sexta-feira, 19 de junho de 2015

DOIS POEMAS DE HENRI MICHAUX

ONDE POUSAR A CABEÇA?

Um céu
um céu porque já não existe a terra,
sem uma asa, sem penugem, sem uma pena de pássaro, sem névoa

estritamente, unicamente céu
um céu porque já não existe a terra

O horror, o desespero, depois da explosão de grisu na cabeça
depois de não haver mais nada, depois de tudo derrubado, devastado, impossível a saída

Um céu glacialmente céu

Agora obstruído, fechado, atulhado de resíduos
céu por causa das dores de cabeça da terra
desprovida de céu

um céu porque já não existe sítio nenhum onde pousar a cabeça

Impedido, reduzido, escondido, cortado, desfeito, intermitente, irrespirável nas explosões e fumaradas
que já não serve para nada

um céu doravante irrecuperável


Henri Michaux, traduzido por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda - Poemas Mudados Para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim , Dezembro de 1997, pp. 116-117.


***

ONDE POUSAR A CABEÇA?

Um céu
um céu porque a terra já não existe
sem uma asa, sem penugem, sem plumagem de pássaro, sem condensação

estritamente, unicamente céu
um céu porque a terra já não existe

Depois da explosão de grisu na cabeça, o horror, o desespero,
depois de já não haver mais nada, tudo devastado, metido a pique, sem saída

um céu glacialmente céu

Presentemente obstruído, bloqueado, atravancado de destroços;
céu por causa da enxaqueca da terra
desprovida de céu

um céu porque já não há sítio nenhum onde pousar a cabeça

Atravessado, encolhido, amolgado, roído, desfeito intermitente, irrespirável no meio das explosões e dos fumos
que não serve para nada

um céu doravante irrecuperável


Henri Michaux, traduzido por Margarida Vale de Gato, in Antologia, Relógio D'Água, Agosto de 1999, pp. 286-287.

1 comentário:

Miguel (St. Orberose) disse...

Diferenças minúsculas: na tradução de Margarida Vale de Gato, aquela plumagem bate a pena, e a ordem das palavras do segundo verso flui melhor.

Mas 'Agora obstruído, fechado, atulhado de resíduos,' por exemplo, tem menos cacofonia do que 'Presentemente obstruído, bloqueado, atravancado de destroços.' Este do-de-do no fim dói aos ouvidos.

Sempre uma arte fascinante e complexa, a tradução.