sexta-feira, 3 de maio de 2019

GENTE SÉRIA


De vez em quando acontece, entre génios de todas as artes, na intrincada floresta de entidades hiperbólicas e semideuses de oníricos devaneios, surge um lugar daqueles com mundo e gente como a de todos os nossos dias, gente vulgar, comum, gente onde pressentimos sangue e no sangue que pressentimos vislumbramos o que possa ser questionado. Gente Séria (Planeta, Fevereiro de 2018), romance de estreia de Hugo Mezena (n. 1983), transporta-nos para uma aldeia no norte do país. Podia ser no sul, a este ou a oeste. Benomilde é um lugar como muitos outros, facilmente comparável no seu ambiente católico, conservador, claustrofóbico, de certo ponto de vista até miserável, comparável a inúmeros outros lugares espalhados pelo território nacional. O narrador envia-nos para a sua infância e adolescência, para um tempo em que teria 10 anos no ano da graça de 1987, com Portugal acabado de entrar na CEE, diz-se que 20, 30, 40 anos atrasado, em todos os termos possíveis e imaginários, relativamente aos outros países da mesma comunidade.
   Quem tenha vivido em ambiente rural naqueles tempos facilmente se identificará com inúmeras situações, com os gestos abrutalhados das gentes, com as desigualdades sociais, com a mentalidade tacanha e comezinha das personagens, com a estreiteza numa comunidade onde todos observam todos para evitarem ver-se a si mesmos, onde todos se ocupam a julgar os outros para não terem de viver com o peso de se julgarem a si próprios. O tempo vai passando, mas é como se não passasse. Na voz do narrador tudo patina sem sair do mesmo lugar. Miguelito, o menino, começa a registar os pecados numa folha. Foi Lininha quem lhe o sugeriu na catequese. E o romance desenvolve-se em capítulos curtos como quem anota num caderno o que vai vendo, recordando, pensando.
   Num primeiro plano, temos a família de Miguelito. Sobretudo o avô Jorge, figura austera, com quem Miguel aprende a escarrar como um homem. O gesto define a personagem. Mezena é muito perspicaz neste tipo de caracterização, as personagens são traçadas pelos gestos, pelas acções, muito mais pelos silêncios entre elas do que por monólogos profundos acerca de temas complexos: «O silêncio era, portanto, uma das maneiras que o avô tinha de nos fazer compreender o que pensava acerca de determinado assunto. / A outra eram os gritos»» (p. 105). Não são frases inocentes, nelas se elucida um tipo de relação familiar. O distanciamento do olhar permite a descrição desinteressada, como quem prefere entender e arrumar a sentenciar. O avô Jorge: «Era capaz de fazer contas de cabeça, mas não sabia escrever o próprio nome» (p. 25). É o atraso social de um país o que aqui se manifesta, uma geração de gente analfabeta a fazer pela sobrevivência, gente tomada por estúpida sem o ser, gente de rédea curta nas oportunidades.
   Nascer num meio destes, já dizia o poeta, é nascer em desvantagem. Só não o sabe quem nunca o viveu. Entre confissões, os medos mitológicos a virem à tona, Deus sobre todos como um machado sobre a cabeça. Pelo meio, padres que pecam, que resvalam para o pecado, a professora primária que arreia em nome do futuro, histórias que se contam em surdina, crimes cometidos pela calada, pais que dão biberões de vinho aos filhos para fazerem deles homens, males insignificantes que geram veredictos crudelíssimos. Há do início ao fim uma crueldade latente em Gente Séria, uma crueldade que apenas se tornará evidente numa expiação social reveladora do mal ali germinado. A certa altura sentimo-nos solidários com o tio que coloca um anúncio no jornal a dar conta de que morreu. Desconfiamos do desespero e perdoamos-lhe a mentira, percebemos o quão importante para ele era ver-se livre daquela gente, daquele mal.
   Acerca das lógicas do bem e do mal, podemos interrogar-nos como Kant fez na Crítica da Razão Prática. Mas aqui a dúvida não é sobre a natureza das boas acções, aqui a dúvida é-nos colocada pela mente de uma criança de 10 anos que em tudo vê maldade. Chega a pensar que nasceu na altura errada. Afinal, o mundo estava para acabar. O séc. XXI preparava-se para extinguir os homens da Terra. Onde andam a compaixão, a benevolência, a misericórdia? Os comportamentos das pessoas nos funerais também são reveladores de uma hipocrisia sem solução aparente, a não ser zarpar dali. A vida em Benomilde é uma espécie de morte, não chega a ter os traços grotescos dos porcos e maus de Ettore Scola, mas a fealdade tem a mesma origem. Ela pode ser sintetizada na descrição de uma habitação: ratos no sótão, o telhado a deixar passar água, chão comido pelo bicho, canalização com fugas. Nesta casa mora gente, gente a sério.

1 comentário:

Patrícia disse...

Obrigada pela opinião. O livro desde que foi publicado chamou-me a atenção, no entanto li críticas desencorajadoras.