sábado, 29 de dezembro de 2012

COMBOIO DAS CINCO

 
Luís Afonso (1965) é um conhecido cartunista português cujo talento pode ser facilmente comprovado, por exemplo, nas páginas do Público. Recentemente, a editora Abysmo publicou-lhe O Comboio das Cinco (Outubro de 2012). Não é um livro de cartoons, embora o género esteja presente à laia de separadores que acompanham uma novela dividida em seis capítulos. Cada capítulo corresponde a uma cena no argumento de um filme que o escritor pós-moderno Lopes tenta escrever. Partindo do princípio amplamente reiterado de que os livros são sempre melhores do que os filmes, Lopes entrega o seu livro, ainda por escrever, ao realizador do filme que o adaptará. A ideia pode parecer algo rebuscada, mas revela uma indubitável argúcia nos métodos do escritor pós-moderno: fazer um filme baseado num livro que será influenciado pelo filme. Sentimo-nos tentados a parafrasear o realizador a quem Lopes entrega o seu livro inacabado, afirmando que há aqui muita coisa por analisar. A primeira coisa que nos vem à tona, sem pretensões hermenêuticas escusadas, é a de que este "pretexto diegético" introduz-nos no muito português universo da chico-espertice. De resto, o ambiente conjugal que caracteriza a primeira cena pode muito bem ser lido como uma parábola introdutória da relação que os portugueses mantêm com a pátria. Fugir, nem que seja para Espanha, é solução que não está fora de questão, fugir de um país onde os neologistas se revoltam contra acordos ortográficos num arrobo nacionalista que nunca penalizou o mau uso da língua; fugir deste clima onde todos são maus, horríveis, péssimos, excepto nós próprios e quem nos ouve dizer que todos são maus, horríveis, péssimos; fugir de uma sociedade que se despreza e maltrata diariamente, mas não suporta ver-se acusada do que diz de si própria por quem a olha do outro lado da fronteira. Mas isto sou eu em pleno delírio, armado em escritor pós-moderno, sem indicadores de qualidade literária nas margens do post (ou deverei dizer entrada?). O livro de Luís Afonso não é sobre nada disto, é uma mera paródia a um país com gente parada numa estação onde jamais chegará o comboio por quem todos esperam. Chame-se Dom Sebastião ao comboio e temos aqui uma versão pós-moderna do messianismo português, com alguns desvios nada inocentes como o facto de toda a gente fazer de conta muito a sério que o comboio chegará e que a estação funciona. País do faz de conta, talvez, estação do faz de conta,  quem sabe, mas de um faz de conta que se leva suficientemente a sério para que todos os actores possam negar a si próprios a condição de actores. Como o putativo suicida que se deita na linha do comboio sabendo que ali não passará comboio algum. O que importa, afinal, é a intenção. O logro não advém da mentira, como nos prova o recente caso do presumível burlão Artur Baptista da Silva. O logro advém da verdade não ter a sustentá-la os pergaminhos que a tornam credível. Ou seja, o pregão nunca é tão valoroso quanto o pregador. Por isso tão facilmente resvalamos, neste país de faz de conta, numa espécie de esquizofrenia atrofiante que nos inviabiliza toda e qualquer compreensão da realidade. Porque a realidade já se confunde de tal modo com a aparência que a aparência ameaça tornar-se na única realidade. Paradigma da esquizofrenia é a cena IV d'O Comboio das Cinco, onde o presidente de um clube entra em conflito com o presidente da Junta de Freguesia local por causa da cedência de terrenos. Tudo muito banal não se desse o caso de ambos, presidente do clube e presidente da Junta, serem uma e a mesma pessoa. A dimensão hilariante deste conflito pode muito bem servir de exemplo, neste país ziguezagueante onde toda a gente conhece toda a gente sem que ninguém se conheça a si próprio. E esse talvez seja o verdadeiro problema de quem espera pelo comboio das cinco: saber que ele não vem e, no entanto, continuar à espera. Como se nada fosse.

1 comentário:

Leonel Auxiliar disse...

Realmente, Luís Afonso está, com Lopes, no seu melhor. Mas o texto desta entrada é explicitamente bom. O próprio Lopes gostaria, como pós-moderno.