quinta-feira, 6 de abril de 2017

ÁFRICA

E depois há uns tontos convencidos de que em África as crianças são felizes porque não têm telemóvel e não frequentam cadeias de comida rápida. O simples facto de falarem de África como se estivessem a referir-se a um país, e não a um continente vastíssimo, multicultural e dissemelhante, justificaria que os não quiséssemos ouvir. Mas porque falam alto, por vezes aos berros, é-nos difícil escapar-lhes. 
Na África feliz dessa gente, as crianças talvez sejam felizes entre palmeiras, a brincar na praia, passam a vida no meio de uma natureza selvagem estranhamente confortável. Enfim, talvez sonhem com umas solas, talvez gostassem de aprender a ler e a escrever, talvez não tenham de trabalhar horas infindas para indústrias poderosíssimas que produzem os analfabetos do ocidente convencidos de que em África as crianças são felizes porque não têm telemóvel e não frequentam cadeias de comida rápida. 
Bastaria fazerem uma pesquisa em vez de passarem o dia a tentar exibir uma cultura que não têm:
No Mundo há 215 milhões de crianças sujeitas a tarefas laborais…
Uma em cada quatro crianças trabalha na África Subsariana…
O fenómeno da escravidão e do trabalho infantil persiste em África…
No Benim, por exemplo, há tráfico de crianças com destino ao trabalho nas pedreiras… Relatório acusa Apple, Samsung e Sony de conivência com trabalho infantil…
Exploração infantil no Congo alimenta gigantes mundiais da tecnologia…

Minudências, se pensarmos na felicidade que há-de ser não ter telemóvel nem um McDonald's nas redondezas. 

6 comentários:

Marina Tadeu disse...

Que condescendente essa burguesia lusa sempre desinteressada de tudo o que não seja moralizar os tempos em recintozinho fechado. É inacreditável que falemos a mesma língua. Mau grado os desajustes que mencionaste, nas áreas urbanas de Angola e Moçambique não faltam telemóveis e burgers aos miúdos. Sobretudo se filhos de funcionários afectos ao respectivo partido do regime.

Cuca, a Pirata disse...

Felicíssimas. Se esquecermos a mortalidade infantil, a fome, a falta de assistência médica, etc.
Deve ser um idílio...

hmbf disse...

Pois bem, Marina, e hão-de ter os seus balcões de comida rápida.

Cuca, neste país a pobreza sempre foi vista com bonomia por quem faz da caridade o fim último da moral. Não terá a influência católica culpas neste cartório?

Cuca, a Pirata disse...

O fascínio luso pelo "pobrezinho mas honrado" é coisa para ter por pai o estado novo e por mãe a igreja católica.
Mas também pode argumentar-se que um certo complexo de culpa faz com que seja mais agradável partir-se do princípio que a miséria dos outros é fonte de felicidade. Ou não fosse o faisão cair mal...

jpt disse...

Falando sério, o quão importante é o acesso aos telemóveis (pelos miúdos, pelos pais dos miúdos, os avós dos miúdos, quando os há) ... As ironias resvalam para o sarcasmo. [E, já agora, não são acessíveis aos "filhos do regime"]

Já agora, os malvados dos burguers (as cadeias de comida rápida, em Moçambique em tempo disseminadas introduzindo .... peixe na dieta) deparam-se com uma população a que está vedada a ... carne. O sarcasmo resvala sei lá para onde ...

EDGAR BARROSO disse...

Sintam-se todos cumprimentados (os que me antecederam nos comentários). Sou moçambicano, vivo em Moçambique e já vivi também por 2 anos na Europa (entre a Alemanha e, recentemente, Portugal). Nasci e cresci na cidade de Maputo, vivendo agora na periferia da sua cidade satélite, Matola. Sobre as crianças, telemóveis e fast-food... Primeiro, existe a zona urbana (onde se vive como em qualquer parte do mundo, em termos de acesso e usufruto de bens e serviços de que se fala por aqui), a zona peri-urbana (onde há um pouco do mesmo) e a zona rural (onde quase não há uma e outra coisa). É a realidade que eu conheço. Ter telefone (smarts ou modestos) ou comer fast food (hamburgueres, pizzas, derivados de frango e etc, processados ou não por cadeias internacionais especialiadas) depende muito do poder de compra dos seus usuários e da disponibilidade geografica desses bens e serviços. É sim uma realidade diferente da Europa, mas não completamente distinta. Essa visão romanceada e extremista de África não corresponde, como alguém aqui já disse, à imensa diversidade social, cultural e de desenvolvimento no continente ou até dentro de cada um dos mais de 50 países africanos. Mais ainda, não vejo qualquer relação objectiva entre felicidade e acesso (ou não) a tais bens e serviços. Pelo menos cá em África. Essa absurda generalização ou "universalização" de conceitos, noções ou percepções ocidentais de felicidade são extremamente perniciosas e enganadoras.