina a forca
dando ao meu rosto a cor do sangue,
eu, que me fiz de mau entendedor do que fazia
até que por fim morri enforcado.
E os lobos ladram em torno do patíbulo
e, semelhantes a ratazanas, as crianças gritam:
Villon morreu enforcado!
Velhas que me insultáveis na estrada escura:
sabei que o sémen molha os meus quadris
e é fresco e saboroso o sémen do enforcado!
Que os meus dentes façam
proveito ao teu caldeirão
bruxa dos confins, tu a quem admiro
conhecedora de bruxedos, de poções e de feitiços
mais poderosos que a fé e que os apóstolos
de quem se riu Simão, o Mago(3), mais apta que eles
a conhecer a dor
deste que nem um sepulcro merece!
E que o vento, ao amanhecer, amanhã,
vaidosamente diga a rãs e a vermes
Villon tornou-se finalmente célebre
pois no fim uma forca delineia a sua figura
Villon morreu enforcado!
E que da minha mão emurchecida caia a rosa
que os meus dentes apertaram
pois ela soube os meus crimes
e foi minha confidente
e que o diga ela ao mundo, caindo ao chão
Villon morreu enforcado!
Logo virá a canalha
fossar no meu túmulo
e urinarão em cima, e certamente os amantes
farão amor sobre os meus ossos
e será o nada a minha mais simples recompensa
para que o diga,
não sei se o nada ou a rosa:
Villon morreu enforcado!
De mim saberão as crianças
de idades vindouras
como de um grande pecador
e assustadas correrão a esconder-se
debaixo dos lençóis quando as suas mães
lhes disserem: “Cuidado, vem aí.”
E essa será a fama de Villon, o Enforcado.
E será tanta a minha fama que prefiro o esquecimento
porque um dia, amanhã
desse futuro que o fedor
assemelha à memória, uma mão
deixará cair, ao ouvir o meu nome
o fruto do cu, o excremento
e a minha vida, e a minha carne, e todos os meus escritos
serão, prometo, só para as moscas!
(Leopoldo María Panero, Piedra Negra o del Temblar, XV, 1992, trad. Jorge Melícias)
(1) Na segunda parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri, o Purgatório, o Lete aparece como um rio de cujas águas os pecadores tinham de beber para apagarem a memória dos seus pecados cometidos - e já apagados pelos castigos purificadores do Purgatório - e entrarem no Céu.
(2) Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, o Cócito é um rio de gelo no 9°Círculo do inferno, onde estão os traidores. Nesse rio estão quatro esferas por onde eles se distribuem, e é inclusive a morada de Lúcifer.
(3) Simão, o Mago, também chamado de Simão de Gitta, foi um líder religioso samaritano com quem o apóstolo Pedro terá travado uma acesa polémica (At. 8, 9-24). Encontram-se referências a este personagem no livro dos Actos dos Apóstolos e noutras obras ligadas ao gnosticismo. O texto bíblico narra o episódio em que Simão tenta comprar dos apóstolos o poder de operar milagres. Tal acto, considerado pecaminoso pela teologia cristã, foi denominado de simonia (acto de Simão), termo que define especificamente o comércio ou tráfico de coisas sagradas e espirituais, tais como sacramentos, dignidades, indulgências e benefícios eclesiásticos, e que estaria no centro das críticas e discussão que conduziriam à Reforma protestante no século XVI.
Gentilmente cedido pelo tradutor.
2011
Li menos de metade dos livros que costumava ler, praticamente não fui ao teatro e ao cinema, devo ter ido a 3 ou 4 concertos. Fiz uma viagem e as férias do costume. O resto foi trabalho. A pergunta que se coloca nestas alturas é: para quê, por quem, em nome de quê e em nome de quem? Tanto desgaste, tanta noite mal dormida, tanta saturação e no fundo da cabeça, como um eco sem fim, as mesmas questões de sempre: para quê, por quem, em nome de quê e em nome de quem?
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
INDIGÊNCIA
O Taranta era a figura mais indigente da aldeia de São Cristóvão. Trajava os mesmos trapos há décadas, nunca se lhe conhecera um ofício, passava os dias a folhear revistas e jornais na mesa mais refundida do Café Central. Raramente falava. Talvez por isso ninguém se lembrava de alguma vez o ter observado no meio de uma discussão, de um briga ou de um conflito. Ideologias não se lhe conheciam, muito menos partidos, clubes ou simpatias associativas. Era um homem reservado, daqueles de quem é costume dizer-se não fazerem mal a uma mosca. Ninguém se metesse com ele, jamais ele se meteria com alguém. Tinha uma característica particular: as peladas na cabeça. Não era propriamente careca, pelo menos de um modo equilibrado, lógico, simétrico, consistente. Simplesmente tinha algumas falhas de cabelo. Outra das suas características era um conhecimento ímpar sobre tudo o que tivesse que ver com gastronomia, nomeadamente sobre restaurantes e ementas. Ninguém compreendia como podia um indigente saber tudo sobre restaurantes e ementas. Se alguém falava do restaurante A Lareira, o Taranta podia meter-se na conversa e sugerir o Fondue que ali era servido como em mais lado algum. Quisessem saber onde se podia comer um bom bacalhau assado, logo o Taranta sugeriria o bacalhau do Retiro dos Amigos. Conhecia os restaurantes das redondezas como as suas próprias mãos, conhecia as especialidades de cada um desses restaurantes, em todos provara sopas, entradas, pratos principais e sobremesas. Os petiscos eram a especialidade do Taranta, o mais indigente dos habitantes da aldeia de São Cristóvão. Meu sogro, que o conheceu bem, afiança-me que um dia chegaram a colocá-lo em contacto com uns indivíduos que andavam a inventariar os melhores restaurantes da zona Oeste. O Taranta conhecia todos, conhecia inclusive alguns que mais ninguém conhecia ou pouquíssimas almas podiam dizer ter conhecido. Conhecia tascas em aldeias recônditas onde se podia comer a melhor caldeirada do país, conhecia esplanadas com vista para o mar que serviam marisco de primeira qualidade, conhecia o que não era suposto um indigente conhecer. Tanto conhecimento motivou comentários, desconfianças, intrigas, maledicência. Não obstante, o Taranta permaneceu sempre um homem reservado e só a uma pessoa ele revelou certo dia os seus segredos. Foi numa noite de Natal de 1999, dois anos antes de ter falecido. O Taranta desafiou o Zé Petinga, a quem falecera a mulher ainda não tinham passado duas semanas, a festejarem a consoada com um polvo à lagareiro na Taberna da Dona Ilda. Era ali, segundo o Taranta, que se servia o melhor polvo à lagareiro da região. E quem paga a conta? – perguntou o Zé Petinga. Dinheiro não é problema enquanto houver cabeça. – respondeu o Taranta. Assim foi. Ei-los que chegaram, sentaram-se, pediram uns rissóis de entrada e um queijinho de cabra, acompanhados por uma garrafa de vinho tinto das Gaeiras. Esperaram pelo polvo à lagareiro, que não tardou em ser servido com o calor que a noite reclamava. Lambuzaram o pão caseiro no azeite, levaram as batatas a murro à boca, deram cabo dos tentáculos como dois lordes em banquete aristocrático. E quem paga a conta? – perguntou o Zé Petinga. Dinheiro não é problema enquanto houver cabeça. – voltou a responder o Taranta. Com a travessa de polvo já quase devorada, o indigente levou a mão à cabeça, arrancou um tufo de cabelos, espalhou-os pelo que sobrava de polvo e batatas e chamou o empregado. Olhe lá – disse o Taranta ao empregado, apontando para a travessa com ar de nojo e indignação – isto é maneira de se trazer um prato à mesa? O empregado olhou para os cabelos, levantou a travessa, curvou-se e recurvou-se em pedidos de desculpa e disse que trazia de imediato outra travessa, tendo sido prontamente interrompido pela indignação do reclamante. Desculpe, mas agora já nem tenho vontade de comer. – disse. E o empregado, o menos que podia fazer pela clientela mal servida era deixar os homens saírem em paz oferecendo a desgostosa refeição. Assim foi, assim era… com o Taranta, a mais indigente das figuras da aldeia de São Cristóvão
Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
POVO
Cliente 1: tem livros do Marcelo Gonçalo? (era o Gonçalo M. Tavares)
Cliente 2: onde estão os livros da avó Stilton? / Além do Geronimo, só temos a Tea. / Ah, pois, é da tia Stilton.
Cliente 3: é aqui que vendem cheques para trocar por livros?
Cliente 4: obriga um colega de Loures a telefonar para Caldas da Rainha porque quer saber qual o livro que mandou reservar em Caldas da Rainha.
Cliente 5: é para oferta? / É, mas não embrulhe. Ou melhor, embrulhe. (feito o embrulho) Ah, mas quero num papel que não tenha motivos de Natal. (desfeito o embrulho e embrulhado num papel diferente) Deixou talão de oferta dentro?
Cliente 6: onde estão os livros das escritoras italianas?
Cliente 7: quero um livro sobre a Guiné. Se não tiver, pode ser sobre o Sporting.
Cliente 2: onde estão os livros da avó Stilton? / Além do Geronimo, só temos a Tea. / Ah, pois, é da tia Stilton.
Cliente 3: é aqui que vendem cheques para trocar por livros?
Cliente 4: obriga um colega de Loures a telefonar para Caldas da Rainha porque quer saber qual o livro que mandou reservar em Caldas da Rainha.
Cliente 5: é para oferta? / É, mas não embrulhe. Ou melhor, embrulhe. (feito o embrulho) Ah, mas quero num papel que não tenha motivos de Natal. (desfeito o embrulho e embrulhado num papel diferente) Deixou talão de oferta dentro?
Cliente 6: onde estão os livros das escritoras italianas?
Cliente 7: quero um livro sobre a Guiné. Se não tiver, pode ser sobre o Sporting.
Cliente 8: Quero livros dos smarts. (são smurfs)
Etc., etc., etc…..
Etc., etc., etc…..
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
O LAMENTO DO VAMPIRO

Vós, todos vós, toda
essa carne que na rua
se amontoa, sois
para mim alimento,
................................todos esses olhos
cobertos de remelas, como de quem não acaba
nunca de despertar, como
olhando sem ver ou tão só pela sede
da absurda aprovação de um outro olhar,
todos vós
...............sois para mim alimento, e o espanto
profundo de ter como único espelho
esses olhos de vidro, essa névoa
em que se cruzam os mortos, esse
é o preço que pago pelos meus alimentos.
(Leopoldo María Panero, Last River Together, 1980, trad. Jorge Melícias)
Agradecido ao Jorge Melícias pela partilha.
SUPERFICIAL
Ontem lá me arrastaram para uma sessão de poesia, ou coisa parecida. Gente limpa, saudável, banal, a ler uns versos sentimentalistas que só fazem mal às árvores abatidas para que os livros possam existir. O país está cheio disto, de gente assim, de poetas, de livros e de editores sentimentais para quem a poesia é uma lágrima no canto do olho. Resisti cerca de um quarto de hora, depois fui à minha vida. Suja, vulgar, insensível.
Domingo, 18 de Dezembro de 2011
VOTOS DE SEXO FANTÁSTICO... EM KEPLER 22
Camarada Van Zeller, antes que o mundo acabe, eu me enterre e vossa excelência emigre, venho desejar-lhe um santo Natal, um próspero ano novo e votos de relações sexuais incríveis. É verdade que, tendo em conta o moralismo vigente, o incrível dificilmente excederá a missionária expedição de quem pica o ponto por dever matrimonial nas graças do Senhor. A vida não é a Casa dos Segredos, ainda que o vírus da ignorância ande deveras disseminado com tiques de pesporrência. A solução para tais desmandos foi agora encontrada pelo curandeiro dos nossos males. Não necessitaremos de corno da sorte nem de rabo de coelho bravo, basta emigrar. Emigrem os professores desempregados para onde precisam deles, emigrem para África e para o Brasil, Angola é nossa e Curitiba também, mas emigrem, já agora, os auxiliares de acção educativa, os alunos e os encarregados de educação, emigrem os médicos e os enfermeiros, emigrem os precários, inflexíveis ou de borracha, emigrem os próprios emigrantes que ainda por cá andam como quem pigarreia o destino, emigre a deputada Sofia Cabral e quem se ofende com seus decotes, emigre Euclides, junte-se à deputada e pratiquem muito sexo incrível, emigre o cardeal patriarca mais todo o seu patriarcado, com criancinhas debaixo dos saiotes e benditas estrelas luzindo no céu, emigrem todos os desempregados e levem consigo um pedaço de terra nacional, de preferência bem estrumada, para que quando Passos Coelho os visite na diáspora possa sentir-lhe o cheiro arremessado contra as trombas. É a isto que cheira o país, camarada Van Zeller, um cheiro putrefacto a insolvência que nos vai arrastando sem defesa. O ânimo que nos resta não é suficiente, mas era bem merecido que ao nariz do Passos fizessem o mesmo que à fibra óptica na A22. Sempre no ataque, Figo já se antecipou na prescrição: “Quero vender tudo o que tenho em Portugal.” É assim mesmo, resta saber se haverá comprador. Os ingleses não, por certo, que sempre prescientes avançam com planos de evacuação perante a iminência do caos. Prevê-se, assim prossiga a História, não apenas o fim do mundo para 2012. Com o fim do mundo acabará o €, a União Europeia e, com sorte, o Quinto Império. Sigamos, pois, para os novos planetas habitáveis a 600 anos luz da Terra, bem longe desta triste, cinzenta, nublosa, desinspirada e desmotivante canalha que nos governa. Deixemos o passado entregue ao César das Neves, o futuro nas mãos do Miguel Relvas e partamos sem glória mas cheios de vontade atiçados pelo decote da deputada socialista e inspirados pelas mensagens do comandante Euclides. Em Kepler 22 a vida será diferente, não teremos sobre os ombros a cruz da bancarrota nem a perseguir-nos o minimalismo monocórdico do ministro das finanças, nem a politiquice de sucata que há décadas nos corrói, nem a intrujice pseudocultural que singra no poder, nem fados de mãos nos bolsos, nem sacos azuis, nem pontes aéreas para Cabo Verde, nem estripadores na reforma, nem cardiais néscios, nem nada que nos faça pensar o quão deprimente é nascer-se português.
Sábado, 17 de Dezembro de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #38
Aderi a um grupo do Facebook onde é suposto escolhermos imagens relacionadas com um tema específico. O tema é sugerido pelos mentores do grupo. Esta semana — que ameaça terminar sem que tivéssemos sequer dado pelo começo — o tema foi Vícios. Podia escolher este álbum de Elvis Costello para ilustrar os meus vícios, todos eles. North apareceu em 2003, mais de 25 anos após a estreia a solo do singer/songwriter britânico. O tempo fez-lhe o que faz às pessoas normais, empurrou-o de uma atitude punk para o fosso das almas apaixonadas. As canções de North evocam relações amorosas complexas, sonhos desfeitos, corações despedaçados, alguma esperança ao fundo de um túnel nostálgico e melancólico. Têm aquele sentimentalismo cinzento dos grandes escritores de canções e caminham por vielas jazzísticas em registo quase minimalista, por vezes acompanhadas por arranjos de cordas românticos, como quem anda à chuva sem se molhar. Algumas letras desarmam-nos com a sua simplicidade. Eis um exemplo:
WHEN DID I STOP DREAMING?
You appeared when I was lost in reverie
If this is not a dream, it’s my mistake
And now I lie in wait for dawn to break
I’m fairly sure I’m wide awake
Pardon me, if I seem distant and strange
Just tell me when did I stop dreaming?
Let me get this straight
Did I hallucinate?
This fine and helpless feeling
Tell me when did I stop dreaming?
(…)
São apenas duas estrofes de cinco que marcam o ritmo comum a todo o álbum, canções declaradamente de amor onde os violoncelos perseguem o piano como a sombra persegue a carne. O ambiente geral pode evocar os musicais norte-americanos, as baladas de George Gershwin ou mesmo a simplicidade do chamado easy listening, mas logram amiúde um dramatismo muito mais complexo (escute-se atentamente uma canção como Can You be True?). Digamos que nos comovem e convencem pela sua inquestionável cultura clássica, em arranjos modernos que provam ser universal e intemporal a matéria do coração. A um amor segue-se outro amor, a este amor segue-se a vida, à vida segue-se a morte. Perduram as canções, os poemas, as imagens que a memória vai retendo nas redes do esquecimento. E o último tema (ou quase) é luminoso, deveras luminoso: I'm In the Mood Again...
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
PAIXÃO
Hoje morreu um homem aqui perto de casa. Não sei como morreu, só sei que estava estendido no chão quando cheguei para almoçar. O homem estava rodeado de gente, na estrada que liga a rotunda da fonte luminosa à rotunda do CENCAL. Os carros que passavam para baixo abrandavam com o aparato, os que passavam para cima faziam o mesmo. Eu senti-me algo indiferente perante o sucedido, só pensava na minha nova paixão. Estou apaixonado por uma miúda com metade da minha idade. Tem precisamente 18 anos e ½. Não sei porque me apaixonei por ela, nem tento arranjar explicações para o sucedido. Limito-me a pensar como eu era quando tinha aquela idade, e concluo que seriam muito curtas as possibilidades de me apaixonar por uma mulher com 37 anos. Quando tinha 18 anos e ½ andava no 2º ou 3º ano da faculdade. Talvez no 3º, com algumas cadeiras em atraso. Frequentava assiduamente o Bairro Alto, ia a todos os concertos de jazz, esforçava-me por não perder uma exposição. Gastava a mesada em filmes e CDs e livros, não queria saber de miúdas, muito menos de mulheres com 37 anos. Passava grande parte do meu tempo a ler autores renascentistas nos jardins da Gulbenkian e escrevia poemas que deitava directamente para o lixo. De vez em quando também escrevia canções, mas como me faltava voz para cantá-las ficava-me por assobiar melodias à guitarra. Uma vez, é um facto, conheci uma rapariga mais ou menos da minha idade. Chegámos a estar deitados na alcatifa do apartamento em Chelas, onde então eu residia, a ouvir canções do Jacques Brel, do Léo Ferré, do Georges Moustaki e do Serge Gainsbourg, mas ela gostava mais dos Eurythmics. Uma vez escrevi-lhe um poema claramente decalcado de uns versos de Carlos Drummond de Andrade. Não me pareceu que tivesse gostado, disse-me que lhe faziam lembrar os tigres enjaulados do Jardim Zoológico. Ainda pensei levá-la ao cinema ou ao teatro, pagar-lhe o jantar num restaurante indiano, tentar arrancar-lhe um beijo com o Tejo em cenário de fundo, tudo pretextos para disfarçar o enorme tédio que ela me provocava e eu não conseguia compreender. Afastámo-nos naturalmente, como acontece nestas situações. Nunca mais ouvi falar dela, não sei onde anda, para onde foi, até podia ser o corpo morto que estava hoje estendido à beira da estrada quando vim almoçar. Não sei nem quero saber. Só sei que estou apaixonado por uma miúda com metade da minha idade de quem nem sequer sei o nome. Vejo-a passar todos os dias, perto do local onde trabalho, enrolado num cachecol e com os olhos metidos onde eu sempre andei, num vazio sem fundo. Às vezes penso que olha para mim, embora saiba perfeitamente que não olha para lado algum, olha apenas para os seus próprios pensamentos, ou nem sequer para os seus pensamentos olha, olha para o silêncio, olha para dentro da solidão, assim creio, uma paisagem despovoada, deserta, sem medos nem traumas nem ilusões. E eu olho para ela e fico a pensar como seria bom poder dar-lhe a ouvir as canções do Jacques Brel, do Léo Ferré, do Georges Moustaki e do Serge Gainsbourg, servir-lhe um chá de lima com torradas de pão caseiro, partilhar um pacote de bolinhos secos à luz dos Morangos Silvestres. Talvez lhe lesse um poema ou dois, talvez lhe metesse as mãos no cabelo e a convidasse para um passeio na Foz. Mas agora tenho que regressar ao trabalho. O corpo morto continua estendido no chão, rodeado de gente, os carros que passam para baixo abrandam perante o aparato e os que passam para cima fazem o mesmo. Ainda não se ouvem sirenes, chove ligeiramente, está uma temperatura amena para a época. As pessoas parecem-me algo tépidas, eu estou apaixonado por uma miúda com metade da minha idade. Não sei como se chama, só sei que tem 18 anos e ½.
Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
CLÁSSICOS
De vez em quando calha trocar umas palavras com algumas dessas pessoas consideradas importantes no nosso tecido social. Como é óbvio, a importância social dos indivíduos é relativa e está, quase sempre, associada ao grau de influência que podem exercer em função do estatuto que ocupam. Neste sentido, posso dizer que esta pessoa era consideravelmente importante. E falava-me dos clássicos. Clássicos para aqui, clássicos para acolá, que já ninguém lê os clássicos, que os clássicos andam esquecidos, a lamúria do costume. Acompanhando a dissertação, um nome soltado à esquerda, outro à direita e assim sucessivamente. No final esbocei uma tristeza derrotada. Tenho um azar inultrapassável. Sempre que me falam de clássicos preparo-me para um brilharete, mas logo constato que os meus clássicos não são os clássicos dos demais. E calo-me, reduzo-me à minha insignificância, regresso a casa a resmungar de mim para comigo: já ninguém lê os meus clássicos, este mundo anda perdido.
CONFLITOS GERACIONAIS
Nunca consegui compreender os conflitos geracionais. Ou talvez compreenda. O que não compreendo é a facilidade com que, por vezes, se atribui a esta ou àquela geração os males do mundo, como se os males não fossem do mundo e fossem apenas de alguns. Penso tratar-se de questão de bom senso, até porque já Sócrates se queixava da juventude do seu tempo, atribuir à humanidade a categoria da cretinice, guardando para as gerações apenas o qualificativo de uma entediante previsibilidade.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #37
Ainda que descrentes, por voluntária indiferença, não podemos negar a dimensão espiritual dos homens. Costumo dizer que o dia mais feliz da minha vida seria aquele em que aterrasse sobre a terra uma nave cheia de extraterrestres. Mantenho essa esperança, embora não faça disso religião. Presumo que possa ser dado o nome de fé a este tipo de sentimento, que, na realidade, não é bem um sentimento, fica algures entre a vontade, ou mesmo o desejo, e a nostalgia de um futuro improvável. Talvez utopia, uma outra forma de fé. Os Dead Can Dance são, desde há muito, a expressão desta fé no imo das minhas afinidades melómanas. Como é costume dizer-se, tenho tudo deles. Into the Labyrinth (1993) deve ter sido o primeiro CD, para trás fui coleccionando os vinis. Transportam-me para tempos imemoriais, com uma música de conversões insuspeitas onde o étnico se cruza com o clássico, a idade média com a tradição, a tecnologia e a pop de inclinações góticas com o sopro espectral de paisagens exóticas. O termo transportar não é aqui evocado ingenuamente. Como as águas de um rio, ou um vento de intensidade intermitente, a música dos Dead Can Dance tem essa capacidade de nos fazer viajar no tempo e no espaço, colocando-nos em contacto com ritmos primitivos em paisagens actuais. Provavelmente inspirados por cultos esotéricos, sociedades secretas e tribos remotas, Brendan Perry e Lisa Gerrard (uma das grandes vozes femininas de sempre) recolheram-se em contemplativa criação e ofereceram-nos um monumento inclassificável neste álbum. Agora que a ele regresso, lembro-me de um poema de Rabindranath Tagore:
TU E EU
Tu enches os meus pensamentos
Dia após dia;
Saúdo-te na solidão
Fora do mundo;
Tu tomaste posse
Da minha vida e da minha morte.
Como o sol ao nascer
A minha alma contempla-te
Com um único olhar.
És como o alto céu,
Eu sou como o mar infinito
Com a lua cheia no meio;
Estás sempre em paz,
Eu estou sempre inquieto,
Embora no horizonte distante
Nos encontremos sempre.
Rabindranath Tagore, in Poesia, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Junho de 2004, p. 142..
O FIM DO EURO
A possibilidade do fim do euro chateia-me. Tive uma trabalheira danada a trocar os escudos que nunca tive pelos euros que não tenho e agora vou ter de trocar os euros que não tenho pelos escudos que nunca terei? É inadmissível.
Domingo, 11 de Dezembro de 2011
CAPADÓCIO
Pateta, palerma, ingénuo ou indivíduo que se dá ares de importância nos modos e nas falas para enganar os outros; espertalhão; o que de noite toca e canta sob a janela da namorada; canalha; segundo a terminologia popular brasileira, o indivíduo que entra em passeatas e descantes nocturnos e também é contador de histórias (Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, por A. J. de Macedo Morais, 1.º vol. p. 103, Rio de Janeiro, 1954). Note-se que na Paraíba se dá o nome de capadócio ao bezerro ou novilho capado. Etim., parece vir de Cappadocius, povo que não gozava de boa reputação entre os Gregos.
PEIXE PODRE
Na política e na literatura, somos um país de pequenos varas. A memória é curta, a adulação faz milagres, o carácter tem o preço de meia dúzia de robalos. À beira mar plantado, este país fede a peixe podre.
A EQUIPA DE REPORTAGEM
Estamos diante de um criminoso que tem a cabeça baixa, não levanta os olhos sequer para o pai que já lhe deu um estalo e ainda vai dar mais e muitos e com força porque o menino não se pode comportar assim, não se faz isso — e aqui vai, agora, bem à frente da câmara de filmar, um forte estalo que põe em sentido a cara do menino que tem dez anos e a vida é assim, começa por este lado muitas vezes — outras vezes não —, mas não estamos aqui para filmar os bonzinhos, viemos da floresta negra, com toda a equipa de reportagem, com as câmaras atrás, viemos de um sítio longínquo, não para filmar a bondade, para isso filmávamos logo da nossa janela, viemos de longe porque ouvimos dizer que nesta aldeia as pessoas são tão diferentes que até fazem isto, assim, sem qualquer pudor, à frente das câmaras. De qualquer maneira, a primeira filmagem não ficou boa, por uma qualquer questão técnica, por isso é necessário repetir — e sim, o pai diz que sim, que não se importa de repetir, aliás, há anos que não faz outra coisa senão repetir, mesmo quando longe das câmaras — por isso ali vai ele de novo ser mau, muito mau, que mau que ele é para o seu filhote. E o rapaz mantém a cabeça baixa — faz tudo isto sem representar — e só levanta a cabeça, que dócil que ele é, para apanhar um violento estalo do pai (que forte este é). E, assim, feitas as coisas que têm de ser feitas, aquele sangue parece justificar-se — e o menino, quando crescer, fará certamente o suficiente para merecer a atenção que agora o seu pai recebe — e é só mesmo nisto que pensa o menino.
Gonçalo M. Tavares, in Short Movies, Caminho, Novembro de 2011, pp. 137-138.
VOLTA AO MUNDO EM POESIA: LUXEMBURGO
ARTE POÉTICA
“Le silence est notre langue maternelle”
Samuel Beckett
A poesia esburaca o tecido da linguagem.
A escrita deserta perpetuamente do seu espaço.
Cada palavra que escolhemos é a renúncia de outra
que nos teria escolhido.
A verdade é apenas uma partilha de ilusões.
Há fronteiras interditas ao homem, há lugares
onde a vida e a morte trocam os seus atributos.
Homem-ponte, passo de uma memória a outra.
E se Deus fosse a sua própria vítima?
O homem criou o tempo para justificar a sua presença.
Para justificar a sua ausência, criou a eternidade.
Deus existe fora do esquecimento, fora da memória,
mas a ambos atravessa.
O silêncio é o encontro que a palavra recusa.
Quanto mais se ama, mais a gravitação diminui.
Anise Koltz, in Cantos de Recusa, trad. Colectiva revista por Casimiro de Brito, Quetzal, 1994, p. 11.
MANTRA
Saramago tinha 63 anos quando conheceu Pilar. Casaram-se e foram felizes para sempre. Manoel de Oliveira faz hoje 103 anos. Casou-se com Maria Isabel Brandão de Meneses de Almeida Carvalhais em 1940. Tiveram 4 filhos. Ambos geniais, têm histórias de amor diversas. O que prova, mais uma vez, que o amor é meramente contingencial. Quanto a isto, a única coisa que sabemos é que não há amor onde há sacrifício. Onde há sacrifício há sacrifício. Há a obrigação e o dever que transformam o amor numa fachada e o varrem para debaixo do tapete onde encontraremos imensas histórias de vida, mas nenhum génio.
Sábado, 10 de Dezembro de 2011
SESSÃO DE AUTÓGRAFOS
Para o Gonçalo M. Tavares
Um escritor prepara-se para uma sessão de autógrafos numa livraria. Os seus livros estão expostos numa mesa comprida e larga. Não todos, porque o escritor escreveu muitos. Uma mesa, por mais larga e comprida que fosse, não seria suficiente para expor todos os seus livros.
Numa mesa ao lado, muito mais pequena, o escritor dará os seus autógrafos, desenhará as suas dedicatórias, sentado numa cadeira colocada entre a mesa e uma estante. O escritor ora se levanta, para falar com os leitores, ora se senta, para dar mais um autógrafo.
A dado momento, pede que a mesa pequena seja um pouco afastada. O escritor sente-se desconfortável, apertado entre uma mesa exígua e uma estante carregada com livros. Parece não caber naquele espaço tão curto que lhe foi reservado, muito mais curto do que o espaço que reservaram para os seus livros. Se o escritor não tivesse pernas, caberia perfeitamente naquele espaço.
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
VIDA E MORTE DE TOMÁS PINTO BRANDÃO, ESCRITA POR ELE MESMO SEMIVIVO
Epitáfio segundo
Caminhante que vais tão de corrida,
Pois em nada reparas da jornada,
Repara por tua vida no meu nada
Que foi toda uma morte a minha vida.
Também no mundo andei muita partida,
Posto que em diligência mal parada;
E por não ser mentira incorporada,
Uma verdade sou desvanecida.
Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido, sem ter nome,
E eu, ingrato, morri sem Benefício.
Exemplo toma em mim, ó pobre Homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome.
Tomás Pinto Brandão (n. 1664)
Caminhante que vais tão de corrida,
Pois em nada reparas da jornada,
Repara por tua vida no meu nada
Que foi toda uma morte a minha vida.
Também no mundo andei muita partida,
Posto que em diligência mal parada;
E por não ser mentira incorporada,
Uma verdade sou desvanecida.
Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido, sem ter nome,
E eu, ingrato, morri sem Benefício.
Exemplo toma em mim, ó pobre Homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome.
Tomás Pinto Brandão (n. 1664)
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
BROCHE
Os poetas têm vindo a permitir que a poesia caia no ridículo do acessório. É pregadeira, nota de rodapé, broche, enfeite, preliminar, epígrafe. Fica bem um poema aqui, um poema acolá, como artigo decorativo. Qualquer dia dão poemas para papel de rolo higiénico, onde toda a gente poderá limpar o cu. E assim lograrão os versos utilidade e pertinência.
Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
XENÓCRATES & LAIS
Os discípulos de Xenócrates, a fim de pôr à prova a sua continência, meteram-lhe na cama Lais, a bela e formosa cortesã, completamente nua, …e ele, sentindo que, apesar dos seus discursos e da suas regras, o corpo, refractário, começava a revoltar-se, ordenou que lhe queimassem os membros que deram ouvidos à rebelião.
Montaigne, in Pequeno Vade-Mécum, Antígona, Março de 2004.
A poesia desenha-nos um mundo sem tempo nem espaço, é isso que a torna especial enquanto arte da palavra. No entanto, a universalidade do cantado esgota-se na peculiaridade da língua. Faço parte do clube daqueles que crêem na impossibilidade de traduzir um poema, preferindo o termo versão por remeter para uma nova musicalidade daquilo que o poema exprime. Podemos pensar a utilidade do inútil no campo desta batalha. O tradutor de poesia encontra-se num não-lugar, fora do tempo, sem coordenadas que lhe permitam trazer ao presente os ecos do passado. Fruto do seu tempo, o poema traduzido será contaminado, inevitavelmente, pelos ritmos de uma nova época. À época do poema podemos chamar língua. Imaginem por hipótese um poema escrito em inglês que é mudado, assim que foi escrito, para português. Esta mudança representa uma viagem no tempo, pois a época em que a língua inglesa se regista é de todo diferente da época em que a língua portuguesa se afirma. O lugar em que vivemos é o tempo em que nos construímos.
O problema faz-me pensar na relação absurda que a maioria das pessoas tem com a novidade. Para a maioria das pessoas a novidade garante-lhes uma actualização, como se fosse possível actualizar aquilo que nunca deixou de ser actual. A propósito de modas, Gilles Lipovetsky afirmava, em meados da década de 1980, algo que me parece indiscutível: «Com o individualismo moderno, o Novo encontra a sua plena consagração: por ocasião de cada moda, há um sentimento, por muito ténue que seja, de libertação subjectiva, de alforria dos hábitos passados. Com cada novidade, sacode-se uma inércia, corre uma aragem, fonte de descoberta, de posicionamento e de disponibilidade subjectiva» (in O Império do Efémero, p. 246). Porém, em tempos de ritmo vertiginoso, o novo rapidamente se faz velho. A máquina consumista que se instalou por detrás da novidade, anunciando-a como elemento imprescindível à nossa felicidade, senão à nossa sobrevivência, resgata o indivíduo da sua rede individualista, transformando-o em apenas mais um alvo de um público vasto e indistinguível.
Neste aspecto, o individualismo cede à tentação e transforma o indivíduo num clone social com comportamentos previsíveis e atitudes facilmente determináveis. Na linha da frente, as novidades são a ratoeira do consumidor previsível, tentam satisfazer-lhe uma voracidade ridícula, abrem-lhe o caminho para uma dissimulada vulgaridade. Ele não percebe, tão refém que está do que a imprensa lhe atira aos olhos. Em segunda linha, tudo o que tenha seis meses já não é novo. E um ano é velhice de armazém. Os produtos desactualizam-se com uma facilidade estonteante, os homens procuram acompanhar as novas tendências, estar in, responder às exigências da contemporaneidade. Curioso que seja um autor de armazém, um velho ressequido do século XVI, a lembrar-nos a armadilha em que caímos, tornando evidente a estupidificação das massas a partir dessa purga anunciada como novidade: «Um bom testemunho da fraqueza do nosso discernimento consiste no facto de ele recomendar coisas pela sua raridade ou novidade, ou ainda pela sua dificuldade, não associando estas à beleza e à utilidade» (Montaigne).
O parco discernimento dos homens facilita a educação da humanidade, cabendo à poesia, na medida das suas limitadas capacidades, deseducá-la. A poesia reduz o novo a pó, ao mesmo tempo que do pó gera rebentos de extrema vitalidade. Nesse não-lugar, sem tempo nem espaço, o conceito de novidade vale tanto como sapatos de salto alto em pleno deserto. Os prazos estendem-se para lá das medidas, acompanham a terra na sua expansão e os ventos na disseminação dos pólenes. A novidade, neste mundo sem tempo nem espaço, é a versão do universal, uma contínua regeneração do essencial, dos mesmos sentimentos, das mesmas angústias, dos mesmos medos, traumas, frustrações de sempre. Pode a língua transformar-se, sulcando na terra os vocábulos em ritmo e metodologia diversos. As mesmas raízes darão os mesmos frutos, apenas a assimilação do suco poderá ser diferente. Porque essa está dependente do maior ou menor discernimento dos indivíduos.
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
O JUÍZO DOS MELHORES
Directamente de Madrid, o Mário Galego sugere-me a entrevista de Nicanor Parra ao El País (suplemento Babelia) a propósito da edição do II volume das Obras Completas & algo +, com prefácio de Harold Bloom, e da atribuição do Prémio Cervantes. Fica a nota:
− Acabo de descubrir en mi biblioteca un libro que se llama El libro del desasosiego.
− De Pessoa.
− Ya no corre. Esse chiste de los heterónimos. Ya, compadre, ya. Tiene un poema que es insuperable. Dice: “Todas las cartas de amor son ridículas. Si no fueren ridículas no serían cartas de amor”. Y sigue, “yo también en mi tiempo escribí cartas de amor, como las otras, ridículas”. Mire usted las volteretas que se da. Como esas poetisas argentinas. La Maria Elena… la Maria Elena…
− Walsh?
− Claaaro. A ver, hay otras.
− Alejandra Pizarnik?
− Ah, la Pizarnik. Fantástica.
− Acabo de descubrir en mi biblioteca un libro que se llama El libro del desasosiego.
− De Pessoa.
− Ya no corre. Esse chiste de los heterónimos. Ya, compadre, ya. Tiene un poema que es insuperable. Dice: “Todas las cartas de amor son ridículas. Si no fueren ridículas no serían cartas de amor”. Y sigue, “yo también en mi tiempo escribí cartas de amor, como las otras, ridículas”. Mire usted las volteretas que se da. Como esas poetisas argentinas. La Maria Elena… la Maria Elena…
− Walsh?
− Claaaro. A ver, hay otras.
− Alejandra Pizarnik?
− Ah, la Pizarnik. Fantástica.
JUÍZO
Cada vez aprecio mais os clássicos. Perante tal constatação, a minha parte cínica sugere que a culpa é dos contemporâneos, mas a parte romântica afirma ser a idade a grande responsável. Entre as duas partes, num estranho equilíbrio, o gosto embandeira o juízo.
OLHA A COR DE TEU FADO
No abismo tragador da Humanidade
(Dela, dela não só, de quanto existe)
Co'a mesma rapidez, Elmano, ah! viste
Sumir-se a florescente e murcha idade.
Olha em muros, que veste a escuridade,
Olha a cor de teu Fado, a cor mais triste:
Talvez (e agora!... agora!...) ele te aliste
No volume em que lê a Eternidade!
Ó tochas funerais! Clarão medonho!
Da morte, ó mudas, solitárias cenas!
Em vós arrepiado os olhos ponho!...
Ah!, porque tremes, louco? Ah!, porque penas?
Sonhas num ermo, e surgirás do sonho
Em climas de oiro, em regiões amenas.
Manuel Maria Barbosa du Bocage (n. 1765)
(Dela, dela não só, de quanto existe)
Co'a mesma rapidez, Elmano, ah! viste
Sumir-se a florescente e murcha idade.
Olha em muros, que veste a escuridade,
Olha a cor de teu Fado, a cor mais triste:
Talvez (e agora!... agora!...) ele te aliste
No volume em que lê a Eternidade!
Ó tochas funerais! Clarão medonho!
Da morte, ó mudas, solitárias cenas!
Em vós arrepiado os olhos ponho!...
Ah!, porque tremes, louco? Ah!, porque penas?
Sonhas num ermo, e surgirás do sonho
Em climas de oiro, em regiões amenas.
Manuel Maria Barbosa du Bocage (n. 1765)
Domingo, 4 de Dezembro de 2011
LIVRARIAS EM TEMPOS FAST
Na passada sexta-feira, descalcei as pantufas e fui à apresentação do livro Sei Onde Mora o Herberto Helder, uma de muitas acções programadas para a feira do livro organizada pelo Projecto Olha-te. Na mesa estavam Zita Seabra, Manuel Monteiro, autor do livro e alfarrabista de profissão, e Célia Antunes, do Projecto Olha-te. Gerou-se uma tertúlia agradável em torno do livro e do caótico mundo editorial português. Entre várias histórias, Monteiro contou que foi à FNAC de Alfragide e não tinham o livro dele disponível. Que vários amigos dele foram ao mesmo estabelecimento solicitar o livro e que a resposta foi invariavelmente a mesma: se quiser, encomendamos. Zita Seabra aproveitou a deixa para dali retirar uma série de conclusões sobre o declínio da modernidade. Falou-se, mais uma vez, da 107 e do fecho da 107 e que o fecho da 107 era um sinal da decadência que grassa neste país desgraçado. Não concordo nem discordo, mas tenho uma história semelhante à de Manuel Monteiro passada, não na FNAC de Alfragide, mas na 107 de Caldas da Rainha. Uma das minhas irmãs quis em tempos comprar um exemplar das Estórias Domésticas, um livro que publiquei em 2006. Disse-lhe que o podia fazer na 107 e ela lá foi, sem sucesso. Disseram-lhe que não tinham o livro. Estranhei a resposta e desloquei-me eu próprio à livraria, onde perguntei pelo livro olhando-o arrumado numa estante. A resposta manteve-se, que não tinham o livro mas que podiam encomendar. Estas situações podem acontecer em qualquer livraria e não são definidoras de absolutamente nada. São apenas exemplos algo caricatos num universo muito mais complexo de competências e qualificações varáveis e relativas. Fui muitas vezes a livrarias ditas tradicionais para sair de lá com a mesma resposta que o Manuel Monteiro levou da FNAC de Alfragide, a mesmíssima resposta que muitas vezes me vejo obrigado a dar aos meus clientes. Durante a semana que passou, não foi sem custo que tive de dizer a um cliente que não tinha disponível nenhum livro do José Rodrigues Miguéis (à excepção da correspondência com Saramago). Num país onde se publicam 55 títulos novos por dia, ou mais, se um autor não for condignamente reeditado com frequência perde espaço nas livrarias, até porque as livrarias não são bibliotecas nem depósitos de livros parados. As livrarias são espaços onde se vendem livros. Se fecham as portas é porque as pessoas não vão lá comprar livros. Depois não vale a pena perderem tempo com lamúrias, as quais exalarão sempre um insuportável aroma a hipocrisia.
Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011
MONTAIGNE
Tenho uma altura um pouco abaixo da média. Este defeito não representa apenas fealdade, mas também uma incomodidade, sobretudo para aqueles que têm comandos e cargos. Com efeito, falta-lhes a autoridade que uma boa presença e majestade corporal conferem... É muito aborrecido que se dirijam a nós no meio dos nossos criados a perguntar onde está o patrão, e que tenhamos apenas direito a um resquício da saudação feita ao nosso barbeiro ou ao nosso secretário (...). Entretanto, tenho uma constituição forte e rechonchuda; o rosto não é gordo, mas cheio; o meu temperamento é entre o jovial e o melancólico, razoavelmente sanguíneo e ardente,
Unde rigent setis mihi crura, et pectora villis (1),
a saúde sempre foi forte e alegre, até uma idade avançada da minha vida.
(1) «Daí as minhas pernas cheias de pêlos e o meu peito cabeludo.» (Marcial)
Montaigne (n. 1533)
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 34/35/36
Só o saber-te aí, meu bem, é suficiente para que me não perca pelo caminho − disse o viajante à sombra, já sem bússola nem mapa. Carregado de livros, foi caminhando com Homero às costas, a Utopia, Cândido, talvez, mas mais que todos Fernão Mendes Pinto (n. 1509?), o viajante dos viajantes portugueses que cedo fugiu em direcção ao Oriente na companhia de piratas, registando o que viveu e o que sonhou, relatando o que viu e o que imaginou na sua Peregrinação. Sobre a obra disse Óscar Lopes que algumas das suas histórias «equiparam-se a pequenas novelas, ou short stories, dignas de figurar numa antologia universal». Universal é a antologia dos esquecidos. Pelos dias que correm ninguém lê a Peregrinação. Estranho que em tempos de renovada diáspora assim seja, até porque essa coisa da actualidade é um pião em eterno rodopio. Já em pleno século XX, à entrada dos oitentas, Fausto resolveu começar a cantar o Fernão Mendes numa trilogia que agora, em 2011, se completa. Começou Por Este Rio Acima (gravado em 1982), dose dupla de ritmos populares festivos, entre a percussão de toque indiano, o remoinho de um fandango e baladas trágico-marítimas. Os dedilhados de Fausto, suportados por arranjos exigentes, não raras vezes inclinados para a sinfonia, despenteiam a cabeleira dos nervos, metem-nos a pensar nos versos, hiperbolizam-nos, se assim podemos dizer, fazem justiça à linguagem picaresca do inspirador. Como nas páginas do mestre, a vagabundagem é experiência de guerras e de saudade, territórios inóspitos atravessados pelo espanto dos aventureiros. Prosseguiu a festa com Crónicas da Terra Ardente (gravado em 1994). Ainda a nostalgia de quem olha o mar e pensa nos regressos sem partida que a vida foi fazendo seus. Navegantes sentindo, enfim, o vento no rosto, enquanto os mastros cortam os céus nevoeiro adentro e o desconhecido aparece com o rosto de uma esperança desconfiada. É a história dos náufragos, amantes amordaçados pela distância, paixões consoladas no berço das bestas, «um universo onde as multidões são inumeráveis e às vezes se massacram em tumultos». Aportamos, por fim, Em Busca das Montanhas Azuis. África é agora a terra pisada pelo peso de um mesmo sentimento: busca. Procuram os homens a riqueza, procuram sobreviver, procuram paz dando corda a guerras sangrentas, procuram o amor gerando ódio, procuram um como não deixar de procurar. Embalados pelas teclas do piano, procuramos nós a montanha onde repousar o espírito. A raiz mantém-se tradicional, mas os arranjos inflectem no sentido de uma modernidade que nos cabe sentir indígenas perante as primeiras caravelas. Literatura de viagens, música de viagens. No seu todo, esta trilogia mantém uma exigência que deve ser festejada, sobretudo nos reinados em que vivemos já não apenas guiados pelo carácter efémero dos sucessos imediatos, mas por uma angustiante superficialidade. Ao terceiro e derradeiro tomo, Fausto pede-nos maior atenção aos pormenores, põe-nos a ler a história com uma cartografia muito pessoal dos descobrimentos, recriada a partir de estóica pesquisa literária. Alguns ritmos africanos intrometem-se, inevitavelmente, mas de modo discreto, para fazer dançar o corpo enquanto a memória se abraça à imaginação e desenha cenários, paisagens, panorâmicas, ambientes ora acolhedores, ora adversos. A História dos povos contada a partir da História dos portugueses. Camões não se envergonharia.
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