quinta-feira, 15 de setembro de 2016

HIERONYMUS BOSCH


Uma esfera de cristal não guarda o amor, e as aves crescem desmesuradamente.
Invade a luz um silêncio grande como a ausência de rosas, um silêncio onde tremeluzem olhos espiados.
Crateras invisíveis jazem sob as mãos. São ácidos os lábios,
E onde encontrar para o adeus a loucura lilás do anoitecer?
Quem gera e quem destrói? O Mago de Manto Vermelho sabe como é breve o caminho para a danação:
A Árvore, o ovo quebrado, a pantera azul, a pedra da loucura, o Livro da Verdade eternamente cerrado.
E as cidades consomem-se uma a uma entre chamas,
E um rato avança lentamente sobre o vidro,
E o homem oferece-lhe o rosto branco e baço.
Longe, o Vagabundo vai só.


Maria Amélia Neto (n. 1928), in A Capital (1968). «Publicou um primeiro livro de versos em 1960, O Vento e a Sombra. (…) Contudo, terão sido as traduções de dois dos maiores poemas de T. S. Eliot, Four Quartets e The Waste Land, que lhe terão dado uma notoriedade outra (pesando igualmente numa parte da sua poesia). / O brilho e os resíduos epocais são um dado muito próprio: livre, sabida ou quase inocentemente usados (…). É a releitura uma das suas estratégias mais cuidadosas, já que um fio ligeiro e vibrante alcança sempre um que outro verso — no poema — dos seus livros (…). O que parece ser também relevante — ao ler-se pela primeira vez o conjunto da obra — é ver no arranjo límpido e mundano de Maria Amélia Neto uma deslocação; que se liberta um pouco de vozes maiores (mas quantas são?) e algo menores que se publicam entre nós a partir de 60. Usando-as mas largando-as de mão, talvez um ponto resultante de uma tensão não-continental na sua poesia? Talvez também esta exiba (…), por vezes em negativo, a enumeração e o inconjunto de várias outras, que vai mostrar no brilho da sua cartilagem culta, e também modesta. Por outro lado, poderá haver aqui um influxo de outras paragens. Poesia em inglês da Ásia e do subcontinente indiano, poesia denominada indo-portuguesa, e mesmo vária poesia oriental que vê a ocidental como um esgotamento, também físico-espiritual, no momento da sua maior pujança (que será uma fraqueza) moderna, histórica e, possivelmente, pós-moderna. (…) / Acresce haver em Maria Amélia Neto uma coda que é dos anos 50 — um intervalo e uma colagem —, de visibilidade e enigmatismo ou ambiguidade no poema, na qual um sentido de perspectiva longa (duração) se vem conjugar com o tal arranjo próximo, biológico, de materiais justapostos ou flutuantes, tudo mesclado de compaixão e algum apocaliptismo cristão — e coisas budistas? Por aqui, parece escapar a um curioso tom doutrinário (de dogma, ideal e não pragmático) que avassala duas grandes zonas da poesia portuguesa deste século: neo-realista e formalista, por um lado, surrealista e romântica, por outro» (Gil de Carvalho, in Colóquio/Letras, Janeiro de 2000).

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