sábado, 4 de maio de 2019

UM POEMA DE JOSÉ ANJOS


DECLARAÇÃO DE FALÊNCIA

durante muitos anos
estudei o comportamento
das coisas em lugares ermos
sentado a toda a distância
das estradas

aí, onde a utilidade é quase inacessível,
detectei indícios de um funcionamento
caprichoso, muito além de qualquer
aparente programação

assim consegui provar a existência
de várias dimensões
até não pertencer a nenhuma delas

e no lugar onde fiquei, de pé e a custo
um falhanço passou a ser apenas
uma viagem
um silêncio não consentido
cada instante um conjunto de coisas
que não sucederam, agruras inventadas
de um homem inventado

neste estado absoluto
de impossibilidade
persegui por escrito
uma cidade à queima-roupa
uma grande oferta de vazio
          o centro do labirinto: apenas um labirinto
          ainda maior

vedado que me é poder viver
todas as possibilidades
ao mesmo tempo

observo então o pensamento:
como ele surge      repentino
na reintegração de um ponto
de possível fuga para dentro
            uma narrativa límpida e épica
            por que não minha

mera expectativa
de uma passagem antecipada
por todas as faces da infância
rodeado
por todas as pessoas
por todos os meus objectos

é ainda um triste lugar
o lugar das grandes coisas
das procissões permanentes
uma urgência que abre
uma porta líquida
no meu peito
por onde entrei
sem saber nadar

foi então preciso inventar
o espaço da literatura
para aí guardar umas vidas
e poder viver outras
até perder
toda a contemporaneidade

agora já não posso dizer
que o vento me quebra o corpo

— sou da neblina

eis-me assim chegado
ao primeiro sequestro
da irreversibilidade

pois bem, durante anos andei
por aí a matar coisas
por excesso de atenção

e hoje já nem sei quanto vale
o meu nome


José Anjos, in uma fotografia apontada à cabeça, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 43-45.

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