sábado, 31 de outubro de 2020

TÉDIO

O PM foi claro. Fastidiosamente claro e objectivo. O que chamar aos jornalistas que falam em confusão? Serão burros? Asnos? Ou estarão interessados em confundir? Subitamente, parece que voltei a estar numa reunião de professores. Todos a discordarem uns dos outros dizendo as mesmíssimas coisas. Que tédio.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

MUNDO DA TRETA

Se os negacionistas são uma espécie esquisita, os que acreditam em tudo não o são menos. Tenho-me lembrado de alguns posts do Pedro Mexia sobre leitores que acreditavam em tudo quanto ele publicava nos weblogs, como se aquele registo de desabafos quotidianos fosse um confessionário. Eram posts divertidos. O fenómeno das fake news veio tornar tudo menos divertido. A verdade é que os incrédulos são meia dúzia de tontos, perfeitamente identificados, cuja capacidade de influenciar comportamentos é diminuta, mas os crédulos sem espírito crítico são em maior número e, sem dúvida, mais perigosos. Este mundo da treta é deles. Onde pretendo chegar? Aqui: desconfiem, estudem. E sejam humildes em matéria de conhecimento. Há sempre algo que nos escapa.

JURAMENTO DE HIPÓCRITAS

Então como estamos de Fórmula 1? A JSD foi colar cartazes? O Ferrão pronunciou-se? A SIC fez 1001 reportagens com 1002 indignados? E como estamos em matéria de ondas gigantes na Nazaré? Marcelo quis planos de contingência tornados públicos? É só para saber.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A QUEM PERTENCE A LINHA DO HORIZONTE?

Não é a primeira vez que o escritor João Pedro Mésseder (n. 1957) e a ilustradora Ana Biscaia (n. 1978) reúnem talentos num mesmo livro. Há seis anos publicaram na editora Xerefé a plaquete Que Luz Estarias a Ler?. Já então o tema de fundo fora o conflito armado em Gaza, a partir da história de uma menino, Aysha, que teria tentado resgatar dentre destroços os livros de uma escola bombardeada. Nada que não estivéssemos habituados a ouvir. Nesse mesmo ano de 2014 os jornais falavam de clima tenso após ataque a uma escola da ONU no norte do enclave, os noticiários referiam a morte de 15 pessoas e 200 feridos após o bombardeamento de uma escola na Faixa de Gaza. Com maior ou menor precisão no relato dos factos, certo é que por cá se tornou vulgar ouvir falar de “mais uma escola bombardeada em Gaza”. As aspas servem para reforçar o tom de banalidade do mal, expressão usada por Hannah Arendt para se referir ao holocausto nazi. Arendt era de origem judaica. Também o filósofo Yeshayahu Leibowitz sentiu, a certa altura da sua vida, o desconforto de ter que conviver com o mal, acusando o exército israelita de ter uma mentalidade “judaico-nazi”. 
   É para nós difícil de imaginar as consequências de nascer e crescer no Estado da Palestina, ou seja, num território sob a permanente ameaça de uma superpotência mundial que, entre outras coisas, considera justo, equilibrado e legítimo bombardear escolas. Lembro-me da violência na música de Meira Asher, outra israelita que não tem poupado esforços na denúncia das atrocidades cometidas pelas autoridades de Israel. O tema mais recente é a greve de fome de Maher Al-Akhras, preso sem acusação nem julgamento desde 27 de Julho. Os números são avassaladores: 4400 presos políticos palestinianos, entre os quais 39 mulheres e 155 menores. Nada que incomode particularmente os arautos dos Direitos Humanos disseminados um pouco por todo o mundo.
   A Quem Pertence a Linha do Horizonte? retoma o tema, ou seja, insiste na sensibilização para um dos mais graves e ancestrais conflitos armados de que temos memória, o qual diariamente, quotidianamente, insistentemente vem à liça pelas consequências do terror numa Europa que insiste em varrer para debaixo do tapete as questões de fundo, a origem do problema. Neste caso, a questão de fundo é o direito a uma pátria. Por esta mesma razão a pergunta elaborada no título deste livro é poeticamente pungente, levando-nos a pensar num espaço para lá da propriedade. É o espaço da humanidade, ou do humanismo, se quisermos ser utópicos como utópica é a linha do horizonte.
   Dos poemas de Mésseder coligidos nesta obra, escritos entre 2002 e 2019, colhemos um olhar sensível a questões complexas, como sejam as do desenraizamento, do desterro provocado pela ocupação e subsequente expropriação da identidade. Mas colhemos também o nojo de certa indolência ocidental, que, como sugere o poema O ecrã, em 2002, vê a guerra servir-se fria à hora de jantar. Como quem assiste a um filme repetido, obviamente.
   O traço grosso dos desenhos de Ana Biscaia acompanha, na sua rudeza de carvão, o negrume dos escombros, das explosões, cinza que resta da ruína em cenário de morte. Desenhos como a fisga da página 19 ou as mãos onde pedras florescem, nas páginas 9, 21, 33 e 34, etc, são, na sua simplicidade, ilustrações eloquentes de um quotidiano de resistência. Pode uma pedra dar em flor como a flor dá em fruto? Símbolo de resistência, é disso que se trata, estas pedras não se esgotam na sua função bélica. Que conseguem elas contra balas disparadas por armas de alta precisão? São, ao mesmo tempo, e na mesma paradoxal realidade, a primeira pedra de um edifício futuro e o que sobra se um edifício em destroços.
   Poemas tais como Memórias, logo a abrir, e Uma menina, quase no fim, inscrevem igualmente este livro da Página a Página num horizonte de esperança para lá da desolação, com um equilíbrio poético difícil de circunscrever a qualquer faixa etária. Deixo um poema minimalista, por assim dizer, ao estilo de outros que já conhecíamos do mesmo autor:
 
Perguntas de zoologia
 
Ser pássaro em Gaza
como é?
Ser peixe e abelha
como é?
E como é
ser homem?

 
Junho, 2017

EM RESUMO

A minha verdade é simples. Em morrendo, lamentaria apenas, se é que um morto pode lamentar alguma coisa, os livros que queria ler e não li, as viagens que não fiz e devia ter feito, o concerto do Tom Waits a que não assisti. O resto é resto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O PADRE

Quitéria está a escrever um livro. Já tem título: "Ler Tolentino de olhos fechados".

terça-feira, 27 de outubro de 2020

O ÚLTIMO A RIR

O PSD foi a barriga de aluguer que gerou Ventura. É história. Depois de todas as patifarias vindas a lume, já com a base ideológica claramente clarificada, o Chega tem merecido a compreensão de Rui Rio. O episódio de hoje é sintomático do que se passa na política portuguesa. A crise está aí, Ventura ri e até é provável que esfregue as mãos de contentamento. Nos Açores, acabou de almejar mais dois tachos para cozinhar o seu ideário populista, racista, xenófobo, elitista. Em suma, ideário fascista. Rui Rio acompanha Ventura nos risinhos quando Jerónimo se levanta para falar no parlamento. Percebe-se quem está no lado da responsabilidade, pensando nas pessoas, e quem se instalou no lado da politiquice, pensando em benefício próprio. Ventura ri. Rio ri. Jerónimo diz que não acha graça nenhuma. Eu também não, e desconfio que para lá das paredes do parlamento sejam poucos os portugueses a achar alguma graça a estes tempos que estamos a viver.

UM HUMANISTA


 

Quando a II Grande Guerra rebentou, voluntariou-se para conduzir uma ambulância. Residente em Paris, viu França ser ocupada pelos nazis. Juntou-se à Resistência. Depois da Guerra foi para a Normandia, Capital das Ruínas, como lhe chamavam os franceses, ajudar num Hospital da Cruz Vermelha. Era um humanista.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

WEST END BLUES (1928)


 

Estive com ele até ao fim, recolhi cada um dos seus dentes, compilei-os numa caixa de bombons. Hoje, se pretendo lembrá-lo, abro a caixa e vejo-o sorrir com os dentes à mostra. Não guardo nenhuma imagem da boca vazia, excepto quando aflora ao pensamento sem que eu pretenda. Aí, a imagem que se desenha na página é a de um buraco negro. Inclino-me à escuta, de olhos fechados, e sinto vibrar um som que vem das profundezas do corpo. Então canto e a morte transforma-se numa melodia agradável. Um som gerado no âmago da terra percorre os corredores do tempo e liberta-se no ar como um perfume. Aceito a morte como a um doce.

domingo, 25 de outubro de 2020

DIANE DI PRIMA (1934-2020)

 


  Nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, no dia 6 de Agosto de 1934. A inclinação para a poesia revelou-se muito cedo, embora tenha publicado o primeiro livro apenas em 1958. This Kind of Bird Flies Backward, o tal que não podia ser edItado porque ninguém aceitaria o calão das ruas num poema, apareceu na Totem Press de Hetti e LeRoi Jones. Foi amante deste, tiveram um filho, pariram 21 números da revista The Floating Bear entre 1961 e 1963. Isto foi antes de LeRoi mudar o nome para Amiri Baraka na sequência do assassinato de Malcolm X. E foi antes de Diane se mudar para a Califórnia, juntando-se aos Diggers de Emmett Grogan e Peter Coyote (esse mesmo, o actor).
   Porém, Diane di Prima acabaria por ficar conhecida pelo envolvimento no movimento Beat, de que deu conta nas suas Memórias de uma Beatnik (1969), traduzidas para português por Maria Augusta Júdice e publicadas pela Editorial Teorema em Maio de 1999. Memórias ficcionadas, de fortíssimo cariz erótico, com uma casa na West Village a servir de cenário para todo o tipo de aventuras sexuais. Crendo no que relata num dos capítulos finais, foi a leitura de O Uivo que a levou ao grupo de Ginsberg. Dos primeiros tempos diz: «Tínhamos passado por uma grande variedade de brincadeiras estéticas: pequenas revistas que não tínhamos dinheiro para pagar, projectos de teatro em gigantescas águas-furtadas que nunca se concretizaram, uma visita minha e da Susan a Ezra Pound, que queria que mudássemos sozinhas a natureza da programação da televisão nacional» (p. 157).
   Uma frase sintetiza o sentimento geral da juventude norte-americana daquele período: «Naquela altura, parecia não haver saída» (p. 159). A saída encontrou-a Diane na leitura de O Uivo, seguida de um primeiro encontro com Ginsberg e Kerouac que acabou em orgia com muita erva e haxixe à mistura. Amor e liberdade são os princípios pelos quais se regem as memórias, testemunho imprescindível de uma geração e do papel que uma mulher pôde nela desempenhar. Tornou-se budista, como era suposto, e foi para as ruas protestar contra a guerra no Vietname. 
   Durante a década de 1980 dedicou-se ao estudo e ao ensino das relações entre poesia e esoterismo, investindo também desde então numa luta constante pelos direitos das minorias e contra o preconceito. Publicou mais de trinta livros ao longo da sua vida, muitos deles na City Lights de Lawrence Ferlinghetti. Que saibamos, não há muito dela em língua portuguesa. Manuel de Seabra incluiu-a na Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana (Editorial Futura, 1973) com dois poemas. Um deles está aqui, o outro é este:
 
O VISITANTE
 
Bem disse ele então és o Lee. Estava de pé à porta.
Sim disse eu. Não o conhecia. Sou o Lee.
Queria conhecer-te disse ele. A Jackie falou-me de ti.
Oh disse eu. Entra.
Ele entrou e sentou-se na cama.
A miúda lá em Rockland disse eu. Como está ela.
Bem disse ele. Sorriu. A sério está mesmo bem. Gosta daquilo por lá disse ele.
Bem disse eu. Ele metia-me medo. Oiça disse eu sobre o que é que me queria falar.
Foi lá que encontrei a Jackie disse ele. Em Rockland. Terapia ocupacional. Fizemos coisas.
Oh disse eu.
Tu escreves poesia disse ele. Olhou para mim.
Sim disse eu.
A Jackie mostrou-me alguma poesia que tu escreveste disse ele. Mandaste-lhe uma carta.
Sim? disse eu. Não me lembrava.
Ele disse sim mandaste-lhe. Depois ele disse porque é que escreves poesia.
Não disse nada. Tinha deixado de pensar nisso há muito tempo.
Eu costumava escrever poesia disse ele.
Sim? disse eu.
Sim disse ele. Costumava escrever dia e noite.
Porque paraste? disse eu. Não sabia que dizer mais.
Queimei tudo disse ele. Antes de ir para Rockland.
Oh disse eu.
A Jackie deu-me a tua morada disse ele. Estava no envelope.
Depois ele disse não consigo perceber porque é que alguém faz seja o que for.
Eu disse merda pá é preciso fazer qualquer coisa. Disse aquilo muito alto.
Ficou ali sentado um bocado. Estava a escurecer. Acendi todas as luzes da casa.
Depois disse ele comecei outra vez.
Sim? disse eu.
Sim disse ele. Às vezes tem que ser. Não posso evitar. Depois ele disse agora ainda não queimei nada.
Belo disse eu. Pensei que ainda falava de poesia. Gostava de ler alguma coisa.
Talvez para quando arranjar emprego disse ele. Achas que sim?
Não disse nada.
Espero que sim disse ele é tão estúpido escrever.
Gostava realmente de ver a tua poesia disse-lhe eu.
É muito amável disse ele. Eu gostei da tua. Jackie mostrou-ma.
Levantou-se e vestiu o casado. Ontem escrevi bastante disse ele. Catorze horas.
Foi até à porta. Penso que vou parar não tarda disse ele ou então queimo tudo outra vez. Como que riu.
Abri-lhe a porta.
Talvez queime tudo outra vez disse ele.
Traga-me alguma coisa qualquer dia disse eu. Gostava de ler.
Ele estava no patamar mas parou e olhou para mim.
Gostava mesmo de ler qualquer coisa disse-lhe eu.
Sim disse ele.
 
Outras referências a Diane di Prima neste weblog: aqui, sobre beijos; aqui, à laia de parabéns. 

sábado, 24 de outubro de 2020

E EU QUERO DORMIR AO TEU LADO E FAZER-TE AS COMPRAS E CARREGAR-TE OS SACOS E DIZER-TE QUANTO ADORO ESTAR CONTIGO MAS ELES QUEREM QUE EU FAÇA COISAS ESTÚPIDAS.


E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu

e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasado e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegra-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum  do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.


Sarah Kane, in Teatro Completo, da peça Falta, tradução de Pedro Marques, Campo das Letras, 3.ª edição, Novembro de 2007, pp. 239-241.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

UM POEMA DE SOUSA FERNANDO


 

MELÂNQUICO 1

tu não existência taciturna tu não
que nasceste tão cedo com o vento
tu não

netos que vindes
clamo-vos esta fúria de ser vivo
de ser só
ser ateu

CRU
como é mórbido aclimatar-te.


Sousa Fernando, Melânquico, Livros sem Editor (Orientação de José de Matos-Cruz), Coimbra, 1970, p. 7.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UM POEMA DE JOÃO HABITUALMENTE

 


A QUEDA DO GOVERNO

isto está tão bom
que tanto faz

pois é
o governo anterior não fez
já não há que pôr no prato
já não há que pôr no prego
combater o desemprego?
mas se o anterior não fez
pelo menos é o que este diz

isto está tão mau
que tanto faz o que se diz
que tanto faz quem fez
o governo que aí vem
é o futuro em marcha atrás
é o passado outra vez
é o anda nem desanda
já não há que pôr no prego
vou virar o bico ao prato
está a subir o desemprego
e a estalar o desacato
bem vês
ninguém põe os pontos nos iis
tanto faz o que se diz
tanto faz o que se fez
o governo caiu ontem
perco a mulher outra vez
queremos medidas de fundo
e um prego
e um prato
um pensamento profundo
um ministro embalsamado
um chouriço, um presunto
um doido bem penteado
e um careca varrido.
o que se faz
o que se diz
que o governo não fez
nem hoje nem há um mês
oh!, mas não vás
olha-me ali pr'aqueles cus
o quê? Tanto te faz?
ai o governo quer bis?
ora bolas! Mas bem vês
não há mas nem meio mas
ainda perco o emprego
hei de comer-te no prato
hás de te espetar no prego
ora mostra lá o umbigo
para quê? Isso é comigo
espera-me ali no café
espera-me no lá-de-lá
não te esqueças vai votar
neste que diz que fez
naquele que diz que faz
no outro que faz que diz
agarra-te a uma voz
vai até ao infinito
agarra-te a um pau de giz
come chouriço e presunto
olha a queda do governo
olha o tombo do defunto
canta lá uma cantiga
grândolavilamorena

João Habitualmente, in Um dia tudo isto será meu [uma antologia], Porto Editora, Setembro de 2019, pp. 137-139.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FORA DO SÍTIO

 


   Da mesma geração que o recentemente falecido Derek Mahon (n. 1941 – m. 2020), o poeta irlandês Bernard O’Donoghue (n. 1945) era por cá completamente desconhecido, ou quase, antes da publicação deste Fora de Sítio (Douda Correria, Julho de 2020). Hugo Pinto Santos deixou-o de fora da antologia Estradas Secundárias — doze poetas irlandeses (Artefacto, Junho de 2013), preferindo prestar atenção a contemporâneos de O’Donoghue tais como o próprio Mahon, Ciaran Carson (n. 198), Eiléan Ní Chuilleanáin (n. 1942) ou Paul Durcan (n. 1944). A ter em conta seria também a poesia de Tom Paulin (n. 1949). São poetas de uma geração relevante, de certo modo premiada com a atribuição do Nobel da Literatura a Seamus Heaney (n. 1939 – m. 2013) em 1995.
   O livro traduzido por João Paulo Esteves da Silva é uma versão possível para Here nor There (1999), título cuja transposição para língua portuguesa seria sempre problemática. Explica o tradutor tratar-se de uma expressão idiomática «que, em inglês, se pode empregar para descrever, criticando, um despropósito». No fundo é como dizer “isso não tem nada a ver com nada”, ou "não é carne nem é peixe". Curioso título para poemas que tão directamente nos enviam para as raízes irlandesas do autor, o qual se mudou para Inglaterra aos 16 anos e por lá foi aprofundando estudos em literatura inglesa. Estreou-se na poesia em 1984, desenvolvendo, desde então, um estilo elegíaco onde um lirismo de tipo clássico convive naturalmente  com a modernidade.
   Os poemas de Fora de Sítio estão pejados de referências a lugares e a pessoas que julgamos pertencerem a um ideário pessoal, porventura íntimo, que faz sobressair com nostalgia as raízes do autor e estimulam uma interrogação acerca de um suposto idílio perdido. Estar fora de sítio é a condição do exilado, seja ele voluntário ou não, é a condição de todo o ser que de algum modo se acha desenraizado e dessintonizado. Mitos irlandeses, memórias da infância, ressonâncias de uma convivência arreigada ao mundo natural emergem em poemas que narram histórias, evocam momentos e circunstâncias, por vezes num tom surpreendentemente irónico. É o que sucede no poema intitulado Conservante: «Se é verdade que o gelo derrete depressa, / Com a luz directa dos raios solares, / E deixamos de ver o sítio onde esteve, / Também há lugares de sombra / E abrigo — em juncais / Ou em sebes — onde ele permanece / Quase até ao meio-dia. E tu, no teu vestido / Cinzento, também estás a desaparecer, / Excepto nos momentos de sombra / Em que o teu rosto é visto em pleno, / Talvez por o teu último beijo na face / Ter sido frio como moeda corrente» (p. 37).
   Muito comum na poesia irlandesa, sobretudo na produzida por uma certa diáspora que fez do poema uma espécie de remédio para o afastamento das origens, a ideia de regresso a casa vislumbra na expressão here nor there/fora de sítio a representação ideal para um sentimento difícil de exprimir. Num dos últimos poemas do livro, as casas avistadas na paisagem, mais do que lugares de pertença, são pontos de identificação onde a “sensação de Irlanda” desperta e assoma ao espírito: «Aquela dor fina que se julgava esquecida — / Mais fumo, certamente, do que chama; / Menos choro do que chuva. E o facto de isto tudo ser / Descabido, estar fora do sítio, e ser, por isso mesmo, a casa» (p. 59). Falar de uma “sensação de Irlanda” é, de algum modo, assumir uma condição estrangeira, a qual, nestes poemas, é também o ponto de partida para algo mais profundo, isto é, um certo desconforto que advém de se sentir fora do lugar. Porventura distante, porventura isolado, talvez solitário, estar fora do lugar pressupõe uma ordem, uma organização, de que não se faz parte. Leituras políticas ou ontológicas são legítimas, conquanto não se pretenda reduzir o poema a nenhuma delas:
 
NÃO TER DE
 
Para John Fuller,  1-1-1997
 
“The opposite of love is not hate but fear”
Herbert MacCabe
 
Nos tempos que correm, o que mais me enche
De satisfação é não ter de
Fazer coisas. Por isso, em modo de férias,
Decidi fingir que não sou daqui da cidade,
Que estou apenas de passagem.
Compro, por exemplo, uma sanduíche e um cappuccino,
E encosto-me a uma árvore, no quintal,
A apanhar ar e a observar os indígenas:
Estes peregrinos, por exemplo, como a carqueja
Que, apesar da sua reputação de idiota
Sabe o que faz quando desce
Pela margem para abraçar o próprio reflexo
E nadar para longe, com ele. No alto
Posso ver o ventre prateado
Duma revoada de pombos. Ou, então, podia visitar
A zona comercial para sentir na pele
Algo em que muitas vezes reparei: o estranho eco
Do guincho do falcão nas caixas do supermercado
.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

PRESIDENTES

 


Fiz uma pesquisa por “naked presidentes” e os resultados foram confrangedores, o Google envia-me directamente para um livro. Que maçada. É preciso escarafunchar a memória para entender o statement de Marcelo. Há naquela pose-de-estado-para-levar-vacinas um gesto pedagógico, não fosse o presidente professor. Marcelo quis dar o exemplo, quis dizer aos portugueses que deviam despir-se de preconceitos e abraçar a vacinação com o maior à-vontade possível. É muito mais pedagógico do que andar a espreitar maminhas em praias de nudistas, passear acabrunhado de t-shirt molhada ou trepar coqueiros. O problema de Marcelo é que aparece muitas vezes nu. Passámos o verão a vê-lo nu, em versão “Marés Vivas”, entra pelo Outono nu, em versão “Anatomia de Grey”. Temo pelo que possa suceder no Inverno. Espero e desejo, sinceramente, que não tenha de ir fazer uma avaliação da próstata. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

DECLARAÇÃO DE VOTO

Quitéria diz que vota na Marisa Matias se ela for levar a vacina contra a gripe e se despir da cintura para cima. Tem de ficar registado por televisões e câmaras fotográficas, não vale fazer batota. Na Ana Gomes não vota nem com nus integrais.

DE HUMILHADA A ELEITA


 

Aquando do golpe, a imprensa portuguesa patrocinou todo o tipo de notícias. Agora que o golpe foi pelo esgoto com eleições democráticas, assobia-se para o lado. É sempre assim. A indiferença para com o que se vai passando no Chile também é sintomática do "seleccionismo" que determina as opções dos nossos jornalistas, que só têm olhos para o Guaidó da Venezuela e congéneres protegidos do "trumpismo". É bom que nos interroguemos porquê, até pelo tipo de perguntas que fazem a João Ferreira e não fazem a outros candidatos à Presidência da República Portuguesa. Na Imagem está Patricia Arce Guzman, humilhada publicamente há um ano, agora eleita senadora por Cochabamba.

domingo, 18 de outubro de 2020

[ALCOOLISMO ALUCINATORIO]


 

— «Hoje, de madrugada, vi a mulher mais feia de Lisboa, ao pé dum mar todo barrento e com grandes manchas de sangue. Também vi a minha filha que morreu, a voar com um ramo de louro na mão..»
— Vive satisfeito?
— «Ora! Aonde chego, ha sempre desgraça. Chego a Lisboa, greve de electricos. Chego ao Telhal, fogo em Sintra. Venho num comboio, a maquina perde vapor.»
— Gosta de aqui estar?
— Não desgosto...
— Mas, para eu estar em Portugal — só no manicomio ou, antes, na cervejaria da Trindade.»

 
Autor anónimo, in Almas Delirantes - do Telhal a Rilhafoles, poemas, textos, diálogos e cartas estudados pelo Dr. Luiz Cebola, organização e apresentação por Stefanie Gil Franco, Douda Correria, Março de 2019, p. 150.

sábado, 17 de outubro de 2020

PAPAS

"Nunca gostei de papas. Nem de aveia, nem de milho, nem de sarrabulho, nem de batina." Escutado a Quitéria.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

TRANSFERÊNCIA

Miguel Esteves Cardoso mudou da Porto Editora para a Bertrand. Quitéria tem uma designação para este tipo de transferências: jogar ping-pong com a parede.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

CÂNONE

Acordar, espreitar, e ver a rede por um cânone. Estou-me nas tintas-da-china para o cânone.

7 MILHÕES DE PORTUGUESES TÊM SMARTPHONE

A notícia é de 2018, agora não sei como será. Eu tenho há pouco mais de um ano, não há dia em que não me arrependa. Isto vem a propósito da hipotética obrigatoriedade de uma App. Quem tem o smart, aplica. Quem não tem, não aplica. É simples. Mas se 7 milhões aplicarem, talvez isso possa fazer alguma diferença. Deve ser este o raciocínio de quem nos governa. Eu ainda não apliquei, pois não consegui perceber a vantagem e nenhuma garantia me foi dada sobre protecção de dados. Eis o que é preciso explicar às pessoas: qual a vantagem e se estão protegidas. O resto é chiste.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

ESTUDASSEM

É a terceira vez que Quitéria vai ao Lidl (aquele que fica ao pé do cemitério), tenta desinfectar as mãos e depara com o dispensador vazio. Já escreveu para a DGS a sugerir que aproveitem uns vídeos da Festa do Avante para explicar como se deve fazer. Podiam passar na SIC, por cima dos comentários inúteis do Marques Mendes.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

JOGO DO FIM


“Jogo do Fim” (Outubro de 2020) é o título mais recente da colecção de textos dramáticos que a editora Companhia das Ilhas tem vindo a publicar em parceria com o Teatro da Rainha. Trata-se da peça que Samuel Beckett, Nobel da Literatura de 1969, escreveu originalmente em francês com o título “Fin de partie” (1957), surgindo apenas no ano seguinte na versão inglesa como “Endgame”. A tradução de Isabel Lopes demarca-se de outras versões em língua portuguesa, com títulos tais como “Fim de Festa” ou “Fim de Partida”, dando ênfase a uma ideia de “jogo”, presente tanto no título francês como no inglês, que honra a essência do trabalho beckettiano em geral e respeita a dinâmica desta peça em particular. Beckett considerava-a a melhor das suas peças, escrita já depois do sucesso alcançado com “En Attendant Godot” (1952), não sendo por acaso as comparações com uma partida de xadrez elaboradas ao longo dos anos por vários críticos e ensaístas. O que se joga aqui é o fim, uma espécie de xeque-mate, com um rei (Hamm) imobilizado, cego, restringido ao seu trono decadente, e um peão (Clov) a arrastar-se de um lado para o outro, em movimentos curtos, pausados, vacilantes. São deste as primeiras palavras — «Acabou, acabou-se, isto vai acabar, talvez vá acabar» (p. 10) , num cenário que remete tanto para os campos de concentração nazis como para uma espécie de casamata ou bunker.
   É preciso não perder de vista que entre 1954 e 1956, quando a peça foi escrita, a humanidade ainda se recompunha das imagens traumáticas deixadas pela Segunda Grande Guerra, vivendo-se então debaixo da eterna ameaça de uma guerra nuclear. A didascália introdutória de “Jogo do Fim” desloca-nos, precisamente, para um cenário apocalíptico, de luz acinzentada, num abrigo com duas janelas a darem para um mundo em pó. Depois de Clov (peão, servo, escravo) acordar Hamm (rei, senhor), percebemos através das primeiras palavras trocadas entre ambos que estamos num tempo para lá do tempo e num espaço cujas principais características são a ruína, o vazio, o abandono. «Que horas são?», pergunta Hamm. «As mesmas de sempre. (…) Zero», responde-lhe Clov (p. 12). Mais à frente, Hamm lamenta: «A natureza esqueceu-se de nós». Clov constata: «Já não há natureza» (p. 18). Ao tempo-zero e ao espaço-nada correspondem, igualmente, uma ausência de horizontes, a morte dos ideais e a perda de sentido.
   Cenário desolador, de facto, mas igualmente e surpreendentemente cómico. Entre Clov e Hamm há uma interdependência que se abre à comédia, uma comédia de tipo grotesco, tal como se estivéssemos a assistir à interacção entre dois palhaços decadentes no centro de uma arena em destroços. Desta aparente ausência de sentido fazem ainda parte duas outras personagens, Nell e Nagg, os progenitores do rei, literalmente remetidos para o lixo como peças descartáveis, imobilizados dentro de caixotes dos quais por vezes emergem para receber comida, tentarem beijar-se (em vão), interrogarem-se: «Porquê esta comédia, todos os dias?» (p. 22). Várias extrapolações podem ser feitas acerca do teor das acções que matizam a existência destas personagens, assim como do clima absurdo e metafórico que coloca em cena um Senhor dependente do seu Escravo, conservando os progenitores dentro de caixotes do lixo. Podemos, por exemplo, imaginar que aquilo que geralmente apelidamos de absurdo (ausência de sentido para a existência) é superado por Beckett abdicando da necessidade desse sentido. Cada gesto, cada acção, cada momento, são fins em si mesmos determinados por um ter que fazer sem horizonte à vista.
   O “Jogo do Fim” é o daqueles que se reconhecem derrotados à partida, percebem a inevitabilidade da extinção aceitando-a enquanto tal, não carecendo de resposta para a eterna dúvida: o que faço aqui? Ou outra, muito dada a soluções metafísicas: para onde vou? À dúvida sobre o que havia antes do universo, Beckett responde com o que sobrará depois do universo findar. Paradoxal, sem dúvida, pois pressupõe que algo perdurará depois de tudo terminar. É uma postura irónica, disponível para leituras psicanalíticas (não corresponderão os progenitores de Hamm a um passado/memória largado no lixo, à expurgação de um sentimentalismo da nostalgia?) ou políticas (à interdependência entre Hamm e Clov não poderá corresponder uma anulação da dinâmica histórica do Senhor e do Escravo?), que privilegia uma leitura artística, criativa, a partir da qual o universo pode surgir representado entre dois momentos chave: entrada e saída de cena.
   Logo no início, Hamm começa por dizer «É a minha deixa» (p. 10), ao passo que já no fim é Clov quem afirma: «É o que se chama sair de cena» (p. 83). Estamos no domínio do teatro, claro, da representação, sim, em que as personagens fazem questão de nos lembrar a sua essência particular. São personagens, são peças num tabuleiro de xadrez. Mas que outra coisa será cada um de nós senão uma peça no tabuleiro da sua cultura, uma personagem no palco da existência social e política? Daí que seja natural projectarmos associações com a actualidade à medida que vamos lendo “Jogo do Fim”, recordando tanto os refugiados do mediterrâneo cujas vidas agonizam em espera como os velhos da nossa vergonha definhando em lares de propriedade duvidosa. A ameaça é global, ecológica, pandémica, o fim dos dias todos os dias parece iminente. O tempo e o espaço do “Jogo do Fim” poderão não ser históricos, mas encaixam com facilidade nos factos de uma História limite repleta de visões do Apocalipse. Clov sonha com ordem: «Um mundo em que tudo estivesse silencioso e imóvel e cada coisa no seu último lugar, por baixo da última poalha» (p. 60). É o sonho da morte. Estranho é que ele sonhe com o que parece ter-se concretizado. Talvez ainda não tenha dado por isso, talvez não tenhamos dado por isso. Talvez por se ter apercebido de tamanha insensibilidade, Samuel Beckett haja dito que a frase mais importante da peça cabe a Nell: «Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas...» (p. 25).

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #8


 

Entre as inúmeras peripécias que se contam acerca da estreia de “Fin de partie”, há a escolha dos intérpretes que fariam de Nagg e Nell. Os ensaios decorriam com Roger Blin e Jean Martin, mas sem actores dispostos a interpretar um casal confinado em caixotes do lixo. Vários actores abordados queixaram-se a Blin que o texto era bom e seria uma honra trabalharem juntos, mas podia ser o último papel que desempenhariam em palco. Ficar para a história dentro de um caixote do lixo não era risco que se corresse. Georges Adet não pensou assim, fez de Nagg tanto em Londres como em Paris. Conta James Knowlson, in “Damned to Fame - The Life of Samuel Beckett” (Bloomsbury, 1997, p. 434): «Adet era bastante velho e desempenhou o papel sem dentadura. Ensaiava com dentes, mas, no decorrer da actuação, uma vez colocado dentro do caixote do lixo, tirava a prótese e guardava-a num lenço. Com os dentes removidos, o rosto afundava dramaticamente para dentro e o lábio inferior curvava-se na boca de um modo senil. O público costumava perguntar, com admiração e espanto, como conseguia ele alcançar aquele efeito notável, já que, chamado ao palco no fim das actuações, ressurgia com os dentes no lugar, rasgando deliberadamente um enorme sorriso durante os aplausos» (tradução minha).

domingo, 11 de outubro de 2020

SERÁ DOENÇA?

Hoje estive a olhar para as estatísticas do weblog. Um fenómeno curioso é raros serem os posts sobre música, ficção, cinema, teatro, filosofia ou mesmo política que geraram polémica e discussões acérrimas com comentários anónimos. Só a poesia gera indignação por estas bandas. Com tiragens raramente superiores a 300 exemplares, um espectro de leitores que se conhecem praticamente todos uns aos outros, dezenas de pequenas editoras a publicarem centenas de livros todos os anos, é do domínio do fantástico as doses de fel produzidas entre poetas e leitores de poesia. Será doença?

QUEM DÁ MAIS

Quem é que vai chegar-se à frente com o primeiro livro de Louise Glück em português? Assírio & Alvim, Relógio D'Água, Tinta-da-China? Porto Editora, Bertrand? Entretanto encontrei poemas traduzidos para português (de Portugal) nos weblogs "Do Trapézio, Sem Rede", "Enfermaria 6", "O Melhor Amigo" e "Rua das Pretas". Quem dá mais? Seria lindo que aparecesse numa pequena editora.

sábado, 10 de outubro de 2020

PRÉMIOS

Vem na Wikipédia: "Os seguintes prémios são concedidos anualmente: Nobel de Física (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia), Nobel de Química (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia), Nobel de Fisiologia ou Medicina (decidido pelo Instituto Karolinska de Medicina), Nobel de Literatura (decidido pela Academia Sueca), Nobel da Paz (decidido por um comitê designado pelo parlamento norueguês), Prémio do Banco Central da Suécia de Economia em memória de Alfred Nobel (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia)". Infelizmente, só o da Literatura gera discussão. O público das redes sociais é parco em conhecimentos de Física, Química e Medicina. De Literatura sabem muito, ou julgam saber, ou acham que é suposto saber. Não sei. Este ano, o da Paz foi atribuído ao Programa Alimentar Mundial (PAM). Também não é tema que gere grandes debates ou discussões. Quem quer saber da fome no mundo?

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

AUTOBIOGRAFIA DO VERMELHO

Depois de vencer o Prémio Princesa das Astúrias das Letras em Junho passado, a poeta canadiana Anne Carson (n. 1950) foi apontada como uma das principais candidatas ao Nobel da Literatura. Acabou por ser Louise Glück a contemplada, poeta de língua inglesa que não está publicada em livro por cá. De Anne Carson existem dois livros na não (edições), “A beleza do marido” (Fevereiro de 2019), com tradução de Tatiana Faia, e este “Autobiografia do Vermelho" (2.ª edição, Novembro de 2017), com tradução conjunta de João Concha e Ricardo Marques. Teria sido curioso ver o mais aguardado prémio literário do ano atribuído a uma poeta publicada por uma editora sem distribuição na maior rede livreira do país. Mais tarde ou mais cedo será um facto, tendo em conta o panorama geral. Empenhados na novidade descartável, editores financeiramente robustos insistem em desperdiçar papel com decalques do pior que atola o espaço das livrarias. Degeneradas em meras lojas que vendem livros, a maioria das livrarias curva-se a esta ânsia do best-seller que dita o mercado. Mais gritante é tal realidade tratando-se de poesia, pelo que não estranhemos encontrar no catálogo de uma pequena editora os dois únicos livros traduzidos para português de uma das mais prestigiadas poetas da actualidade.

Romance em verso, para respeitar a designação em subtítulo, ou poema-romance, “Autobiografia do Vermelho” foi originalmente publicado em 1998. Natural de Toronto, Carson dedicou-se desde cedo ao estudo dos clássicos gregos. Traduziu Homero, Sófocles, Eurípedes, Safo, entre tantos outros. “Autobiografia do Vermelho” reflecte este trabalho académico, desde logo na configuração mitológica da narrativa, mas também enquanto afirmação de um tempo que transcende as metas fixas da história. Veja-se como o período de vida de Estesícoro surge delineado no proémio: «Ele surgiu depois de Homero e antes de Gertrude Steine, um intervalo difícil para um poeta» (p. 9). Ao poeta grego foi Anne Carson buscar o mito de Gerião, gigante com três cabeças e três troncos, de cor vermelha, habitante de Erítia (cujo significado é “O Lugar Vermelho”). Gerião é a personagem central desta “autobiografia”, título irónico e provocador num livro onde sujeito poético ou narrador lírico são compostos de personalidades emaranhadas.

A voz de Anne Carson surge acompanhada de ecos diversos que a povoam enquanto componentes distintas de um mesmo sangue. A cor vermelha, de resto, pode remeter exactamente para essa consanguinidade literária onde convivem mitologia grega e ameríndia, Emily Dickinson, Gertrude Stein e Virginia Woolf, num complexo de metamorfoses que tudo interliga. O Gerião de “Autobiografia do Vermelho” move-se em espaços diversos, por vezes oníricos, outras vezes identificáveis, entre acções cuja contemporaneidade está intimamente ligada a uma carga hereditária ancestral: «A autobiografia, / em que Gerião trabalhou desde os cinco anos até aos quarenta e quatro, / tinha tomado recentemente a forma / de um ensaio fotográfico. Agora que sou um homem em transição, pensou Gerião / usando a frase que aprendera de — / a porta atingiu a parede assim que Héracles a abriu com um pontapé e entrou / segurando um tabuleiro com duas chávenas e três bananas. / Serviço de quartos, disse Héracles procurando um espaço para pousar o tabuleiro» (p. 66).

A genealogia do monstro alado confunde-se com a daqueles que, segundo a mitologia ameríndia, conhecem o interior dos vulcões e de lá regressam para contar como é. Esta descida aos infernos, por assim dizer, tem qualquer coisa de revelador acerca da criação artística propriamente dita. Seja através da comédia, seja através da tragédia, a criação corresponde a um desdobramento, o que equivale a um processo de despersonalização que podemos identificar com uma espécie de morte. Por cá, Ruy Belo disse-o de modo assertivo num “breve programa para iniciação ao canto”. Gerião refugia-se na fotografia — a arte de fixar instantes —, amaldiçoado por uma infância desprotegida no seio de uma família disfuncional. Acaba envolvido num triângulo amoroso homossexual on the road pelo sul da América. Mitológico, lendário, mas ao mesmo tempo deveras actual, a personagem central desta autobiografia é uma cor que é um corpo que é um som: «O som / era quente como o interior de uma cor» (p. 117). Carson respeita a tradição ao humanizar o monstro, recolocando-o numa paisagem humana que em tudo se assemelha à do nosso tempo histórico. Um tempo de heróis sem nome, acrescente-se. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

GLÜCK GLÜCK

Tanta gente com o pito aos saltos por causa do Nobel da Literatura, vai-se a ver e Glück. Toma mais um sapo pela goela abaixo. Sempre achei estranho o entusiasmo das pessoas com este prémio, mas ao mesmo tempo divertia-me imenso com ele quando era livreiro. Guardo inúmeras histórias. Sucedeu algumas vezes não termos livros para vender, o que deixava toda a gente muito frustrada. Nomeadamente aqueles clientes que entravam a pedir livros do último Nobel da Literatura. A gente perguntava o nome do autor e não sabiam dizer. Uma vez vinguei-me. Foi no ano em que atribuíram o prémio ao Tomas Tranströmer. Não havia livros. A antologia da Relógio D’Água surgiu no ano seguinte, assim como o livrito em prosa que a Sextante (da Porto Editora) se apressou a publicar para fazer render o peixe. Eu fartei-me de vender livros à conta da lacuna. Tem livros do Prémio Nobel? Temos. E lá ia uma Herta Müller ou um Orhan Pamuk, quando não uma Wisława Szymborska ou um Seamus Heaney. Queriam lá saber quem era o Prémio. Desde que fosse Nobel, e viesse o feito mencionado na badana, era como levar Pepsi à mesa do freguês que pede Coca-Cola. Bebiam na mesma.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OS LUGARES DA POESIA


Poesia, um dia
Residências literárias dirigidas por Jaime Rocha
Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão
Direcção de Graça Baptista
Os Lugares da Poesia
Colecção de postais comemorativa do 12.º aniversário da BMJBM e da 9.ª edição do encontro Poesia, Um Dia
Edição do Município de Vila Velha de Ródão


Vila Velha de Ródão (com fotografia de Ricardo São Pedro), Esqueleto (com fotografia de Estela Figueiredo), poemas postais.

domingo, 4 de outubro de 2020

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 64
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
30 de Setembro de 2020
 
Estamos Vivos, p. 4.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #7

 

“Jogo do Fim” é a versão original de Isabel Lopes para “Fin de partie” (1957), peça que o Nobel da Literatura Samuel Beckett escreveu em francês antes da versão inglesa “Endgame”. Posterior a “À Espera de Godot”, era para Beckett a preferida das suas peças. Compreende-se a preferência pelo modo como se concentram em “Jogo do Fim” todos os grandes temas beckettianos: tempo, ser, existência, anormalidade.

   No xadrez da cena jogam o rei Hamm e o peão Clov, numa interdependência reconfiguradora das figuras de um Senhor caído em desgraça e de um Escravo incapaz de se libertar. Nagg e Nell são as peças tombadas para fora do tabuleiro. Sobras de um passado indefinido, espreitam do fundo de caixotes do lixo como a memória espreita do fundo do pensamento. Num tempo para lá do tempo, quatro personagens são o que sobra da humanidade numa espécie de bunker, refúgio, abrigo ou covil, em torno do qual um mar de cinzas tomou conta da natureza.

   Escrita na ressaca da Segunda Grande Guerra, sob a ameaça de um conflito nuclear, o “Jogo do Fim” é o retrato de um espaço e de um tempo possíveis após o apocalipse. A um cessar do tempo corresponde também a claudicação das utopias, a ausência de horizontes, a memória feita detrito, uma espera em que o presente se joga na ausência de qualquer perspectiva acerca do futuro.

   O universo especulativo de Samuel Beckett abre-se a inúmeras analogias com uma actualidade assaltada pela vertigem do apocalipse, seja pelos campos de concentração onde milhares de refugiados desesperam no vazio, seja pelos lares da nossa vergonha onde a velhice definha lentamente. Trágica, mas ao mesmo tempo cómica, de uma ironia subtil repleta de gagues em contexto de absoluta estranheza, é à personagem de Nell que cabe uma síntese eventual deste jogo:

 

«— Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas…»

CONFORMISMO DESOLADOR

Excelente texto de Vasco M. Barreto no Ouriquense, acompanhado de uma óptima ideia. Eu apoio: 


Pedroso já disse que não vai dar troco a Ventura durante a campanha, mas o povo tem aqui uma segunda oportunidade, se Pedroso permitir: participar numa campanha de crowdfunding para processar o Chega e pedir uma indemnização milionária que deixasse Ventura sem um tostão. Se nada for feito, a Justiça em Portugal passará oficialmente a ser uma piada e fica demonstrado que o povo realmente não presta

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #6

 


Parece que hoje é o Dia Mundial da Música. Beckett tinha uma relação especial com a música, havendo quem diga que escrevia peças como um compositor compõe partituras. Nos seus textos encontramos diversos jogos fonéticos, o ritmo é meticulosamente medido, as modulações das personagens são de extrema importância. Colin Duckworth diz que «conhecer uma peça de Beckett é saber ou intuir como soa». Analogias do teatro beckettiano com a música não são raras. O Autor, que tocava bem piano, terá revelado aos Actores da apresentação berlinense de “Jogo do Fim” que o nome da personagem Hamm correspondia a uma abreviatura da palavra alemã Hammer, estabelecendo uma relação com os martelos de um piano, assim como Clov proviria de clavis (termo latino para key, que no inglês corresponde à tecla do piano). Thomas Mansell estabelece um paralelo entre “Jogo do Fim” e a “Hammerklavier Sonata” de Beethoven, avançando com uma fascinante explicação para a complexa relação estabelecida entre as personagens Hamm e Clov: «O dedo de um pianista — em si mesmo uma espécie de miraculoso martelo musculado — bate na tecla, que por sua vez activa o martelo». Eis o princípio da acção.

DEREK MAHON (1941-2020)


 

Morreu Derek Mahon (23 November 1941 – 1 October 2020), extraordinário poeta irlandês, natural de Belfast. Estreou-se em 1965, recebendo vários prémios ao longo da vida. Já este ano foi galardoado com o Prémio Irish Times Poetry Now. Acabei de mudar para português um poema seu, à laia de homenagem, proveniente do livro "The Snow Party" (1975). Espero que o poeta me perdoe, lá onde estiver:

FESTA DA NEVE

para Louis Asekoff

Chegando à cidade
de Nagoya, Bashô é convidado
para uma Festa da Neve.

Há um tilintar de porcelana
e chá da China.
As apresentações são feitas.

Ajuntam-se então
todos à janela
para verem a neve cair.

A neve cai em Nagoya
e mais a sul
nos azulejos de Quioto.

A leste, para lá de Irago,
a neve cai
como folhas num mar de gelo.

Noutros lugares queimam
bruxas e hereges
em praças efervescentes,

milhares morreram desde o amanhecer
ao serviço
de reis bárbaros;

mas há silêncio
nas casas de Nagoya
e nas colinas de Ise.

GAZETA DAS CALDAS

 


Gazeta das Caldas
95 anos
Director Convidado: Carlos Querido
1 de Outubro de 202
Ilustração na capa de André Carrilho


Parábola dos calhaus, Namorados, Abrigo, pp. 8-10.