domingo, 26 de maio de 2013

TOMA O COMPRIMIDO

Leio no Expresso que a nova edição do DSM – a Bíblia das chamadas doenças mentais – acrescenta 18 novas doenças às cerca de 280 que já haviam sido formalizadas. Lê-se aquilo e fica-se preocupado. Eu, pelo menos, fico. Ir ao psiquiatra não chega, temo necessitar de internamento urgente. Sou uma espécie de colónia de doenças mentais. Como em excesso pelo menos uma vez por semana, logo padeço de uma binge eating disorder; acumulo compulsivamente vários objectos, nomeadamente livros, CDs, DVDs, logo sofro do distúrbio de Hoarding; frequentemente arranco pequenos pedaços de pele dos pés, o que manifesta uma perturbação obsessivo-compulsiva com a designação de skin-picking. Mas, pior que tudo, porque, lá está, para lá do pior há sempre o péssimo, possuo dificuldades persistentes no uso social de formas verbais e não verbais de comunicação, ainda que não consiga entender minimamente o que esta porra significa. Sofro de uma desordem de comunicação social. Um dia, para espanto de todos, chegaremos à conclusão de que a normalidade não existe, só a loucura, só a doença, só a dor. Ou então teremos uma edição actualizada do DSM com a descoberta das descobertas, a mania para ver doenças mentais onde elas não existem. Podem chamar-lhe perturbação obsessivo psiquiatrizante.

5 comentários:

Passarinho disse...

Pior que etiquetar as pessoas por causa de comportamentos vistos como desviantes, é entupi-las de químicos para torná-las "normais". É claro que estamos a interpretar estas novas incrementações ao DSM como exageros porque, à primeira vista, comer mais uma vez por semana, ou acumular uma quantidade de determinados objectos maior do que a média nos parece normal. E é. Mas não me parece que seja isso a que se referem os especialistas que acharam necessário incluir novas patologias no DSM. Estamos a falar por exemplo de pessoas que arrancam tanto a pele que já andam com os pés em carne viva, ou que têm tantos livros CD's e DVD's no quarto e na sala que passaram a dormir no chão da cozinha.
A questão é que o que é visto como normal ou não, não é assim tão linear. E provavelmente esta nova revisão vai levar a um aumento considerável de pacientes de psiquiatria que provavelmente nem precisam de acompanhamento. Mas mais uma vez reitero que a minha preocupação recai mesmo sobre o facto de medicar pessoas em quem secalhar tal coisa não se justifica. Como por exemplo, e numa situação mais usual, ter uma constipação, nariz a pingar e febre ligeira e dor de cabeça, e começar imediatamente a tomar antipiréticos e analgésicos só para "prevenir".

Ivo disse...

Se aparecer uma grande farmacêutica com o comprimido milagroso para qualquer uma dessas 'novas' perturbações é coincidência. Ou então sou eu a conspirar. Também deve dar direito a distúrbio. Já dizia o outro, "toma o comprimido, toma o comprimido, toma o comprimido que isso passaaa! Eu sei que é nocivo a isto e aquilo esquece isso pelo bem que façaaa..." Fico grato por existirem doentes como o Variações.

Onoma-topeia disse...

Disease mongering Ivo, esse é o termo técnico.

Onoma-topeia disse...

O termo técnico para isso é o de "disease mongering".

Cuca disse...

Concordo. Será mais ou menos como n' O Alienista, do Machado de Assis.