segunda-feira, 19 de novembro de 2018

MALIGNO


No ensaio A Longa Vida da Metáfora: Uma Abordagem da Shoah (1988), George Steiner (n. 1929) questiona-se acerca da possibilidade de uma linguagem adequada à conceptualização de Auschwitz. O problema surge após o famigerado e radical apelo de Theodor Adorno (n. 1903 - m. 1969), segundo o qual a eloquência da linguagem poética seria obscena face ao terror do Holocausto. Steiner vai mais além na formulação do problema: «Relativamente ao discurso sobre Deus: que formas pode tomar, que plausibilidade pode mobilizar, depois dos campos de morte?» (in As Artes do Sentido, trad. Ricardo Gil Soeiro, Relógio D’Água, Fevereiro de 2017). Podemos interrogar-nos: de onde nasceu Deus senão da experiência do desespero? Da mesma forma, talvez faça sentido pensarmos que a poesia não terá surgido de outra fonte. O «universo-Auschwitz», neste sentido, não nos envia apenas para o homem anterior à linguagem, ele reafirma a bestialidade humana como inerente à própria linguagem. Auschwitz, mas não só, é a lógica da barbárie levada a cabo no seio da civilização. Steiner resolve o problema elegendo Paul Celan (n. 1920 – m. 1970) como «o único poeta (…) ao nível (…) de Auschwitz», por ter escrito poemas «da Shoah» «que não são susceptíveis de paráfrase crítica», poemas que dão uso a uma «linguagem para além de si própria». Já não está em causa o silêncio de Deus ou a possibilidade de o homem conceptualizá-lo através da linguagem poética, mas sim um outro dizer, porventura inacessível, que questiona Deus a partir da desolação e do desespero instaurados pela Shoah. A linguagem de Celan é a do abandono, um abandono reflectido na própria ilógica da linguagem. 
Ao recuperar em epígrafe inicial a célebre frase de Adorno, colocando-a a par de uma outra atribuída a Rui Chafes «A beleza é impossível sem as marcas da morte» , o poeta Eduardo Quina (n. ?) mostra-se interessado nesta discussão acerca da possibilidade da poesia depois ou no decorrer da barbárie, assumindo a posição de que é precisamente da experiência da barbárie que melhor a poesia se impõe. Maligno (Cosmorama, Maio de 2018) é um poema-sequência que nos reenvia para os campos de morte, mas desta feita sem outra experiência que não seja a do distanciamento histórico: «estão em linha para o depósito final: / bichos em forma de humano. / a cabeça rapada e uma estrela / que não anuncia deus, mas / uma criança dentro do / medo» (p. 19). A hipótese da ausência de Deus face à doença humana, face ao mal, é um dos temas mais fortes deste livro, que ao recuperar diversas imagens facilmente associáveis ao Holocausto não deixa de nos remeter para os males da actualidade. 
Auschwitz não encerra o mal, representa-o. Os remates entre parêntesis que percorrem todos os poemas, ao contrário do mote, que divisa o desenvolvimento do poema, como que abrem uma fenda no tempo e universalizam o negrume, o abismo, o mal, a perda, a loucura, a devastação, não deixando de colocar a pergunta fundamental: [o que pode o humano / contra o ódio do humano?] (p. 49). A poesia de Eduardo Quina insiste nesta reflexão acerca da possibilidade da poesia manifestando uma crença na renovação do poético que não se aceita dependente de possíveis concepções do sagrado ou do divino, preferindo enraizar-se numa consciência da privação que semeia o poema para matar a fome ao desamparado. 
Nestes poemas, a mãe que chora o filho morto, as «crianças que brincam cegas e sem dor» (p. 24), o homem que «espera que a noite avance» (p. 20), a velha ajoelhada, são personagens de um tempo universal onde se pressente a agonia de um deus exangue. O medo, a sombra, a alucinação, o vazio, o extermínio, o desamparo, o negrume, «a tortura da existência» (p. 22), convocam a ausência de Deus, a ausência dos seus sinais, para melhor reforçarem a ideia substancial dessa possibilidade da poesia depois do crime: [a inefável palavra nada traduz: / estamos mortos e ainda respiramos.] (p. 15) 
Há uma sabedoria final, porém, que invoca o recomeço sob o signo da perda, como uma insistência no desespero, uma sabedoria que não liberta o homem da doença, pois essa é-lhe própria como o respirar, mas de algum modo a diagnostica e procura preveni-la. Se é possível a poesia depois de Auschwitz já não é a questão. A poesia surge no interior do campo de morte, porque esse não foi extinto, tem outras características e alargou os muros, está no mal que corre no sangue dos homens como um vírus do qual também a poesia nasce e contra o qual se rebela.

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