quarta-feira, 11 de setembro de 2013

OBITUÁRIO

 
Torel, Lisboa. 2012.


Para o Jorge Aguiar Oliveira

 

Os meus grafitis só farão sentido enquanto houver quem os pretenda extinguir. São esculturas de areia, afirmam-se pela efemeridade contra o universo da cultura nobre. Preservar um grafiti é contraproducente, chega a ser insultuoso para quem lhe dedicou o nervo da sua irreverência. Imaginem o que seria um museu de grafitis, com curadores e zeladores e restauradores. Um cemitério de gritos. Entrego aos caçadores do tempo a missão de me censurarem, enquanto me entretenho a imaginar obituários cautelosamente elaborados antes da morte dos artistas. Herberto terá já o dele guardado numa gaveta. Espera a oportunidade que a morte confirmará. A morte abre muitas portas. Manoel de Oliveira, Fidel, Mandela devem deixar muita gente ansiosa, muita gente aguardando a oportunidade de ver publicada as suas sábias e precavidas reflexões. Não quero que os meus grafitis sejam como estes obituários, eles são a antítese da precaução, sobrevivem de serem odiados e terem quem os odeie. Que os julguem sujidade é o melhor elogio que lhes pode ser feito.
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Testamento: HMBF

2 comentários:

O carteira vazia disse...

esse grafiti ta lindo amigo. mesmo!!

http://ocarteiravazia.blogspot.pt /

Marina Tadeu disse...

Olha um galo que rosna. Ah, Tigre!