terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA


Sempre desconfiei de que o povo fosse o maior inimigo do povo. Ter visto Ladrões de Bicicletas muito novo contribuiu para a desconfiança. A cada dia que passa, a desconfiança transforma-se em sentença. Os factos teimam em não desmentir o pesadelo. Há dias, enquanto assistíamos em família a partes do documentário Torrebela, reparei nos comentários que desaprovavam o que parecia ser um saque na propriedade ocupada. Ninguém viu naqueles rostos, todos eles tão familiares, um pouco que fosse do que já fomos: analfabetos, ignorantes, miseráveis. Eu olhei para aquela gente a brincar com um piano, a vestir a batina de um padre, a remexer as pratas dos duques, como se estivesse a ver um filme sobre a chegada dos europeus ao Novo Mundo. Aquela gente comportava-se como os índios se terão comportado quando pela primeira vez se viram reflectidos num espelho. A brutalidade da cena estava patente, mas quem assistia agora ao retrato da ocupação apenas conseguia ver um roubo. E muito civilizadamente, lá está, só podia condenar o ladrão. Sucede que ali "o ladrão" roubava ladrão. O discurso convencional, amestrado e alfabetizado da nossa sociedade é paradigmático da desgraça em que caímos. Tome-se de exemplo um problema da actualidade. Pede-se que seja presumida a inocência do réu até transitar em julgado uma eventual sentença condenatória. Mas nunca se verificando sentenças condenatórias, não será natural que a presunção de inocência acabe desrespeitada e sem sentido? Afinal, neste novo mundo, só há inocentes. Não se vislumbram culpados. Mais uma vez se prova que a ineficácia da justiça é a maior inimiga da justiça. Não vale a pena vociferar contra a condenação dos réus no espaço público onde as vítimas exercem opinião. É assim no caso BPN como foi noutros e noutros será depois deste. Não haver culpados, sentenças, condenações, pela maior fraude de sempre no país transforma em culpados, sem pena efectiva, todos os implicados. De nada vale às vítimas que assim seja, de pouco vale à sociedade. Mas não nos censurem a nós, os mais desprotegidos e ignorantes, os índios, por fazermos justiça com a própria língua num país onde dar à língua ainda não é crime. Ainda. Outras sentenças nós preferíamos, é certo. Mas levá-las a cabo é perigoso. Corremos o risco de nos virem a chamar, a nós, criminosos. E aos gatunos do BPN... vítimas.

2 comentários:

Anónimo disse...

A presunção de inocência é um princípio de processo penal, vale apenas no processo - ainda aí com limitações - não vale fora dele.
Por extenso:
http://issuu.com/albinomatos/docs/name1f91e4
Cumps

A.M.

Cavalo de pau disse...

"Sempre desconfiei de que o povo fosse o maior inimigo do povo. Ter visto Ladrões de Bicicletas muito novo contribuiu para a desconfiança. A cada dia que passa, a desconfiança transforma-se em sentença. Os factos teimam em não desmentir o pesadelo."

Excelente a relação, entre o filme e o modo de não se conseguir ser povo. Sempre foi mais fácil parecer-se com um burguês, que ser genuinamente povo.,,por isso povo é coisa que por aqui já não há.