segunda-feira, 12 de outubro de 2015

RACISMO IDEOLÓGICO

Assim vai a democracia pluralista portuguesa: o plural é muito conveniente, desde que se mantenha no singular. E a singularidade de tal democracia encontra no seu actual Presidente da República um representante à altura. Exemplos não faltariam a quem quisesse explicar ao mundo como é possível uma múmia falar, ainda que contra todas as expectativas e estudos científicos disponíveis. Mas fala. E quando fala diz coisas tais como o tipo de Governo que quer, mesmo que ninguém lhe tenha perguntado. Ora, caberia alguém perguntar a Cavaco, por obséquio, se podemos ser nós, portugueses, a indicar-lhe com os nossos votos a solução que desejamos, e não ele, com a sua palavra de múmia adelgaçada, a impor-nos o seu perfil ideal de Governo. É que nisto da democracia, caberá lembrar, o voto popular é, ou pelo menos deveria ser, soberano. E o voto popular diz que a PáF teve mais votos, mas não tem a maioria do parlamento. A maioria do parlamento ficou na oposição. 
O povo só manda até certo ponto, é certo. Aquele certo ponto em que deixa de ser clara a sua expressão e passa a estar sujeita às leituras dos especialistas em povo, os hermeneutas da vontade popular, os teóricos da legitimidade democrática, os tais para quem governar um país é como impor uma ementa de prato único. There is no alternative, o tanas. O tanas para a TINA! Foi isso que disseram PCP e PEV e BE e PAN ao fazerem chegar a mensagem de que não inviabilizariam um governo de esquerda liderado pelo PS. Claro está que medos antigos vieram à tona, receios de inquietação conservadora, a fobia das revoluções, uma espécie de alergia ao vermelho da mudança que transforma as ilustres vozes do pluralismo em séquitos bem educados da governabilidade, do arco da governabilidade, da alternância democrática. Entenda-se que nunca ninguém disse ser a alternância o mesmo que alternativa, lá nisso temos de conceder. De facto, a alternância fica agora explicada pelos comportamentos e pelas atitudes de certos socialistas socialites (ou será socialights?). É pena, e até desconfortável (se querem que vos diga). 
Venho de uma família que passa o tempo a apontar-me a intransigência dos comunistas, a lengalenga do estar sempre do contra, a ausência de espírito cooperativo (foda-se, o que eu tenho ouvido!), e agora, quando o PCP diz avança pela política de esquerda adentro que estaremos contigo, ai Jesus, é a nossa desgraça! A Clara Ferreira Alves que não esteja preocupada com esses a quem se dirige por “aquela gente”, ninguém obrigará que todas as mulheres portuguesas tenham um penteado igual ao seu. Facilmente verificará que o Partido Comunista é muito mais pluralista do que julga. Pelo menos, aceita a pluralidade democrática que as conveniências do arco do poder (o mesmo da governabilidade) parece temer. O comunismo é mau, é péssimo, excepto para manter ordeiras as hordas revolucionárias. É isso? Ou seja, serve para estar a um canto, não serve para aprovar orçamentos de esquerda. É isso? A miserável URSS foi um bocadinho menos miserável quando ajudou a travar os nazis. Fora isso, era uma pobreza. É isso? Isso já foi há tanto tempo, senhores. 
Afinal qual é o conceito de democracia representativa que defendem os bons democratas portugueses? Falo dos bons por oposição aos maus, que são os que se reúnem para conversar, procurando consensos, isto é, pontos de encontro, convergências, aquelas coisas que o Cavaco deseja desde que venham da direita. Vindo da esquerda, são o Diabo!!! A correr com os consensos e com a convergência e com os encontros… Fora… a esquerda quer-se estilhaçada, a direita quer-se unida. A direita unida jamais será vencida. É isso? Ora acalmem-se e aclamem-se. A democracia representativa também é possível quando a esquerda fica muito representada, não é um exclusivo das bancadas destras. O inimaginável dos últimos dias só o é para quem não tenha imaginação, para quem passe a vida a imaginar olhando para o próprio umbigo e para a panela onde cozinha as aventuras plutocratas e oligárquicas dos mandantes europeus. 
Certo é, e fique escrito, e atentem-se, que chegando à governabilidade unidos, os partidos da esquerda portuguesa encontrarão os seus maiores inimigos (não digo adversários) lá fora, ou seja, nos arcos da governabilidade da Europa Unida, a que impõe austeridade aos povos para que os mercados possam ejacular de contentamento, a que olha para o ISIS como se não existisse, e faz de conta que os refugiados sejam gente, e aceita no seu regaço fascismos como o húngaro. Daí chegarão os mísseis, não duvidem. Mesmo um pequeno país como Portugal, tão dado a bons comportamentos e regalias de aluno de mérito, não escapará às garras da TINA. 
A modos que o anti-comunismo primário de um tal Pedro Marques Lopes só é aceitável até certo ponto, isto é, o de ser primário. Quando chega ao secundário, perde sentido. Porque se esquece de um pormenor  fundamental: se para os democratas portugueses só existem dois partidos de governo (PS e PSD), mais um que pode servir-lhes de estribo (CDS), então o melhor seria que todos os outros desaparecessem ou passeassem até à clandestinidade. Era assim no tempo da outra senhora, parece manter-se assim, embora de forma enviesada, no pensamento destes senhores que ora opinam. Tanta angústia com a abstenção dá nisto: entre os que votam, contam mais uns do que os outros. 
Depois temos a clarinha preocupada com a falta de experiência governativa do BE e do PCP, mesmo quando nenhum destes disse que queria formar governo. A preocupação da clarinha deixa-nos esclarecidos sobre duas coisas: primeira, para a sua mente brilhante só poderemos, agora e sempre, ter governos PS e PSD (os outros não têm experiência nem é suposto que adquiram); segundo: estamos condenados às lágrimas que Marcelo Rebelo de Sousa verterá por nós, esse grande político português, com uma experiência governativa sem igual, que por certo será o Presidente da República que a clarinha ambiciona neste desgraço país onde, por vontade de uns tantos conservadores primários, seríamos para todo sempre vítimas de “racismo ideológico”. 

5 comentários:

Luis Eme disse...

Parece que voltou o "papão" do comunismo, quarenta anos depois.

Somos um país muito estranho mesmo.

hmbf disse...

Sintomático: a quantidade de notícias associadas ao termo comunismo que têm vindo a lume na imprensa, geralmente sobre a Coreia do Norte, a mais recente Nobel da Literatura (crítica da URSS), refugiados cubanos, etc. & tal, para não falar de Angola e China... Esta associação permanente de uma ideologia ao lado negro da sua materialização faz-me espécie. É como se sempre que falássemos da Igreja Católica tivéssemos que falar de padres pedófilos e da Inquisição e das simpatias nazis... É como se não fosse possível falar de EUA sem pensar no KKK, nos atropelos aos direitos civis e humanos, prisões, torturas, perseguições... É como se para falar de Portugal tivéssemos que falar dos negreiros em vez das caravelas. Imagine-se se começássemos a olhar para a democracia só pelo que nos tem dado de mau, por exemplo, para não ir mais longe, o tratamento dado recentemente aos refugiados, as perseguições a Snowden e Asange. Seria bom que começássemos a discutir conceitos sem estarmos arreigados aos preconceitos que os traem.

Emmanuel disse...

God is love! :heart: Catholic blogwalking :-) http://emmanuel959180.blogspot.in/

rff disse...

Quando as elites intelectuais do país no bendito ano de 2015.. são isto (aqui representadas pela pavor ao papão comunista e os beijinhos ao martelo da clarinha...)convém sublinhar que falamos dum país sem qualquer tipo de viabilidade..

Tristan Reveur disse...

epá os comunistas ainda comem criancinhas?
julguei que eram os chineses e os pedófilos.

quanto à Clarinha viva a social democracia liberal e fascista
axo que a ouvi dizer. quem havia de dizer, nunca pensei.

O PR já se sabe é um cobardolas esperamos que tome a decisão errada
nomear a tal de Coligação para formar governo.
após nomeação dois mesitos mais coisa menos coisa a dita cai com
estrondo nunca visto a bem da Nação :)

nessa altura o PR lê a constituição e interpreta com a ajuda da Maria o que vem lá escrito. nunca antes a tinha lido.

aí a Maria diz: Seria bom que começássemos a discutir conceitos sem estarmos arreigados aos preconceitos que os traem.
demasiado tarde: a múmia caiu. valha-me Deus diz a Maria. faz-me lembrar o Salazar. Right? Right!