Com argumento de Borden Chase, a quem devemos diálogos
para westerns emblemáticos tais como Red River (1948), Winchester 73 (1950),
Vera Cruz (1954) ou Backlash (1956), este The Far Country/Terra Distante (1954)
ocupa um lugar especial na filmografia de Anthony Mann (1906-1967). Estamos
longe das paisagens típicas do Oeste selvagem, afastados do deserto e das
terras secas do sul, dos rochedos de Monument Valley que Ford filmou como
ninguém ou das Alabama Hills que serviram de palco aos enredos de Budd
Boetticher. Mann desloca-nos para Norte, na fronteira com o Canadá, onde no
final do século XIX a corrida ao ouro de Klondike, no Yukon, fazia fervilhar cidades
emergentes como Dawson City. A acção começa na cidade portuária de Seattle. Aí
chega o cowboy interpretado por James Stewart, numa manhã de 1896, para
embarcar com uma manada rumo a Skagway, no Alasca. Tem em vista as terras
canadianas da fronteira, recentemente ocupadas por milhares de homens e mulheres
em busca de uma vida próspera. É lá que o gado poderá valer o peso do ouro. Curiosamente,
este desvio geográfico não desfaz vícios que conhecemos de outras paragens.
Como algumas vezes repete uma das figuras secundárias do filme: onde há ouro há roubos,
onde há roubos há mortes. E há crime. Este cowboy solitário e individualista, de
seu nome Jeff Webster, tem um sócio. No velho Ben Tatum (interpretação de
Walter Brennan ao nível do que vimos em Drums Across the River ou Rio Bravo)
vislumbraremos um humanismo e uma ingenuidade que Jeff Webster não tem. Jeff
desconfia das pessoas, não faz amigos, evita prender-se a quem ou o que quer
que seja, está apenas comprometido com os seus objectivos pessoais, é capaz de
voltar as costas à desgraça alheia com indiferença e sem remorso. Para ele tudo
se resume a seguir o seu próprio caminho sem amparas nem convenções. A
cumplicidade de Ben, em breve vítima da sua própria inocência, chama-o por
vezes à razão e irá transformá-lo definitivamente. Mas até que isso aconteça, o
filme de Anthony Mann é uma sucessão de episódios onde o egoísmo e a
solidariedade medem forças, onde a confiança e a suspeita rivalizavam, onde o
amor e o ciúme entram em duelo. Para tal, contribuem três personagens com quem
Jeff Webster se cruza nesta digressão especial. 1.ª: a mulher fatal que começará
por protegê-lo logo no embarque de Seattle e acabará defendendo-o no derradeiro
duelo em Dawson City; 2.ª o juiz corrupto de Skagway, um Mr. Gannon
superiormente encarnado por John McIntire (o mesmo de Backlash), de quem Jeff terá
que fugir até acabar por se lhe opor num combate onde se joga tanto a vida como
a honra; 3.ª a inocência de toda uma
comunidade personificada tanto na jovem Renne Vallon como no velho sócio Ben Tatum.
É contra a extorsão e a manipulação das gentes de Dawson City que Jeff Webster
terá de confrontar o juiz Gannon, criminoso servindo-se da lei para impor a
todos a vontade de um só homem. Aquilo a que assistiremos nas terras distantes
do norte é a uma avalanche de raiva no peito cerrado de um homem,
uma raiva calada tanto por uma certa insensibilidade como pelo egoísmo, uma
raiva amansada por cálculos individualistas mas que a iniquidade espoletará com
tremendo vigor. The Far Country não é, porém, apenas mais um western onde a consciência
moral dos indivíduos transcende a injustiça das convenções, ou seja, não é mais
um desses westerns onde a lei foi transformada em ferramenta do crime contra a
qual só a boa consciência dos cidadãos poderá opor-se. Não é sequer um filme
que apele à união das massas contra a injustiça sobre si exercida. É antes o
filme de um homem só, em conflito consigo próprio, abrindo-se ao outro num
processo violento onde a vitória final resulta numa humanização da personagem. A
paisagem escarpada e fria onde decorre a acção torna-se, na
sequência derradeira, numa espécie de retiro espiritual onde o profeta se
recolheu para receber o mais importante dos mandamentos: que sendo um entre os
demais não está só e, por isso, é com os demais que tem de conviver, actuando
na justa medida desse bem comum que é a vida solidária.
domingo, 30 de março de 2014
sexta-feira, 28 de março de 2014
LOST WEEKEND
Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.
Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.
Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.
Rui Pires Cabral (n. 1967), in Música Antológica & Onze Cidades (1997). «Há uma atitude enunciativa na obra deste poeta. Pouca dimensão especulativa, nulo enovelamento do discurso, vontade de contar e de prender sentimentos comuns (na sua aflição, no seu contentamento, nos seus actos menos habituais), nenhuma vontade de confrontar o leitor com outro mundo senão o mundo complexo que é já o seu. E tudo com um rigor explanativo e organizativo que nunca deixa cair os versos em qualquer mau gosto imaginístico, em qualquer trejeito epigónico, em qualquer efeito de facilitação sentimentalista, em qualquer truque de conceitos patetas em que - sobretudo já chegou isto a algum do dito romance de agora - a linguagem literária parece querer emular o nojo da linguagem publicitária. Tudo isto é como que deitado ao lixo por estes versos. Também se pressente o esforço de não ser pedante com as breves anotações culturais, que só com rareza se consegue tornar vital em poesia. Aqui, esses breves envios têm a subtileza de não pretender esmagar, antes de oferecer como partilha que pode ser aceite ou não, que não é essencial para a compreensão absoluta do que se diz» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).
quarta-feira, 26 de março de 2014
RESPOSTA A EDUARDO PITTA
Caro Eduardo,
Pela parte que me toca, calhando-me em sorte uma das viaturas, fica desde já convocado para uma sessão de terapia da destruição. Martelos, marretas, mocas de Rio Maior, picaretas, as Finanças não oferecem. Até ver. Mas a gente arranja.
Saúde,
terça-feira, 25 de março de 2014
ENSAIO GERAL
No restaurante, o rapaz exibe
os músculos trabalhados na T-shirt
de marca colada ao tronco. Faz-se
acompanhar de duas mulheres,
uma loura de aldeia, outra morena
de raça cigana. Conseguem acabar
a refeição. Depois
do brandy e do café, a loira
palita os dentes descontraidamente.
Esqueceu-se por completo. O proxeneta
não diz nada. Poderia educá-la
mas, na verdade, a proveniência
é a mesma.
Na escola os miúdos calculam
na máquina, as armas nucleares
guardam-se numa caixa com um cadeado,
disse-me Tofler.
Civilização e barbárie são dois partidos.
O ódio, a rivalidade estão na origem
da tragédia. Imprevisíveis as consequências
das lutas tribais em todos
os cantos do planeta. É o Nobel
da Paz, disto e daquilo. Nada resolve
o drama de existir. O anonimato
é hoje infelicidade. Toda a gente quer
direito de antena, um segundo,
a palavra, um dialecto qualquer.
Envelhecer não dá a chave
da resolução dos problemas.
Livros são lixo, não produzem
alimentos nem antibióticos
para os milhões que diariamente
todos os canais mostram ao mundo.
A paixão eleva, ajuda
e apaga a imperfeição.
Aprendemos a perdoar já tarde
na vida, não há receitas.
Mesmo sem importância é preciso
continuar. Aconteça a discórdia,
a guerra, o extermínio.
A rua é um circo; a beleza
do coração que bate regularmente,
a crueldade dos mutilados de toda
a espécie. Um rosto de criança
amolgada encosta-se à montra
da ourivesaria. O velho corcunda
vende cautelas e também é pedinte.
Tal como o professor que lecciona
no oficial e no particular. Os filhos
precisam de um nível de vida capaz
de superar a competição.
Figuras distintas na corrupção,
tudo se descobre e o comum
cidadão tem sede de vingança.
A escravatura nunca acabará. Raros
conhecem a plenitude do conforto.
Mármores, cristais, jóias,
estonteantes maços de notas.
O sofrimento mortifica e o suicídio
é a admirável fuga ao asilo,
ao lar da idade final.
Pensar em tudo esgota
os nervos, tomar comprimidos
adia o assunto. Melhor será
ficar pelo ensaio geral duma vida
sem horizontes. Cinzenta, mediana,
sem rebuliço. Não sentir nem desejar,
ser feito de pedra.
Isabel de Sá (n. 1951), in Erosão de sentimentos (1997). «Falemos de uma poetisa que publicou o seu primeiro livro em 1979, que conta hoje com 12 títulos na sua bibliografia activa e que não costuma ter lugar cativo em antologias, balanços, retrospectivas e sínteses. Chama-se Isabel de Sá e reuniu a sua obra num único volume que dá pelo seguinte título: Repetir o Poema. / É um título que vale como um programa: o poema como lugar de uma insistência, de uma obsessão, de um sempre igual que ao repetir-se torna-se outro. A característica mais evidente desta poesia é a criação de um universo fechado no seu complexo de símbolos e imagens: ela define-se, antes de mais, por um determinado imaginário, isto é, por um conjunto de imagens que formam um arquivo pessoal, um léxico e um discurso não partilháveis. Podemos tentar defini-lo: trata-se de um imaginário que estabelece trânsitos inesperados entre o corpo erótico (o corpo do amor) e o corpo mortificado. Dir-se-ia que no princípio está a morte, e é a ela que se conquistam pedaços de vida. Daí que nos primeiros livros de Isabel de Sá a infância tenha sempre uma conotação fúnebre» (António Guerreiro, O rosto e as máscaras, Expresso, 17 de Setembro de 2005). Imagem respigada aqui.
LÂMPADA DE ALADINO
Habituámo-nos aos estágios não remunerados como se fossem
parte integrante de um natural percurso profissional. Elogiamos o voluntariado
por si só, como se, em muitas circunstâncias, ele não passasse de oportunismo. Andamos
para aí a apregoar o empreendedorismo como se o mundo fosse uma lâmpada de
Aladino. O trabalho não remunerado entrou nas nossas vidas com a maior das
normalidades. É uma oportunidade, é um investimento, é beneficência. E ser mal
pago é melhor que não ser pago. Bardamerda. Quem trabalha tem que ser pago
conforme o fruto do seu esforço, ninguém deveria aceitar esta onda de vassalagem.
Mesmo que nos contentemos com o rebuçado, devemos pensar no outro, no
desempregado, na sua necessidade de trabalho, nos explorados, nas pessoas cujo
trabalho gera uma riqueza da qual jamais sentem sequer o cheiro. O agravamento
das assimetrias sociais e o desemprego não são por acaso, estão interligados
por uma corrente de abusos que tem na ganância o seu principal motor e no puro
egoísmo a mais básica das causas.
INDECOROSO
Não costumo preocupar-me com o que se passa na casa do meu
vizinho para determinar os meus padrões de vida, mas sempre gostava de saber –
se alguém souber, que me diga por favor - se isto também acontece noutros
países. Parece-me tudo tão indecoroso que me custa acreditar. Já agora, faço figas para que saia a um gajo sem carta de condução.
POEMA DE SÉRGIO PACHÁ QUE RUY BELO TUDO FEZ PARA QUE FOSSE PUBLICADO ENQUANTO O AUTOR SE ENCONTRAVA EM PORTUGAL
MORTE EM LISBOA
Morrer é não ir mais ao Império
encontrar alguém a horas tais
nem a Trás-os-Montes ver o Douro
verde.
Morrer é o fim do mar
do vento que venta em Belém
da rua do Ouro, de Chopin, de Sísifo,
de duas ou três noites que se supunham a salvo
porque vividas,
bem como de um olhar - memória -
tão silente que jamais se ouviu,
e da carícia de meu Pai, memória, também
nos meus cabelos, matinal.
Morrer é sempre antes dos amplexos
adiados para melhor depois
e dos poemas pubescentes no Além-Tejo.
Morrer é assim: no Campo Grande
fecha-se o piano sobre um Andante
Cantabile, anónimo e qualquer,
patético (que ele era cego, o pianista).
Morrer: Portas do Sol em plena aurora
agora.
Lisboa, primavera de 67
Morrer é não ir mais ao Império
encontrar alguém a horas tais
nem a Trás-os-Montes ver o Douro
verde.
Morrer é o fim do mar
do vento que venta em Belém
da rua do Ouro, de Chopin, de Sísifo,
de duas ou três noites que se supunham a salvo
porque vividas,
bem como de um olhar - memória -
tão silente que jamais se ouviu,
e da carícia de meu Pai, memória, também
nos meus cabelos, matinal.
Morrer é sempre antes dos amplexos
adiados para melhor depois
e dos poemas pubescentes no Além-Tejo.
Morrer é assim: no Campo Grande
fecha-se o piano sobre um Andante
Cantabile, anónimo e qualquer,
patético (que ele era cego, o pianista).
Morrer: Portas do Sol em plena aurora
agora.
Lisboa, primavera de 67
Sérgio Pachá
segunda-feira, 24 de março de 2014
UM DESCANSO
Alguns títulos nos jornais: diferença entre muito ricos e
muito pobres continuou a subir em Portugal, primeiro ciclo perde 40000
estudantes em sete anos, um em cada dez portugueses comprou bens ou serviços na
economia paralela, finanças escolhem SIVA e sorteiam Audi A4 e A6 no concurso
do fisco… Não sei o que pensar, sei que trabalho e que estou saturado, cansado
de tanta desconsideração, menosprezo, opressão, insulto, coacção, manipulação. Em suma,
não sei o que pensar mas sei o que sinto. E o que sinto impede-me de pensar. Se
Descartes tivesse razão, eu não existiria. Seria um descanso.
MY DARLING CLEMENTINE (1946)
My Darling Clementine/A Paixão dos Fortes (1946) ocupa um
lugar especial nos westerns produzidos durante a década de 1940. Desde
Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) que John Ford (n. 1894 – m. 1973) não se
dedicava ao género, abrindo com este filme as portas para uma década de ouro
onde às aventuras dos heróis do Velho Oeste foi acrescentada uma perturbadora fragilidade
humana. My Darling Clementine parte de um acontecimento real que faz parte do
imaginário norte-americano, o tiroteio que opôs os irmãos Earp, entre os quais
o mitológico Wyatt Earp, à família Clanton. Já aqui falei de Gunfight At TheO.K. Corral/Duelo de Fogo (1957), obra onde John Sturges (n. 1911 – m. 1992)
procurou recriar esses acontecimentos com maior veracidade. O título do filme
de Ford sugere algo mais para lá de uma mera reconstrução histórica, sendo
muitas as liberdades tomadas no decorrer da narrativa.
Clementine (Cathy Downs) é uma jovem mulher que
aparece em Tombstone à procura de Doc Holliday (Victor Mature), indivíduo de
boas famílias, bem formado, cujo vício no jogo e doença (era tuberculoso) o
afastaram da humidade doméstica para o fervor selvagem. Tornou-se amigo de
Wyatt Earp, combatendo a seu lado no tiroteio de O.K. Corral. O filme parece
ter, deste modo, duas partes, delineadas pela chegada de Clementine à cidade. Há
um antes e um depois desta aparição, a qual obrigará Doc Holliday a
confrontar-se com o seu passado e Wyatt Earp com o seu presente. Numa das cenas
finais, Wyatt (mais uma magnífica interpretação de Henry Fonda) pergunta ao
barman de serviço se ele alguma vez esteve apaixonado, ao que este responde: «No,
I’ve been a bartender all my life». O apontamento pode parecer anedótico, mas carrega
um peso dramático no contexto em que é dito. Wyatt estava apaixonado por
Clementine, ex-mulher daquele que era agora o seu melhor amigo: Doc Holliday.
O duelo tantas vezes iminente entre ambos desloca-se de
um lugar físico para o terreno psicológico, penetrado pelo realizador com
ambientes e situações onde parece estar a ser julgada permanentemente a
cumplicidade entre as duas personagens. Posso estar equivocado, mas não me
recordo de outro filme de John Ford onde o close-up seja recurso tão recorrente
para sublinhar a dimensão psicológica das personagens. Além dos três actores
acima referidos, há que mencionar Linda Darnell. Actriz com um final abrupto –
morreu durante um incêndio quando tinha apenas 41 anos -, desempenha aqui o
papel de Chihuahua, a amante de Doc Holliday. Ward Bond, actor fetiche de John
Ford a quem já me referi várias vezes, é Morgan Earp, o mais velho dos irmãos
Earp. Reencontramos igualmente Walter Brennan, desta feita no papel menos
simpático do pai da família Clanton. Outro velho conhecido é John Ireland, que
fez de Bob Ford em I Shot Jesse James (1949). Este elenco permite ao realizador
apostar no desempenho dos actores, podendo até ser interpretada como homenagem
a inclusão no argumento da visita de um actor à cidade onde decorre a acção.
A sequência oferece contrates tipicamente fordianos, comédia e tragédia equilibram-se sobre o ténue fio civilizacional que então
caracterizava o Oeste. Granville Thorndyke (Alan Mowbray) é o pobre
actor de serviço numa cidade onde a sensibilidade dramática dos cidadãos se
manifesta mais pelo gatilho do que pela boa educação. Retido pelos irmãos
Clanton no saloon local, é obrigado a divertir as hostes. Tenta recitar William
Shakespeare, mas o famoso trecho do Hamlet não converte a insensibilidade
poética do abrutalhado Ike Clanton. Salvam-no de pior destino a nostalgia de
Doc Holliday e o espanto de Wyatt Earp, figuras onde se pressente um fundo
moral que escapa aos demais. Nas suas diferenças, é isto que os une. Para
que conste, Clementine ficará na cidade. E o seu nome, que Wyatt diz ser belo
como nenhum outro, invoca uma esperança fundamental para a
sobrevivência daquelas pessoas. Ouvi-lo é como ouvir, pela primeira vez, os sinos
da igreja num local onde nem ao barbeiro um homem podia ir descansado.
Ressonância religiosa, esta metáfora, chamemos-lhe assim, da civilização
desabrochando em terras áridas é, talvez, o único conforto que resta a quem
sabe nada ter a perder. Clementine ficará para construir uma escola, para ser
professora, para educar as crianças de Tombstone. Esperemos que se tenha saído
bem.
P.S.: talvez ainda se recordem de Carroll Baker, a
instrutora que partiu com os índios no épico Cheyenne Autumn (1964). Eis o destino da civilização tão bem desenhado pela cultura popular.
JOSÉ MORENO VILLA
A Geração de 27 diz respeito a um conjunto de poetas
espanhóis que começaram a publicar nesse ano (ou perto). Designação algo
abusiva, pois comporta vozes dissonantes de formações distintas, sem padrão nem
raiz comum, apenas com uma muito ténue ligação entre si. Os nomes mais
conhecidos serão Federico García Lorca (n. 1898 – m. 1936) – estreado seis anos
antes -, Rafael Alberti (n. 1902 – m. 1999) – Prémio Nacional de Poesía em 1925
-, Jorge Guillén (n. 1893 – m. 1984) – que começou a publicar poesia na
influente Revista de Occidente – ou Luis Cernuda (n. 1902 – m. 1963) – este, de
facto, com estreia em 1927. No entanto, descobrimos nas biografias destes
poetas a frequência de um espaço comum que virá a revelar-se determinante. Todos
frequentaram a Residencia de Estudiantes, centro de estudos em Madrid para onde
confluía grande parte da cultura literária espanhola de então. Entre os
frequentadores, está também um poeta não tão conhecido como os supramencionados
mas com uma obra verdadeiramente estimulante. José Moreno Villa (n. 1887 – m.
1955) começou a publicar em 1913. A sua poesia é uma espécie de ponte entre a
Geração de 27 e a geração anterior, a de poetas como Miguel de Unamuno (n. 1864
– m. 1936) e Antonio Machado (n. 1875 – m. 1939). Octavio Paz, Ortega y Gasset,
Juan Ramón Jiménez, referiram-se à sua obra em tom elogioso, sendo certo que a
mesma desbravou caminho para o desenvolvimento das vanguardas espanholas. Bibliotecário
de profissão, ligado à Residencia, foi uma espécie de tutor dos jovens Buñuel,
Lorca, Dalí. Escreveu contos, teatro, ensaio, crítica literária e de arte,
traduziu, colaborou com jornais e revistas, fazendo eco de um sentido
transgressor de que a poesia é manifesto irrefutável. Além da autobiografia
Vida en claro (1944), o seu livro mais conhecido é Jacinta la pelirroja (1929) –
expressão magoada de um amor falhado por uma jovem americana de nome Florence
que o levou a viajar até Nova Iorque, lutando ingloriamente contra a oposição
dos pais da amada. No prólogo à edição desta singela antologia intitulada
Poemas (Junta de Andalucía, Abril de 2012), Rafael de Cózar afirma que o livro
marca «el punto culminante de la Generación del 27, la cual, a partir de los inícios
de la República y con el referente de la crisis mundial del 29, evoluciona,
incluso desde las posiciones vanguardistas, hacia la rehumanización» (p. 12).
Identificado com a esquerda republicana, José Moreno Villa viu-se forçado ao
exílio mexicano em 1937. Um ano antes tinha publicado Salón sin Muros (1936),
de que deixarei a seguir uma versão do poema Sobre tus memorias. Já da fase do
exílio, deixo o poema Epílogo – do livro La Noche del Verbo (1942).
SOBRE AS TUAS MEMÓRIAS
Se alguma vez escreveres as tuas memórias
diz que andavas de chinelos por casa,
que ressonavas a dormir,
ou que sofrias de hemorróidas.
Diz se tiveste amores clandestinos
com familiares ou mulheres de classe baixa,
se frequentavas tabernas ou igrejas,
se eras amigo dos grandes fantoches.
Nada digas das tuas obras,
porque, se disseres, roubas ao crítico
o pequeno fruto da presunção.
Ele diverte-se e justifica
manipulando com o “talvez”, o “porventura”
ou o “supostamente”.
O melhor é contar anedotas,
exibir a roupa interior,
dar os pormenores da tua concubina
e oferecer o deve e o haver do teu calendário.
***
EPÍLOGO
Verbo, verbo e não mais, apenas palavras.
Isso sou, isso és, isso somos
dentro da janela.
Por isso quando olhas o teu interior
nada vês de tangível;
nem luz nem corpo, nem cor nem ar;
um enorme vácuo
onde ferve a vida do vocábulo;
onde ferve a vida.
A vida é o vocábulo
e ser homem consiste
em unir sabiamente as palavras
e destacar as que cavalgam
sobre o mundo exterior e o intramundo.
O verbo está no topo;
é senhor e criança.
A mais próxima das suas imagens é o poeta.
sábado, 22 de março de 2014
ILUSTRAZIONE
Faço um poema e nasce uma cidade
invento o conteúdo geográfico das coisas.
Escrevo um nome e nasce Dublin
porque Dublin escrevi.
Se onde ponho um traço nasce uma via de ferro
então é um comboio em direcção a Roma.
Faço uma cidade e vejo-me um néon
ponho um anúncio e nasce cigaretta.
O italiano compõe o soar da palavra
eu dou uma entoação ao segredo do fim
Se há um horizonte para divulgar o Sol
há uma expectação para divulgar o coração
Se há um moinho para os lados de Perpignan
há Daudet a repousar o Sol numa cadeira
Se há Avignon, uma festa, a França, a Península Itálica,
Burgos e todas as catedrais espanholas
há uma cidade cheia de Sol a compor a direcção
Se o mar fica no fim
Lisboa fica ao pé de Lisboa fica súbito
como se o Tejo fosse um braço decepado
e um cacilheiro total o pano de uma bandeira
Pensa-se no rumor tribal que inunda todas as ruas
faz-se um boulevard duma avenida nossa
põe-se Lautréamont a inventar um prédio.
Há a loucura a inundar a parede
o relógio que
se primeiro bateu na cabeça de Poe
bate depois no sangue feito do conto
divulgado no livro
Lê-se o fígado do poeta no álcool derramado
sobre o desmaio de Ligeia
se esta tem as mãos ebúrneas nasce âmbar
nas mãos brancas duma conceição tripartida.
Ah, se onde ponho a imaginação nasce um lírio
derramem-me a história duma amante sobre a cabeça
pois sou o amante duma perversão absoluta.
Não rasgues o sentido do ombro aí onde tens o tatu do destino
e aí onde só a virgindade do teu androceu malino
pode factar a dimensão do totem a inundar de carácter
todo o céu africano.
Ah, nasça-me um árabe de luz com seu corpo moreno
contradizendo a logia
nasça-lhe uma idade de rosto sua idade gidiana
para compor a tenda com precaução indefinida.
Reveja-se o jeep inglês de Lawrence
que inundava o deserto duma celtidade absoluta,
o zénite solar sobre o bico da tenda.
Só a imagem dum rio pode dar ao poema
toda esta noção geográfica que o poema não tem.
Bramaputra
se nasceres no papel vou dizer à ondina do gnomo
que a floresta não constrói.
Ponho uma fonte a cantar na cabeça do gnomo
e o gnomo surge e nasce
como o ícone divulgado.
É rica a mitologia germana
para dar um sentido ao godo que de chifres na cabeça
usa um segredo quotidiano pendular
que é o pulso esquerdo da fêmea.
Põe-se-lhe a data
e o poema nasce
rubicundo
como a ponta dum lápis
que escrevesse no registo
o nome macho dum bebé.
I achieve
I finalize
eu acabo
eu finalizo.
É o poema terminado.
António Gancho (n. 1940 - m. 2005), in O Ar da Manhã - 1960/1967 (1995). Poeta louco, eis o estigma que sobre a obra pesa. Herberto
Helder deu-o a conhecer em Edoi Lelia Doura – Antologia das vozes comunicantes
da poesia moderna portuguesa (1985). Gancho, então com 45 anos, percorria desde
os 20 os corredores das instituições psiquiátricas. Foram 38 anos de
internamento na Casa de Saúde do Telhal. Lugar obscuro onde se cruzam inúmeras
referências, porventura de modo aleatório, a poesia de António Gancho inquieta quem seja sensível aos mistérios
da linguagem, repercutindo uma desorientação que o electrochoque da hermenêutica
convencional é incapaz de arrumar. No entanto, há n’O Ar da Manhã uma
cosmologia latente onde podemos entrever muita da melhor habilidade surrealista.
Além de Herberto, foram seus amigos Álvaro Lapa e António Palolo. Frequentou o
Café Gelo, ponto de confluência do último surrealismo português. Poemas
temperados com as especiarias dessa convivência, quer pelas referências que ressoam,
quer pelos coloridos irónico e, por vezes, histriónico que manifestam. São
versos onde cada palavra aposta isoladamente o seu sentido, o seu significado e
o seu significante, numa relação lúdica e livre entre imagem e som.
sexta-feira, 21 de março de 2014
NÃO LEVASTE PEDRAS E EU DURO
Para o Rui Costa
Embora distes mais da minha margem
com esta multidão de luzes no céu camponês,
não te penso nem busco menos, ou porque
planto jasmim e semeio bagas e carrego terra
numa pá desde a ribeira ao quintal, vingam
coisas que vivem. Disseste que virias mas
aqui o ano passou sem notícias, fiz
um voto por ti, atirei a espuma à janela.
Propuseste também fazermos um pacto
de azeite numa lua ou lagar em sangue, não
lembro bem, apreciavas trocar as figuras
sentimentais, comentei até essa conversa
em que não vi nenhum fim especial
e apenas me deixou alegre pois virias eu
estava talvez não tão atenta mas foi bom
sendo incerto o que aconteceria a seguir
- e mil vezes aceitar, mesmo que contrário
ao investimento posto na ideia de amigo
ou até algo mais afim ao outro lado da alma,
avesso ainda assim à perda que é ficar
só com este real irremediável - tu nem
remetente deixaste para uma chave
que não tinhas outro sítio onde enfiar,
mas nos olhos ou ao ombro uma banda
negra, ouvias quem sabe estrídulo sopro seria
eufórico ou sobrenatural no fulgor de um
tímpano a perder de riso o rio, mas não
vale encobrir tantas vezes a morte
de muitas palavras, e afinal tu crês,
o que há além do superficial talvez seja
mais que fundo, mas só fundo repito é
onde estão os que ficámos e eu não sei
que tempos, porque não chove, demora,
com as cheias, a tranquila ascensão outra vez.
Queria pedir-te, como antes fazias e eu
vinha, uma visita em duas linhas neste estilo:
não se está mal mas não corre como eu queria,
se cá estivesses sempre parecia mais normal.
Margarida Vale de Gato, in Cintilações da Sombra 2 - antologia poética, coordenação de Victor Oliveira Mateus, Labirinto / Núcleo de Artes e Letras de Fafe, 2014, pp. 61 - 62.
CINTILAÇÕES DA SOMBRA 2
Cintilações da Sombra 2
antologia poética
Coordenação de Victor Oliveira Mateus
Labirinto / Núcleo de Artes e Letras de Fafe
2014
Planos Verticais e Horizontais no Atelier, pp. 33-34.
quinta-feira, 20 de março de 2014
AINDA NÃO
Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis da valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José Forte (n. 1931 - m. 1988), in 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas (1960). «A poesia de António José Forte não é um lugar-comum surrealista, como alguma da por cá exercida entre o fim da década de 50 e o começo da seguinte, e também da muita que se eserce agora sub-repticiamente. (...) A voz de Forte não é plural, não é directa ou sinuosamente derivada, não é devedora. Como toda a poesia, a verdadeira, possui apenas a sua tradição, no caso a tradição romântica no menos estrito e mais expansivo e qualificado registo, uma tradição próximo de nós esclarecida pelo surrealismo, imemorial, dinâmica, abrindo para trás e para diante, única maneira de entender-se uma tradição. Não se trata de modo ou moda, forma ou fórmula, acidentalidade ou incidentalidade. O teor é o da inteligência fundamental do mundo» (Herberto Helder, in Nota Inútil - prefácio a Uma Faca nos Dentes, Parceria A. M. Pereira, 2ª edição, 2003)
EVENTUALMENTE
No segundo volume de Textos de Guerrilha, Luiz Pacheco
incluiu uma recensão ao livro A Farsa da Europa (Claude Bourdet). Data o texto,
originalmente publicado no Diário Popular, de 9 de Novembro de 1978. É de
relembrar, passados mais de 35 anos, algumas das dúvidas aí formuladas:
Bourdet não é contra a Europa, não é um xenófobo, mas um
europeu convicto. (…) Com estas credenciais, Claude Bourdet ainda se abona de
ter participado nas primeiras tentativas, logo em 1946-47, no sentido da
construção europeia. Estas iniciativas de esquerda provinham da franja, ainda
muito limitada nessa altura, dos socialistas e progressistas que rejeitavam a
divisão do mundo em dois blocos, os primeiros prosélitos do não-alinhamento.
Porém, para Bourdet e outros, a Europa só representava um objectivo válido se
fosse uma Europa dos trabalhadores, impedindo o regresso ao poder do
capitalismo europeu. O que aconteceu? Alargando-se o movimento, os novos
participantes pensavam que era preciso começar por fazer a Europa e que o socialismo
viria, eventualmente, depois. Este eventualmente, com seu quê de milagroso ou
fortuito, se Deus quiser ou pode ser que calhe, desviou-me das preocupações de
Bourdet para outras, nossas e prementes. Não é que andamos, vai para cinco
anos, numa via socializante em que, no dia-a.dia, vamos assistindo ao derrube
insolente e não poucas vezes brutal, até sangrento, das estruturas — as poucas
mas eficazes —socialistas, instituídas até ao VI Governo Provisório? E a
continuar assim eventualmente se chegará a algum socialismo? Claude Bourdet
parece estar tão a par da situação nacional que, já em 1977 —data da publicação
deste livro em França —, escrevia:
«…um partido socialista reconvertido ao Molletismo e
telecomandado por Bona e, através de Bona, por Washington, à maneira do Partida
Socialista Português.»
(…)
Numa linguagem que alia à facilidade de comunicação uma
força de argumentação solidamente informada, Claude Bourdet vai desmontando
patranhas da propaganda capitalista, vai-nos certificando que os três mitos — o
da integração europeia, o da segurança atlântica e o da defesa nuclear francesa
— estão a conduzir a uma situação ainda mais grave, a qual é a da eleição do
parlamento europeu por sufrágio universal e, daí, a um executivo supranacional,
que não deixará de ser cupulado pela direita e pelos alemães.
A história veio dar razão aos avisos de Claude Bourdet e
à leitura de Luiz Pacheco, assim como dará ao manifesto dos 74+74.
Eventualmente, os mais populares comentadores de economia na imprensa
portuguesa estarão velhos e caducos. Ou então são simplesmente pueris.
quarta-feira, 19 de março de 2014
MAN WITH THE GUN (1955)
Com menos de dez filmes no currículo, Richard Wilson
(1915-1991) não fez história no cinema. Desempenhou um pequeno papel em Citizen
Kane (1941), tendo, de resto, sido um dos produtores do Macbeth (1948) de Orson
Welles (1915-1985). O seu primeiro filme enquanto realizador foi este Man With The
Gun/Sozinho Contra a Cidade (1955), que escreveu coadjuvado por N. B. Stone Jr.
(o mesmo de Ride The High Country, de Sam Peckinpah). Wilson parece ter um
talento especial para personagens perversas e cenas onde a maldade se torna evidente. É famosa a abertura de Man Wiht The Gun, com a personagem
interpretada pelo famigerado Leo Gordon a disparar sobre o cão de uma criança
na pequena cidade de Sheridan (Wyoming). Tratados como cães, os cidadãos reúnem o concelho da
cidade para encontrar uma solução. É preciso expurgar as ruas do crime
e das ameaças levadas a cabo pelos homens de Dade Holman, um poderoso “magnata”
local, obeso e sem escrúpulos, que veremos apenas na última cena do filme. Holman
faz-se representar pelos seus capangas, não se desloca à cidade onde tem
interesses comerciais e impõe as suas regras. A comunidade fala dele com
desprezo, mas cede. O sheriff local (excelente interpretação de Henry Hull)
está mais preocupado em evitar problemas do que alimentar conflitos, passa o
tempo a pôr água na fervura, demove o jovem e impulsivo Jeff Castle (John
Lupton) de partir para o confronto, apela à calma e à paciência dos cidadãos de
Sheridan. Eis se não quando entra em cena Clint Tollinger, magnificamente representado
por Robert Mitchum. Na personagem de Tollinger, o filme apresenta-nos a figura do “town
tamer” (pode ser traduzido como domador de cidades). Esta figura
ambivalente consiste em substituir a lei ao serviço da ordem, ou seja,
recorrendo a métodos agressivos e directos, como o uso das armas, ao “town
tamer” cabe afastar a selvajaria da cidade. O pacificador Marshal Lee Sims
vê-se, assim, ultrapassado pela contratação do domesticador Clint Tollinger.
Mas entre ambos não encontraremos querelas. O interesse de Richard Wilson é
pela dimensão psicológica de uma única personagem, a de Robert Mitchum. O filme
não explora tanto as ambiguidades da lei como aprofunda as contradições da
personalidade do “town tamer”, ao mesmo tempo que proporciona um retrato frio da
comunidade que o contrata. Inicialmente dispostos a aceitar os métodos de
Tollinger, os comerciantes locais acham-se entretanto ameaçados pelas
consequências dos procedimentos. É como se sem crime não pudesse haver comércio
e sem comércio fosse impossível à cidade sobreviver. Este círculo vicioso está
patente na análise de Wilson, que filmou também uma inconveniente biografia de
Al Capone (1959) onde as interligações entre a política, a justiça e o crime excedem
os limites do aceitável. A realidade tal como ela é, portanto. E de uma
actualidade ultrajante, se olharmos para como ainda hoje política e finança se
promiscuem com a complacência, quando não cumplicidade, da justiça. Universal e
intemporal, a caracterização efectuada pelo western arrasta consigo, porém,
uma personagem rara. A questão central colocada por Man With The Gun é acerca
das motivações do “town tamer”. Abandonado pela mulher, Clint Tollinger chega
com a intenção de perceber porque foi abandonado e o que é feito da filha de
ambos. Nelly Bain (Jan Sterling) dirige agora um bordel em Sheridan, afastada
do passado e concentrando a sua acção nas prostitutas que para ela trabalham no
saloon da cidade. Tollinger ficará também a saber que a filha de ambos morreu.
Toda esta situação promove no seu íntimo indisfarçáveis sentimentos de
revolta, ódio e vingança, transformando-se a personagem num palco trágico onde
os métodos aplicados na profissão ecoam a raiva recalcada da vida pessoal. As
duas dimensões (pessoal/profissional) parecem inseparáveis, convergindo para
uma espécie de testemunho sobre a forma de entender a arte e, neste caso, o
cinema, enquanto expressão, mais do que transfiguração, de aspectos íntimos da
personalidade e da experiência pessoal daquele que cria. Deste modo, Richard
Wilson concebe o cinema como um reflexo da própria vida filtrado pela
representação. A sua linguagem dispensa alegorias e assessórios metafóricos,
mas não é por isso que deixa de ser profunda.
terça-feira, 18 de março de 2014
ODE DO AGRAVO GERAL
Conspiração de anónimas sobrevivências,
Uma estátua
É onde a ingenuidade se compensa.
Para tal
Tanto serve o herói que podia ser santo
Como o santo
Que podia ter sido coisa nenhuma.
Grinaldas
São ocupações que se procuram
A fim de reconciliar a mão esquerda que quer estrangular
Com a mão direita
Que quer estrangular.
E os jardins sempre repletos de homenagens...
Cada flor é a biografia dum herói que morreu pela Pátria.
Os amantes são o acordo de ambas as partes
Com honra para a causa comum que se chama noite
Ou dia
Ou noite
Ou dia.
E ninguém percebe que essa harmonia
É uma troca de cartões de pêsames
Por uma morte que se deu
Ou que se vai dar
E que se espera sem revolta.
Apesar de tudo estamos aptos a fazer a revolta
Como quem faz escalas num piano alugado.
Onde estão as bocas dos profetas
Sensíveis nas raízes?
Se chegaram a florir
Nenhuma pétala articulou uma sílaba dos seus nomes
Para formar a corola do mito que faltava.
Se chegaram a morrer
Nenhuma morte nos elucidou sobre o nosso desgosto ou a nossa alegria
E assim tivemos de continuar indiferentes.
Há coisas muito mais importantes
Como contar de um até dez
E de dez para trás.
Porque as histórias só têm uma moral quando chegam a ser contadas.
As outras ofendem a inocência das crianças.
Os sacerdotes irão trocar estas verdades
Por outras verdades correspondentes
E ainda receberão troco.
Será o grande dia para os que pedem à porta.
Bem entendido
Que estamos todos muito satisfeitos com a Humanidade.
Se ela é uma abstracção que nos convém
Visto que constrói por fora
A insularidade connosco concebida por dentro!...
Mas por que razão
Sempre que plantamos uma árvore
Nasce um sapo em vez duma árvore
Ou o contrário
Em vez de qualquer outra coisa?
Somos na verdade exigentes
Em querermos comparar-nos aos soldados
E os soldados aos professores
E os professores aos cangalheiros
E os cangalheiros aos dentistas
Que são pessoas responsáveis que vão passar fora todos os fins-de-semana.
É injusto andar-se para aí a falar mal dos ladrões
Quando todos temos casas para serem roubadas.
Quando todos somos pretextos de ladrões.
Pior do que esta ingratidão
Só a ingratidão dos ladrões que não nos roubam a casa.
É certo que há evidências
Como superfícies que o sol doura.
E há o nome de Deus
Para que ele nos dê o nome de homens.
E há o nome de pássaros
Que se dá aos homens que trazem a fome pendurada no bico
E nem a engolem
Nem a deixam cair.
Nem mais. Nem menos.
O crime perfeito.
Se não fosse perfeito não era o crime.
E se não houvesse crime?
Chegaria na verdade a haver perfeição?
Nenhuma pergunta ficará sem resposta
Porque ninguém quer passar por ignorante.
Eu própria
Fiz este poema que não completei
por excessiva paixão da sua forma:
«Nosso Senhor rosa final
Do meu tormento em linha recta!
Do Teu modelo em lodo e sal
Te ofereço a seiva ritual
Da minha veia mais aberta.
Eu sou a Nossa Senhora
Das sete luas mortais
Que derretem Teus sinais
Nos segredos e nas horas...»
Reticências deste poema...
Perturbação visível de olhar marítimo
Sem rosto de marinheiro para se encaixar.
Dum lado a gare.
Do outro a natureza.
Carcaças de navios no limiar do naufrágio que nunca se dá.
O que quer que seja
Verticaliza-se no âmago do vazio.
Todos trazemos esse espinho
Cravado onde não dói.
Recebemos dos mortos a encomenda de cantar a vida
Para defender a sua área
Da invasão dos suicidas.
Recebemos a encomenda de nós mesmos:
Fraude involuntária da psicologia geral
Concretizando medo
No nosso fantasma particular.
Mas há o heroísmo das anedotas
Como há domingos
E há a cantata dos piqueniques
Neste coro singelo de pública imoderação:
«Abandono-me à paisagem
No verde que lhe decoro.
Que brisa moldou a face
Da outra face que ignoro?
Rosa pétalas de lume
De que fogueira apagada?
És a forma do ciúme
De não prenderes o teu nada.
Não há mais nada que a noite
Que é noite não sei porquê.
Espelho partido em astros,
Reflexo só do que é.
Tudo se passa ao contrário
Do que o sonho representa.
É o enredo voluntário
Que o coração nos inventa.
É o pacto da vigília
Com as esquinas dos acasos.
Uma esmola feita à morte
Transbordante em olhos rasos.»
Tudo ficou como dantes.
A percussão do violino.
É tudo ficar como dantes.
Um homem que se descarna para ser poeta
Sem fazer nenhum pacto com o diabo.
Há sempre a música de não haver um tema
Para os poetas conhecidos como tal.
Olham uma árvore
Vão a um enterro
Ou à força de tanto cantar
Acabam por achar um poema.
São oportunos e persistentes
E quando dizem que uma flor
É um flor
São tão honestos e tão categóricos
Como qualquer homem que vê uma flor
E a descreve com palavras diferentes.
A relação do poeta
Da música
E da flor
Constrói uma harmonia
Como uma coluna ou uma estátua
Nimbadas de glória exterior.
E eu
Que troco o nome de todas as coisas
Porque as coisas que têm um nome
Estão afogadas na sua imagem mais finita
E perceber o erro da evidência
É descobrir que Deus é Deus
Porque recusa uma aparência?
E tu
Que da própria memória esquecido
Recordas em cada horizonte
Só a memória de ter sido?
Chegaremos um dia a saber se éramos nós
Tu
E
Eu
A gare do outro lado da natureza?
Oniricamente continuamos insatisfeitos.
Dá excessivamente para a compreensão do sonho
A porta da vigília.
O êxtase do lírio
É o eixo da teoria
Em que esfericamente nos vamos explicando.
Sempre até onde recomeça a explicação.
Livres pássaros da verdadeira era exilada na garganta
Estilhaçando a nossa voz em múltiplas palavras!...
Flor aquática à tona do meu próprio silêncio
Pudesse eu ser
Só cimo suspenso
Do fundo mudamente demonstrado em superfície...
Consequentemente
Uma rosa
Incessantemente fabricada pela
Nossa vontade.
Uma rosa!
Com que escamoteamos
À nossa natural subida
Até tigre
A dimensão da inocência.
El-Rey
E o país que se prepara para esperar El-Rey de sobrecasaca.
Foi o dia em que enterraram D. Sebastião.
D. Sebastião sem El-Rey.
Ficou o El
E ficou o Rey
E vestiram ambos de sobrecasaca.
O mistério tornou-se grave
A fim de evitar o remorso das coisas quando mistério
Reabilitando-as pela gravidade;
A fim de que não sobeje nem um milímetro de mundo
Quando medido pelo nosso corpo
Premeditadamente cadáver;
A fim de operar pela mágica dos espelhos
Uma síntese aplicável
Dos nossos vampiros sem aplicação.
Mas há o tempo que tem cabelos
Onde pomos uma flor
Para se parecer com um rapaz ou com uma rapariga.
E há a noite que tem seios
Onde chupamos o leite das estrelas.
E há o dia que não tem nada
E que cada um quer para si.
..............................................................................
De todas estas ausências fiz o homem:
A tristeza que fica das coisas que se vão.
Eu
E
Tu
Reminiscência do que podia ter sido
Se não fôssemos mais do que exclusão.
Natália Correia (n. 1923 - m. 1993), in Dimensão Encontrada (1957). Escreveu ensaio, romance, poesia, organizou antologias. Com
uma obra poética extensa, não tem merecido da crítica e da historiografia oficiais
especial atenção. A personalidade polémica explica, em parte, a exclusão. Chamaram-lhe
tudo quando deviam ter-lhe chamado apenas poeta. A estreia deu-se em 1947 com
Rio das Nuvens, livro ainda distante da voz mais valiosa. Sátira e erotismo
contrastam com a linguagem hermética e as referências cabalísticas de grande
parte da produção reunida em dois volumes com o título O Sol nas Noites e o
Luar nos Dias (1993). De uma coragem cívica ímpar, afrontou preconceitos e
estereótipos num país ainda hoje assaz reverencial. Sofreu as consequências, ora
censurada pelo discurso oficial, ora alimentando ódios entre os pares. Mas
tamanha controvérsia também fomentou admirações desmesuradas. Importa sublinhar,
antes de mais, a pluralidade de discursos na sua poesia, a inclinação surrealista, o sentido pagão do poético,
uma noção alquímica da palavra que a levará a dizer: «não sendo escassas as
balas que, em poemas, disparei contra a univisualidade do mostrengo das coacções
fascio-puritano-pirosas, não me faltando também no arsenal as que estavam a
pedir certas peneiras autoritárias com cravos de Abril na fala, não foi pelo
manual de um neo-realismo, com o qual aliás sempre embirrou o meu duende literário,
que me fiz atiradora».
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