segunda-feira, 24 de abril de 2017

SEGREDO

Os presos políticos são fechados em espaços muito pequenos chamados «Segredo», uma cela diminuta sem luz natural nem espaço para andar e onde há apenas uma tábua de madeira, para eventualmente dormirem e descansarem. Os mais afortunados, especialmente estudantes universitários e indivíduos da classe média alta, podem usufruir de um espaço maior se pagarem uma diária de dez escudos, embora a cela seja igualmente fria e húmida. O preso José Augusto Baptista Lopes e Seabra deixa registada a sua experiência em 23 de Março de 1956: «Durante mais de um mês esteve enterrado numa cela húmida, de cimento, sem luz nem ar suficientes. Depois foi obrigado a pagar 10$ diários pois de contrário o ameaçavam de calabouço».
Mas a grande maioria dos prisioneiros é de origem humilde, não dispondo de meios para pagar o «alojamento», e outros, por uma questão de princípio, recusam-se a pagar para estar na cadeia. Para além disso, os presos são ainda torturados e forçados a permanecer longas horas de pé e parados, na tortura da «Estátua». Chegam a permanecer nessas posições forçadas vários dias e semanas, e são privados do sono. Ademais, diferentes vozes gritam-lhes aos ouvidos e ameaçam-nos repetidamente, sobrecarregando o seu sentido da audição e, por último, causando hiperacusia, amusia e outras desordens psicológicas e auditivas. Se alguém protesta contra essas práticas, os agentes respondem que tais métodos estão prescritos pela lei, dado que os prisioneiros se encontram sob «investigação contínua». 

(...)

Os métodos e técnicas de interrogatório são assim sumarizados:
- Estátua: posição de pé, por vezes voltado ou voltada para a parede, sem lhe tocar e com os braços abertos.
- Privação do sono: a vítima não podia dormir durante vários dias e/ou semanas.
- Maus-tratos em geral: por exemplo, queimaduras de cigarro na pele, pontapés, presos obrigados a defecar e urinar de pé ou, no caso das mulheres, à frente dos perpetradores e sob ameaças de violação,
- Uso de amplificadores e de colunas de som: vozes pré-gravadas, gritos e choros colocados em salas adjacentes e transmitidos para a sala dos prisioneiros para os convencer de que os seus amigos e familiares estavam a ser torturados.


Anabela Duarte, in Música e tortura no Estado Novo, in Flauta de Luz, n.º 4, Abril de 2017, pp. 82-93.

2 comentários:

BloggerBala disse...

São de facto impressionantes as descrições sobre os métodos de tortura utilizados nessa altura. Acredito também, que estes não se tenham extinguido com as "novas democracias". Persistem sim, perfeitamente cobertos por um excesso de informação muitas vezes conduzida nas entrelinhas.
Seria inconcebível esta realidade nos dias que correm, não por uma liberdade vigente mas, por uma obsoleta consciência política. Se as ideias voltassem a ter a força que algum dia tiveram esses métodos seriam rápidamente transferidos para a pratica corrente e teríamos talvez os "terroristas" de agora compartindo penitência nos mesmos estabelecimentos.


nao vale a pena alongar-me...um abraço.

hmbf disse...

Abu Ghraib.