sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

PROJECTO ANDRESA



Camarada Van Zeller, tenho uma meta para 2013: viver com a Andresa Salgueiro. Não, camarada, não há aqui nenhum equívoco. Eu quero mesmo dizer viver com a Andresa. Não é como, é com. Para tal, conto ir até Marrocos dar a minha mulher para troca. Basta-me um camelo para a viagem de regresso. Pelo caminho, deixo as filhas numa qualquer instituição católica. Estou certo de que carecem de criancinhas frescas como o estômago do Passos Coelho carece de vegetais. Depois, juntar-me-ei à Andresa no projecto Believe. Podia ser Acreditar, mas em inglês a coisa fica mais internacional. Com sorte, chegaremos à Serra Leoa com estas ideias fantásticas. Se não chegarmos à Serra Leoa, talvez cheguemos a Marrocos (onde a minha mulher estará, rodeada de camelos). Quem diz Believe diz Croire. O que interessa é chegarmos lá fora, patentearmos a ideia, faremos do terceiro mundo o nosso porto de abrigo. Descobri neste início de ano que há em mim um profundo desejo de mudança. Já deixei de fumar, comecei a correr e comprei o livro de receitas do Pedro Passos Coelho. O Jamie Oliver que se amanhe, com as receitas do Passos Coelho e uma alimentação saudável, à base de sementes, a felicidade sorrir-nos-á a cada segundo das nossas vidas. Desde há muito que, tal como a Andresa, eu quero ser eu próprio, seguir a minha missão de elo entre várias pessoas e grupos. Pensei em orgias, sanduíches e outras variantes, meti-me no facebook, licenciei-me em Messianismo e Profecias na Universidade do Relvas, mas agora a Andresa desbravou-me o caminho e iluminou-me o futuro. Eu hei-de sobreviver trocando aquilo de que preciso pelo que de melhor posso dar. A Andresa espera não ter de gastar 1111 euros durante um ano, eu tenho a certeza de que não gastarei um tostão. Só se for para comprar palha para o camelo. As despesas mais formais estão garantidas pela frugalidade do consumo. Não preciso de água porque não tomarei banho, excepto se a Andresa me o exigir quando vivermos juntos. Beberei o que o céu me oferecer e a terra me proporcionar. Tenho um livro que explica como se fazem estas coisas. E como já o li, bem que o posso trocar, sei lá, por uma dúzia de suculentas tangerinas. A minha luz será a Andresa, de nenhuma outra luz carecerei para ser feliz. De gases estou bem servido e o seguro e o selo do carro deixarão de ser necessários, pois venderei o carro para poder ir até Marrocos trocar a minha mulher pelo camelo com o qual começarei a deslocar-me para todo o lado. Para pagar a Internet, farei uma troca com a Andresa: ela dar-me-á a sua palavra passe e eu dar-lhe-ei muitos beijinhos e palmadinhas no rabo. Como em Fevereiro ou Março estaremos a partilhar casa, ela disponibilizar-me-á o quarto em troca do meu entusiasmo. Nenhuma adversidade me fará baixar os braços neste objectivo. Depois de recentemente me terem assaltado o carro, levando-me os telemóveis (tinha um para cada orelha, como os brincos), as chaves de casa, os cartões de identificação, incluindo o de aderente FNAC, e até a placa dentária e a máquina de enrolar charros, mantive o espírito positivo e recorri a trocas para resolver quase tudo. Troquei o vidro partido do carro por um saco plástico do Modelo, deixei de usar orelhas, pelo que já não precisarei de telemóveis, tenho a porta cá de casa sempre aberta, estou à espera do meu novo passaporte russo e marquei consulta com um curandeiro de Djemaa el-Fna para dentes novos a troco de muito amor e carinho. Desistir está, portanto, fora de questão. Deixei-me seduzir pelo conceito Believe a ponto de estar seriamente empenhado em seduzir o conceito Andresa Salgueiro. Sinto neste momento uma energia nova a obsidiar a minha vida, sinto isto desde que o projecto da Andresa deixou de ser o meu projecto para passar a ser o meu projecto a própria Andresa. Tem sido uma experiência hipergratificante e a minha vida deu uma volta de 360 graus e mais alguns centímetros. Há pessoas que me deixam sacos com comida à porta (acho que é comida, a fome não regateia), a Quitéria trocou comigo 21Kg de batatas por um par de estalos (eu dei as batatas) e no bairro pressente-se já todo um futuro mais ecológico, saudável e feliz. Os ciganos vão à lenha, ateiam o lume, eu contribuo com os gases. Os meus consumos são muito baixos, estão mais ou menos ao nível das solas, o que faz com que me comece a alimentar de forma mais saudável com alimentos da terra. Dantes só comia porcarias caídas do céu. Também não compro coisas desnecessárias, tais como brincos e lenços de pescoço Jonet ou mesmo roupa. Prefiro andar roto e nu, apesar do frio, mas muito dignamente roto e nu. A roupa só me servia para encher o ego, não a alma. A alma, eu encho-a de Andresa. Acho que num futuro a médio longo prazo deixarei de usar dinheiro e serei sustentável, ecológico, saudável e feliz. Sempre que visito os meus avós no cemitério verifico que será essa a minha realidade. Por enquanto, camarada Van Zeller, quero apenas deixar uma mensagem para quem ambicionar seguir-me o exemplo: estamos sempre a tempo de mudar as nossas vidas, de mudar a nossa família, de mudar a nossa cidade, de mudar o nosso país, de mudar o nosso mundo… Qualquer cidadão da Eritreia sabe que isto é verdade. Mas tudo começa apenas e só quando começamos a acreditar em nós. Eu comecei a acreditar muito em mim desde que comecei a acreditar muito na Andresa. Não tenho dúvidas de que vale a pena acreditar na Andresa, no Pai Natal, nas fadas e nos querubins.

8 comentários:

Luis Eme disse...

:)))

marta disse...

amén! e que deus te abençoe o caminho!

alexandra g. disse...

obrigada, Henrique, obrigada :)

maria disse...

esta gente leva-te ao céu. :)))

beijinhos e um Bom Ano, sem a Andresa ;)

Graça Sampaio disse...

O que estes Passos e Relvas e Gaspares e outros gostam destas Andresas e Jonets e quejandas! Que nojo! É nestas alturas que me apetece ... baixar o nível e chegar ao vernáculo!

Flor, Rita, Ana. disse...

Ai eu não sei....gosto, pois, gosto, das Andresas troicadas, do Pai Natal, do Peter Pan, da fadinha Sininho....e agora do hmbf!! :)))

Andresa Salgueiro disse...

hmbf: Adorei o seu texto... adorei adorei adorei... ou não fosse eu a Andresa que tem como projecto!!! :) Está super bem escrito e vê-se que lê o meu blog de fio a pavio porque sabe tudinho (ou quase tudo) da minha vida!!! :)
Até acho que está tão giro, que se me desse autorização poderia pôr o texto numa página no meu livro à troca, que em breve editarei... se não aceitar a minha oferta, podemos sempre combinar um cafézinho quando eu passar pelas Caldas da Rainha antes que troque a sua esposa pelo camelo... porque ela também será bem vinda à cafezada!!!
A sério... adoreiiiiiiiiiiiiii!
Besito para si e grata... muito... fartei-me de rir!!! :D

VS disse...

Esta ideia foi desvirtuada ao ser tornada pública, massificada, descontextualizada. Se percebessemos que a Terra tem tudo em quantidade e qualidade não só para alimentar todos os seus habitantes mas para permitir a evolução da ciencia e da tecnologia; se percebessemos que isso só nao acontece porque o mundo gira à velocidade do dinheiro que temos...
Para mim a mensagem, seja a da Andresa ou do Gandhi, é essa: de que o dinheiro é útil na medida em que nós enquanto espécie aceitamos que é o que permite aceder ao que existe.
Na minha opinião, nao pretende, DE TODO, mostrar que somos uns ambiciosos em relação ao dinheiro que gastamos num ano, pelo contrário.