quarta-feira, 17 de agosto de 2016

BISONTE

O Bison priscus, actualizado bisonte-da-estepe, popularizado como búfalo, era conhecido dos homens pré-históricos, que o representaram em grutas da Europa, lhe ofereceram danças na América, que o veneraram por África e Ásia, elevando-o a símbolo de força e de generosidade. Praticamente extinto das pradarias da América do Norte, onde ocupou lugar sagrado em múltiplas tribos ameríndias que tanto o veneravam como lhe tinham o temor que Deus inspira, o bisonte foi recolhendo pelo mundo uma simbólica da extinção. 
Na bela capa da mais recente recolha poética de Daniel Jonas (n. 1973), o Bisonte (Assírio & Alvim, Abril de 2016), ainda que numa dimensão que o engrandece, aparece isolado. Procuramo-lo pelos versos e encontramos várias referências, quase sempre em poemas de maior fôlego que alternam com brevíssimos apontamentos num jogo de extensões e de escalas que percorre todo o livro. 
No poema Deslocação das Nuvens, vasta panorâmica dividida em quatro partes, ele surge involuntariamente da feérica leitura que o nefelibata faz do mundo à sua volta. E o mundo à sua volta são nuvens deslocando-se num vasto céu. «A paisagem é triste como uma lezíria» (p. 42), o sujeito poético tem nos olhos o carvão com que desenha as formas do que transita. Eis que surge: «O bisonte pasce a erva benta / conquistando rarefeito o grande espaço / agoráfobo, / panavision» (p. 44). O contraste estabelecido entre o clássico e o hodierno, tão típico dos jogos de linguagem que caracterizam a poesia de Daniel Jones, acolhe também aqui um confronto entre a natureza sagrada do selvagem e a asma do mundo sacralizado. Mas o que de mais sugestivo o poema tem é o enquadramento, sendo nele perceptível os traços do pintor nas imagens a que as palavras dão forma. O remate é elucidativo: «Estou tão arrependido dos dias que hão-de vir» (p. 44). São dias de extinção e de perda, são dias de alienação contra os quais insiste a poesia, também ela confinada a zonas protegidas com seus poetas a "pascentar" no vasto campo da língua palavras caídas em desuso, ressequidas palavras. 
Podemos, por isso, estabelecer um paralelismo entre o animal e o poeta, entre o que a extinção do animal simboliza e a existência do poeta significa. Só falha se pensarmos nas jaulas e nos muros de um zoológico que são porventura mais representativos do universo poético actual. Num outro poema intitulado A Tua Memória é Uma Dor Constante, a confusão de identidades é evidente: «Ainda bisonte bisonho mordendo nuvens / mordo a tua cabeça transpiro o teu suor / estou ligado a ti como dois hemisférios» (p. 75). O elo com o poema anterior não se opera apenas a partir da figura central do bisonte, mas também a partir das nuvens e dos seus sentidos plásticos. A duplicidade de hemisférios reforça a ideia dos contrastes, das oposições, passado/presente, outrora/agora, selvagem/doméstico… O lugar da poesia neste contexto é o de uma função, a de preservar o elemento essencial da sua própria natureza: as palavras. 
Note-se como no poema Caravana e Estepe o bisonte surge do interior de uma consciência do tempo com suas ressonâncias aterradoras, a consciência de uma espécie de afogamento na trivialidade dos dias, separados que fomos de infância, alienados que vamos da pureza, indómita bravura, encalhados que estamos numa domesticada respiração de horizontes curtos e pardos, uns por cima dos outros, acotovelados em frenéticas filas de trânsito: «Um bisonte perdido / fazendo coisas de lobos com os olhos / mais gregários ainda. // Costumávamos pegar fogo aos rios, a coisas com água, / execrávamos a falta de humor, o Innisfree das coisas, / agora imolamo-nos na praia ao pôr do sol / que é quente que baste para o frio que nos trouxe — / púnhamos laçarotes nos garrotes / fumávamos pira fúnebres / inalávamos o couro quérulo» (p. 121). 
Pouco dada à ruralidade, muito menos à natureza selvagem, a poesia portuguesa tem feito o seu caminho invariavelmente perdida no trânsito das urbes. São raras as excepções. Com Bisonte, Daniel Jonas arrisca uma paisagem que nos é pouco familiar, ainda que o faça com o sentido irónico de recuperar a força bruta da natureza para mostrar quão débeis nos tornámos, nós que obedientemente temos insistido em dominar todas as espécies à face da Terra, distraídos que andamos de quanto a Terra nos domina. O domínio rítmico, os sublinhados cultos, a riqueza de linguagem, a sobreposição de tempos e de formas literárias, não são novidade para quem tenha lido outros livros do autor. Por aqui, referi-me anteriormente a Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005), Passageiro Frequente (Língua Morta, 2013) e Nó – sonetos (Assírio & Alvim, 2014). À liberdade discursiva, Jonas acrescenta agora uma cativante resistência crítica do seu tempo. Lê-se e relê-se com empatia. 

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