sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PENSAR SOBRE O ASSUNTO



Outros méritos não tivesse, Luiz Pacheco teria, pelo menos, o de enquadrar com crueza justificada um tempo que foi o seu (e que, de certa maneira, ainda é nosso). O país fascista, dos caciques e das cotadas, o país do arrivismo cultural e da calacice, esse país que durante 40 anos trouxe todo um povo a dormir sobre a mentira, é denunciado nos textos de Pacheco sem panos quentes nem pensos rápidos. As feridas aparecem apenas tratadas com a ironia e o lado caricatural do sátiro, capaz de confissões abjectas e de lamentos ternurentos. De vez em quando regresso a Luiz Pacheco, talvez na ilusão de que não me esquecendo de como foi posso melhor lembrar-me de como é. No segundo volume de Textos de Guerrilha, prosa intitulada Os Malefícios (e o grotesco) da Censura, dedicada a Os Segredos da Censura, livro de César Príncipe, oferecem-se exemplos vários do «espírito miudinho e mesquinho, francamente idiota», que então reinava. Eis alguns espantosos exemplos de censura que tornavam Portugal um paraíso onde nada havia e pouco acontecia:
 
5/1/67. «Primeiro turista de 1967 — não dizer que é operário.»
 
31/3/67. «Achado um feto embrulhado em papéis, em Algés. Eliminar que os rapazes andavam a jogar a bola com ele. Coronel Pinheiro.»
 
30/4/67. «Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.»
 
24/9/67. «Funeral do capitão Augusto Casimiro. Não referir o facto de não ter havido viatura militar disponível para o transporte do caixão. Pode ser noticiado o casamento dum soldado alemão na Base de Beja com uma portuguesa — mas sem especulações.»
 
30/7/68. «Em Soutelo uma rapariga suicidou-.se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.»
 
20/8/68. «Transferência dos moradores do Bairro Xangai. Não usar a expressão «bairro de lata» por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.»
 
28/8/68. «Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros.»
 
29/8/68. «Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas.»
 
25/10/68. «Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. Major Tártaro.»
 
28/4/69. «Fotografia do Prof. Salazar com o Cardeal Cerejeira, em que ele está um bocadinho descomposto. Não se deve publicar. Coronel Roma Torres.»
 
12/12/69. «Aumento do preço do corte de cabelo. — CORTAR. Coronel Saraiva.»
 
29/1/70. «As montras dos estabelecimentos de Coimbra estão às escuras — CORTAR. Capitão Correia de Barros.»
 
26/4/70. «Queima das Fitas do Porto. Espectáculo no Teatro Sá da Bandeira com baladas — CORTAR o nome do abade Fanhais. Mas, para não se notar o CORTE, é melhor CORTAR os nomes de todos os intervenientes. Não pôr em título a palavra aborto. Coronel Saraiva.»
 
22/6/70. «Lata de tinta vermelha atirada contra Heath — CORTADA a gravura e a legenda. Penafiel: um jornal tinha um título: «O bispo do Porto destacou a vantagem de nos voltarmos para a Europa.» Só pode ser assim: «O bispo do Porto em Penafiel.» No texto é CORTADO tudo o que seja política, visto que um bispo não tem de falar em política. Coronel Garcia da Silva.»
 
23/7/70. «Sismo em Sines — CORTAR. Dr. Ornelas.»
 
2/8/70. «Quanto ao pedido de não publicação da notícia do desastre e morte do filho do almirante Henrique Jorge, na estrada de Santo Amaro — pedido do secretário de Estado da Informação e Turismo — ainda hoje não se pode falar do desastre. Sindicato Nacional de Metalúrgicos, que discordam de uma homologação feita pelo governo e que mandaram telegramas. Coisas assim — NADA. O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram. Coronel Saraiva.»
 
18/9/70. «Descarrilamento em Chaves — NADA. Tenente Teixeira.»
 
1/10/70. «Foi fundado o Sindicato dos Técnicos de Desenho. Não dizer que tal fundação havia sido pedida há mais de 30 anos. Capitão Correia de Barros.»
 
2/10/70. «Assembleia Geral do Círculo de Cultura Teatral — MANDAR. Lisboa quer MUITO CUIDADO com as coisas do TEATRO. Coronel Saraiva.»
 
30/10/70. «Não dizer, em título, que Nixon saltou da janela em pijama. Coronel Garcia da Silva.»
 
20/12/70. «Gravura do actor Rogério Paulo na TV cubana. Não pode ser publicada. Coronel Garcia da Silva.»
 
21/1/71. «No Supremo Tribunal de Justiça foi julgado o recurso de um chefe de posto de Angola que bateu num preto e o preto veio a falecer. Foi julgado e condenado — CORTE TOTAL. Coronel Saraiva.»
 
1/4/71. «Gravura da casa de Salazar, dando a perceber que está a cair — CORTAR gravura e legenda. Não é verdade. Talvez ande em obras. Tenente Teixeira.»
 
6/6/72. «O editor de Afrodite, que há tempos apresentou um livro metido numa banheira, vai agora fazer uma conferência muda e itinerante numa camioneta. Toda a palhaçada se pode noticiar. Mas nãos e pode falar em textos inéditos de Manuel João Gomes, do bispo do Porto, do padre Felicidade Alves e do Dr. Fernando Luso Soares. Coronel Saraiva.»
 
12/8/72. «No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos — vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»

2 comentários:

Rui Almeida disse...

Nesse livro consta também um telegrama da censura com uma chamada de atenção às redacções para o facto de uma agência internacional ter noticiado a invasão de Timor pela Indonésia, mas tratar-se apenas da peta do 1 de Abril. (mais logo vou ver se encontro)

José A. disse...

Viva o Pacheco e a Antologia que finge sofrer do Esquecimento.