Um poema com
mais anos do que parece. Devo tê-lo escrito nos idos de 1998, aquando da
leitura de “Trabalhar Cansa”. Lembro-me de ter sido escrito na sequência da
leitura, o que tantas vezes me acontece. Quis o destino que o poema nota
apontamento de leitura acabasse traduzido para italiano, há 10 anos, numa
revista dedicada à recepção de Pavese em Portugal. No mesmo número, Livia
Roggero traduziu o meu “Cesare Pavese” incluído em Suicidas (Deriva, 2013), livro
que há tempos comecei a rever para reedição muito trabalhada e acrescentada,
mas acabou traído pelos apagões informáticos. Quero muito regressar a ele, pois
é, dos meus livros, aquele com o qual mantenho uma ligação mais forte. Também
na tal revista se fala do poema “Cesare Pavese a Tina Pizzardo”, incluído em “A
Dança das Feridas” (2011). É autor que sempre me acompanhou, desde que peguei
numa edição fotocopiada pelo amigo Aurélio de “O Ofício de Viver”. Deixo aqui o
tal poema mais velhinho, no italiano de Livia Roggero, que é bem mais
interessante do que o meu português:
SOLITUDINE
Val la pena esser solo, per essere sempre più
solo?
Cesare Pavese
c’è un alone di fumo
fischiato fra le labbra di una puttana
che spiega le ali alla vollutà
all’interno della memoria
c’è un gesto predatore
e un altro che è preda
entrambi rifiutano la solitudine di una lettura
c’è lo sguardo innocente dei bambini
la tenera schiavitù degli istinti
l’indicibile gratitudine del piacere
c’è musica nello spazio vuoto
dove soli vagano gesti
e se sgorgasse una lacrima durante il rituale?
e se ci lasciassimo morire solo per un momento?
e se il nascondiglio della solitudine fosse un
sorriso?
il fatto è che ci sono paretti squarciate da
ritratti
che perforano le sale dove i gesti
assumono un certo senso fantastico
senza dissolversi nella dualità degli occhi
Da “Antologia
do Esquecimento”, 2003.
Sobre o
poema anterior escreveu o saudoso António Fournier: «Lo stesso spazio intimo
compare nella poesia di Henrique Manuel Bento Fialho, che alude al motivo recorrente
in Pavese (si veda ad esempio “La puttana contadina”) della solitudine condivisa
tra il cliente e la prostituta, dopo «la tenera schiavitù degli istinti» e «l’indicibile
gratitudine del piacere» dell’atto sessuale.»
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Submarino –
Rivista Luso-italiana di Studi Comparati”, n.º 01, direttore responsabile:
Carlo Cerrato, Scritturapura Casa Editrice, Dezembro de 2015. Com textos
e colaborações de Albano Martins, Alberto de Oliveira, Alberto Taddei, Al
Berto, Alessandro Granata Seixas, Alex Borio, Amadeu Baptista, Ana Luísa
Amaral, Ana Salomé, Andrea Ragusa, António Fournier, António Gedeão, António
José Borges, António Osório, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Cabral
do Nascimento, Camilo Pessanha, Carlos de Oliveira, Carlos Leitr, Carlos Martins,
Casimiro de Brito, Catarina Nunes de Almeida, Chiara Nobile, Critiana Sassetti,
Ddiarte, Donatella Bisutti, Duarte Belo, Edmundo de Bettencourt, Elisa
Baglioni, Emanuel Jorge Botelho, Enrica Casalone, Fernando Dacosta, Fernando de
Castro Branco, Fernando J. B. Martinho, Fernando Pinto do Amaral, Francesco
Ruggiero, Francisco Duarte Mangas, Gaia Bertoneri, Gastão Cruz, Gessica Artero,
Giada Bianchi, Giancarlo Depretis, Giorgia Casara, Henrique Manuel Bento
Fialho, Herberto Helder, Isabel Cristina Pires, João Bosco da Silva, João
Camilo, João Rasteiro, João Rui de Sousa, Jorge Silva Melo, Jorge Velhote, José
Agostinho Baptista, José de Sanz-Trueva, José Emílio-Nelson, José Jorge Letria,
José Manuel de Vasconcelos, José Manuel Mendes, Laura Moniz, Livia Roggero,
Luís Manuel Gaspar, Luís Miguel Nava, Luís Quintais, Luísa Dacosta, Manuel G.
Simões, Manuele Masini, Martina Berra, Matteo Rei, Miguel-Manso, Nuno Júdice,
Orietta Abbati, Paola D’Agostino, Paolo Lago, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Mexia,
Rui Guilherme Gabriel, Ruy Belo, Ruy Ventura, Sandro Petri, Serena Cacchioli,
Silvana Urzini, Sophia de Mello Breyner Andresen, Tatiana Faia, Vasco Graça
Moura, Vergílio Alberto Vieira, Vicente Jorge Silva, Virginia Boano, Vitorino
Nemésio.

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