quarta-feira, 24 de junho de 2015

OBRA-PRIMA DE RELOJOARIA

   A poesia do século XX vive, em grande parte, do ponto de vista formal (mas sabemos que a forma não existe como coisa independente do objecto total que é o poema), da tensão entre dois pólos ou vectores da sua dinâmica criadora: liberdade e rigor. Ou, por outras palavras, desconstrução e construção.
   Paralelamente à noção, por vezes à reivindicação, de que, na poesia, todas as regras fossem abolidas e tudo passasse a ser possível, existiu, com alguma frequência, uma enorme vontade de recuperar modelos e normas, ou inventar um novo conjunto de regras, bem mais radicais, em certos casos, do que as que vinham da tradição clássica.
   Vemos também como, até aos nossos dias, os sonetos nunca deixaram de ocupar um lugar de relevo na poesia, constituindo mesmo desafios a novos usos da linguagem poética, dentro de limites de métrica e de rima, flexíveis ou rigidamente respeitados, de Pessoa a Sá-Carneiro, a Sena, Carlos de Oliveira e Ruy Belo.
   Ruy Belo não apenas revisitou, com frequência, o modelo do soneto, como, para um poema paradigmático, «Um dia não muito longe não muito perto», estabeleceu uma estrutura particularmente fechada, que ele próprio descreve no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra[s]:
 
   Em «Um dia não muito longe não muito perto», meditada previsão da minha ambicionada morte, edifico o poema sobre as palavras-rima «farto», «perto», «hirto», «absorto», «surto», em que faço suceder as vogais a, e, i, o, u, para depois recoligir as palavras-rima em dois simples versos - «um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto / não muito perto desse tal surto» - e fazer rimar consonanticamente «absorto» com «morto» dentro, creio eu, de um clima de fluidez que não altera o mínimo que seja a naturalidade do que tinha para dizer (Belo, 1997: 29).
 
   É esse «clima de fluidez que não altera o mínimo que seja a naturalidade do que tinha para dizer» que faz deste poema uma obra-prima de relojoaria discursiva, a qual, obviamente, não impede, antes potencia, o fulgor poético.
 
Gastão Cruz, in Construção e Desconstrução em poemas longos de Ruy Belo, in Literatura Explicativa - ensaios sobre Ruy Belo, org. Manaíra Aires Athayde, Assírio & Alvim, Junho de 2015, pp. 98-99.
 
 
UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO
 
Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
 
 
Ruy Belo, in Homem de Palavra[s], 5.ª edição, introdução de Margarida Braga Neves, Junho de 1997, Editorial Presença, p. 83.

2 comentários:

Miguel (St. Orberose) disse...

Isso não é uma rima, é um homeoteleuto.

Anónimo disse...

sempre coisas boas por aqui. eu roubo.
abraços.

Gorette