terça-feira, 8 de julho de 2014

RESTOS

Acontece-me por vezes ser surpreendido pelos restos, pelo que fica para lá do aproveitável. Certos poetas, não necessariamente os que publicaram pouco e deixaram muitos inéditos, interessam-me mais pela lateralidade do que pelo chamado corpo canónico do seu trabalho. Aos restos, os críticos tanto podem chamar “poemas de valor duvidoso” como “poemas de valor porventura menor”. Estou-me nas tintas, até porque tenho há muito para mim que o valor de um poema está mais no que diz a quem o lê do que no que alguns querem que ele diga a quem nem sequer se dá ao trabalho de o ler. Ao regressar a Cristovam Pavia, voltei a deparar-me com os restos de um poeta a quem agradeço toda a comida deixada no prato. Confesso que prefiro essa à outra, vá lá perceber porquê. Exemplos:

Construiu a poesia como uma casa
E fechou as janelas por dentro.
E ficou fechado lá dentro.
Depois foram abertas todas as torneiras
E a casa desceu no espaço
Como uma gota de água.

***

O Senhor que foi à fonte
Encontrou um lubizonte
Que se abespinhou com ele…
Foram os dois para um talho
Comer carne de porcalho
E também de um urso reles
Comeram pêlos e peles
E através de um discurso
Ressuscitaram o urso
E o urso deu cabo deles.

***

LITANIA DA RUA DOS FANQUEIROS

Ó porque será este chulé ibérico
Em Espanha é pitoresco mas aqui é pindérico
    Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Salazar com teu rebanho de sacristas
Pensar que isto já foi terra de sardinha assada e de fadistas
     Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Lisboa ó Lisboa enjoada e indecente
Ó cidade sifilítica, são carochas ou gente?
    Ó rua dos Fanqueiros
Ó Portugal minha pátria de meia-tigela
— Aqui para nós, passa-se tão bem sem ela!


***


Escrevo em papel de retrete
Os meus ditos poemáticos,
Meus poemas também ditos
Meus por assim dizer escritos
Escritos porém na retrete
Porquê porém, como o frete
De rimar retrete e gritos
Que mais não são que soluços
Pruridos de literatura
Da alma estéril e dura
Porquê soluços? Arrotos,
Para dizer mais chãmente…
(Falta rima para arrotos:
Embora literariamente,
Talvez o mais coerente
Ainda seja: esgotos.)



São brevíssimos exemplos de um poeta descomprometido, sem constrangimentos formais, temáticos, sem preocupações de organização ou coerência. Muito provavelmente, estes poemas são ocasionais, não foram escritos a pensar num livro, surgiram livremente, de um improviso, com a espontaneidade de um arroto. Para mim, isto é o que há de mais belo na poesia. O resto é escrita criativa.

2 comentários:

Rui Almeida disse...

Um poeta de quem a obra conhecida é feita apenas de restos é José Bação Leal, sobre quem Ruy Belo escreveu. Se ainda não conheces tens de conhecer.

hmbf disse...

Conheço alguns desses restos, sim. :-)

Saúde,