quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DECEPÇÃO À REGRA


Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?


João Luís Barreto Guimarães (n. 1967), in Luz Última (2006). «João Luís Barreto Guimarães, quiçá o mais barroco dos poetas que desdenham da novidade pela novidade e das babugens meta-qualquer-coisa, (...) tem revelado um gosto particular pelo carácter lúdico dos versos e pela recriação das formas poéticas, sendo sobremaneira sensível aos jogos de palavras, às elisões, aos parêntesis e à focalização no detalhe, em situações e em objectos correntes. Processos que, juntamente com o modo breve, elíptico e metonímico com que o autor procede à enunciação de um quadro familiar, doméstico ou outro (...), contribuem para toda uma arquitectura de estranheza, mostrando que o mais insólito continua a provir da trivialidade» (Carlos Bessa, Expresso). «João Luís Barreto Guimarães escreveu muitos poemas lúdicos de tão formalistas. O volume 3 (Poesia 1987-1994), publicado em 2001 na Gótica, inclui nomeadamente sonetos experimentais (mas acessíveis) com diversos jogos de palavras e de disposição em página. Nada disso escondia o cunho essencialmente emocional dos poemas (que evocavam os amigos, as despedidas, a idade adulta), que em livros posteriores se prolongou em anotações algo melancólicas sobre a domesticidade e o quotidiano. Talvez a inquietude formal de alguns desses poemas escondesse o seu pathos, sempre cuidadosamente sabotado» (Pedro Mexia, in DN).

3 comentários:

Luiz Santos-Roza disse...

Tenho a certeza de que se alguém tivesse escrito

Sentar-me e ver os outros passar é o meu exercício favorito. Entretém. Não esgota. É gratuito. Neste meu jogo-do-não são os outros que passam (é aos outros que reservo a tarefa de passar). Lavo daí os pés. Escrevo de dentro da vida. Pode até parecer que assim não chego a lugar algum mas também quem é que quer ir ao sítio dos outros?

num blogue, ninguém olharia para isso duas vezes.

Há uma entrevista de Antonio Tabucchi onde ele fala sobre como uma vez Alexandre O'Neill lhe pediu um poema; Tabucchi respondeu que não sabia escrever poemas; O'Neill sossegou-o; era só uma questão de mudar de linha antes de chegar ao fim da margem.

Realmente é isso, não é, escrever poesia hoje em dia? Pegar num bloco de prosa banal, sem qualquer virtuosismo verbal, sem uma única frase fora do comum, sem figuras de estilo, passível de ver a ordem das palavras alterada sem destruir qualquer harmonia interna, desfazê-lo por versos aleatórios, e voilá, eis mais um poema!

Exigo muito mais dos poetas.

Diogo C. disse...

no seguimento do comentário do Luiz Santos-Roza, gostava de perguntar ao Carlos Bessa se as «babugens meta-qualquer-coisa» não fizeram dele o que é hoje. Ou seja, inteligente. Inteligente o suficiente para, depois de perder o pudor e umas quantas virgindades, armar-se em herói pós-modernista e, em caro: elogiar o banal. Ou seja, burro o suficiente, também. Decorre disto que, para mim, que não sou nenhuma autoridade em teoria da literatura, esta invasão do trivial na poesia só a desmerece. Na prosa, na prosa que tenta ser o eco do tempo, vejo vantagens, desde que o autor se saiba criticar.

agora, qualquer um escreve que escreve «de dentro da vida» e está apresentado um poeta. Será esta a morte da poesia?

Jorge Melícias disse...

Deixe lá isso Luiz Santos-Roza, hoje a poesia é o lugar do amiguismo e atrás de cada amigo há sempre um génio.