quinta-feira, 4 de junho de 2015

BEND OF THE RIVER (1952)

 
Já tenho referido a importância do argumentista Borden Chase (n. 1900 – m. 1971) na edificação daquilo a que podemos chamar o mito do homem americano, alicerçado numa cultura popular que encontrou no western um dos seus pilares fundamentais. Filmes como Red River (1948), de Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977), este Bend of The River (1952) e The Far Country (1954), de Anthony Mann (n. 1906 – m. 1967), ou mesmo Vera Cruz (1954), de Robert Aldrich (n. 1918 – m. 1983), e Backlash (1956), de John Sturges (n. 1910 – m. 1992), são excelentes exemplos de uma obra onde a moral cristã sobressai entre os escombros de uma humanidade assaltada pelo vício. Com a vontade iluminada pelo bem, os heróis de Borden Chase são figuras bíblicas em território norte-americano, esse paraíso corrompido pelo pecado a renascer perpetuamente pelas mãos perseverantes e determinadas de indivíduos corajosos, de sentimentos nobres, capazes de distinguir o bem do mal como uma maçã podre de uma saudável.
A metáfora da maçã surge em Bend of The River/Jornada de Heróis enquanto leitmotiv de uma história onde a fé nos homens se alimenta do livre arbítrio ao qual se entrega o destino das almas, tornando assim a consciência do pecado e a vontade de mudar o princípio de um perdão que é, para o bem e para o mal, a lei absoluta da moral cristã. Não importa o que foste no passado, conquanto as tuas decisões no presente reflictam o que pretendes ser no futuro. As personagens interpretadas por James Stewart e Arthur Kennedy são, deste modo, uma espécie de Caim e de Abel que se confrontam por neles existir uma vontade de mudança com intensidades diversas. Arthur Kennedy é Emerson Cole, o salteador do Kansas que Glyn McLyntock (James Stewart) salva da forca por mero acaso. Foi Deus que os juntou nesta jornada a caminho das terras banhadas pelo Columbia River, onde um grupo de agricultores pretende instalar-se para levar uma vida sã sob os auspícios do Senhor. Fogem do pecado que contaminou as terras do Missouri, guiados por um ex-salteador que esconde o seu passado em busca da confiança desta gente entre a qual pretende refazer a vida e viver o futuro.
O que temos aqui em causa é o problema da natureza humana, da singularidade dos homens e da sua inconstância. Nascerá um homem com o destino marcado? Pode a natureza humana ser educada? O pecador tem salvação? Emerson Cole é a maçã podre sem cura nem tratamento, incapaz de resistir às tentações do ouro e das suas febres fatais. É o pistoleiro que não hesita na hora de disparar, advertindo os companheiros de que o perdão mata. Por isso ele atira a matar quando outros atiram a dissuadir. Errático, inconstante, prefere qualquer recompensa material a um humilde agradecimento. Glyn McLyntock é a outra face da mesma moeda. Também ele foi pistoleiro, as marcas da corda no pescoço são cicatrizes que pretende esquecer. Quando interrogado sobre aquilo de que foge, responde fugir de si próprio. É um homem em busca de uma nova vida, quer reconstruir-se e por isso resiste, em nome disso retrai-se, também por isso hesita, mas sem nunca vacilar na sua determinação como um toxicodependente totalmente empenhado em recuperar-se. Aproxima-se dos colonos e serve-lhes de guia, quer provar a si próprio e, por consequência, aos outros que não é como uma maçã podre, que é um homem e que os homens podem mudar, podem controlar a sua natureza, podem resistir, podem escolher a via do bem depois de terem crescido na via do mal.
A encruzilhada onde os dois se cruzam é a encruzilhada da ética cristã, filmada por Anthony Mann com um respeito que não põe em causa os preceitos algo reaccionários de Borden Chase mas que de algum modo os problematiza. McLyntock terá de matar Cole depois de lhe ter salvo a vida, para que os colonos sobrevivam um grupo de mineiros irá provavelmente morrer à fome e ao frio. Porquê optar por uns em detrimento de outros? Porque uns plantam árvores e os outros garimpam? Talvez a resposta esteja em Julie Adams, a bela Laura Baile, filha do líder dos colonos, Jeremy Baile (Jay C. Flippen), quando convalescendo de uma seta espetada no ombro escuta a música que vem das ruas e diz, com ar pesaroso, que por vezes dançar enleva mais o espírito do que o sossego. É este o dilema das almas desassossegadas: incapazes de se adaptarem ao entediante sossego do lar, ficam à distância a escutar o rufar dos tambores com a vontade reprimida no coração. McLyntock não foi mais forte apenas por estar do lado certo. Foi mais forte porque não reprimiu a sua vontade na hora de escolher.

Sem comentários: