ÍNDICE DEMOGRÁFICO
São 9 horas nesta terra, escutam-se as primeiras sirenes, os carros a deslizarem no asfalto.
Estores corridos serrotam o silêncio e os pássaros despertam melodias quentes, acolhedoras, no refogo das árvores. Se abrires a janela, uma aragem fresca lavar-te-á o rosto. Poderás então julgar a sorte que tens por ainda teres rosto.
Passaram breves minutos desde que abriste os olhos pela primeira vez. A lenha em chamas deixa no ar um agradável cheiro a cinza que te transporta nos corredores da consciência. De algures inomináveis, chegam-te notícias de corpos carbonizados, o terrorismo das notícias.
Tens os lençóis limpos de sangue derramado, poderás dormir descansado (assim não te pesem os sonhos que transformam a vida num pesadelo).
Uma mãe abraçada ao filho, ambos carbonizados. Sobre eles hão-de cantar pássaros num voo invejável, hão-de passar por cima de gente atropelada, fundida na terra como pedras que sangram.
Talvez uma bala disparada para o ar acerte no pássaro e também seu canto tombe sobre os gritos dos homens.
Que loucura me traz o cheiro a cinza, logo pela manhã, ao conforto dos lençóis? Haverá culpa na distância?
Que portas do tempo foram por nós atravessadas? Que metas atingimos? Que objectivos alcançados nos fazem sentir que tudo continua na mesma e ser este carrossel dos dias a volta repisada que apenas a morte encerra?
Impostos declarados, queixas e lamentações confiadas à urna como nas urnas depositamos nossos estimados defuntos para que nas sobras da vida tenhamos onde regar arranjos florais.
Mundo, mereces todos os teus santos e feriados, mereces todos os teus santos feriados, merecerias até um feriado de ti mesmo na vã esperança de reflexão cúmplice sob a coroa de espinhos que te enfiaram na cabeça:
nós.
Aproveita o tédio, homem, todos os segundos duplicados na repetição e na previsibilidade dos traumas, sutura a esperança com o desleixo da poesia, pouco mais tens à mão que possa servir-te de para nada servir andares por cá como se realmente andasses.
Daqui a nada, será novamente Natal, Páscoa, quarta-feira de cinzas. Refastelados no calor do luxo, poderemos reconfortar a febre com os músculos do estômago enquanto na TV renovados atentados serão por certo anunciados.
Alonguemos a carteira com maratonas de trabalho, formas várias de servidão. Ler e escrever jamais foram solução, nada que mude a lei há muito prescrita.
Passa rápido, mesmo quando lentas parecem as dores e os que partiram não se distanciam tanto quanto todos os demais que por aí andam a tratar das suas vidas para que talvez depois de mortos sejam lembrados.
Desenganem-se essas sombras de gente, mais do que elas dançam os vermes ao som do poema:
e se algum dia chorei foi de achar graça
às caras que as pessoas fazem quando choram
a pedir contas pelas feridas saradas
a ler livros de Barjavel, chegou aqui
livrando-se do destino esboçado
pelas crianças do Bangladesh
miseráveis dores, esquecemo-nos
porque julgamos ser tudo dádiva de Deus
dados a ler nas escolas onde ler,
escrever e contar são atalhos da sabedoria
do que raízes, nem fazem ideia da felicidade
que é ter praias de barriga cheia à nossa espera

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