quinta-feira, 5 de novembro de 2015

ELÁSTICO HUMANO


   Cerca de mil pessoas, segundo estimativas por apurar, ter-se-ão reunido para formar um cordão humano sob o mote Unir o que está dividido. Adoptamos o tom hipotético por não estarmos certos de terem sido pessoas a formar o tal cordão. Passos Coelho pegou numa ponta, Paulo Portas na outra, e umas centenas de entusiastas do desporto saltaram que nem tontinhos enquanto entoavam hinos de esperança. 
   Afiança certo jornalista destacado para o local que o cordão puxava um jumento e que por diversas vezes o jumento escoiceou a atmosfera, produzindo efeitos estranhos cuja interpretação simbólica ficará a cargo de Marcelo Rebelo de Sousa assim este chegue a Belém. Alguém de olhos muito arremelgados, apontou para o jumento e gritou: Assis! Ao que todos responderam, em uníssono, com uma respiração funda de gratidão e de reconhecimento. Afinal, ainda há sociais democratas no socialismo. 
   Outro jornalista, estrategicamente colocado na escadaria da Assembleia da República, garante que o cordão, afinal, pretendia formar um nó em torno do pescoço da convergência. Mais do que unir o que está dividido pretendia-se enforcar um nado-morto, ou seja, o tal acordo putativo da esquerda que tanto atemoriza os conservadores de direita a quem passou pela cabeça formar um cordão humano com balões cor-de-rosa nas mãos e faixas com slogans pintados a verde (tropa? esperança? garrafa?). 
   O Natal ainda não chegou, mas o Carnaval antecipou-se em meses. Desconfiamos que o cordão, afinal, tenha sido mero fio dental entre as bordas da Assembleia. Ou então foi lançado por alguém a tentar pescar à linha peixes de aquário. 
   Perdoem-nos as metáforas, por certo excessivas e absurdas, mas, assim como assim, mais valia que em vez de um cordão humano tivessem formado um elástico. Sempre se abria a possibilidade de o esticar bem esticadinho e, depois de largado, ver toda esta gente aterrar em Marte. É que o ridículo nunca tem limites, por mais que julguemos já terem sido todos atingidos. 

5 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

Sobre os limites do ridículo lembrou-me a História de Portugal, de Oliveira Martins, no ali entre 1640 e o resto... Sobretudo na fase pré-terramoto e o que vem logo a seguir a D. Maria I. É bem mais pesado, eu sei, mas rima perfeito com isto. Rima perfeito com isto e com muito o que tens escrito ultimamente (e não só) sobre este pardieiro, isto à falta de melhor palavra.

João Bentes disse...

Falta a fanfarra dos bombeiros e uma mini-saia. Na fotografia.

hmbf disse...

realmente somos um país do caraças. como é que conseguimos manter-nos independentes (autónomos?) durante todos estes séculos? só pode ser porque isto não interessa a ninguém.

João Bentes disse...

Esta fotografia remete-me para o "A Violência e o Escárnio" do Cossery. Quando olho para ela não me ocorre nada melhor para prestar homenagem ao arco da governação. Balões é genial.

MJLF disse...

Parece que estes seres de balões queriam unir o largo do rato à Lapa, mas não conseguiram, faltou um bocadinho. :P